Por Eça de Queirós (1901)
Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas serras com o caseiro, o excelente Melchior, para que o Senhor de Tormes, solenemente, tomasse posse do seu Senhorio. E à noite o primeiro bródio da serra, com os pitéus vernáculos do velho Portugal!
Jacinto sorria, seduzido:
-Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silvério. Eu recomendei que fosse um soberbo cozinheiro português, clássico. Mas que soubesse trufar um peru, afogar um bife em molho de moela, estas coisas simples da cozinha de França!... O pior é não te demorares, seguires logo para Guiães...
-Ah! menino, anos da tia Vicência no Sábado... Dia sagrado! Mas volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga Bucólica. E, está claro, para assistir à trasladação.
Jacinto estendera o braço:
-Que casarão é aquele, além no outeiro, com a torre?
Eu não sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era nesse feitio atarracado e maciço. Casa de séculos e para séculos – mas sem torre.
-E logo se vê, da estação, Tormes?...
-Não! Muito no alto, numa prega da serra, entre arvoredo.
No meu Príncipe já evidentemente nascera uma curiosidade ela sua rude casa ancestral. Mirava o relógio, impaciente. Ainda trinta minutos! Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de iniciado: -Que doçura, que paz...
-Três horas e meia, estamos a chegar, Jacinto!
Guardei o meu velho Jornal do Comércio dentro do bolso do paletó, que deitei sobre o braço; - e ambos em pé, às janelas, esperamos com alvoroço a pequenina Estação de Tormes, termo ditoso das nossas provações. Ela apareceu enfim, clara e simples, à beira do rio, entre rochas, com os seus vistosos girassóis enchendo um jardinzinho breve, as duas altas figueiras assombreando o pátio, e pôr trás a serra coberta de velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a imensa barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estação, o louro Pimenta, meu condiscípulo em Retórica, no Liceu de Braga. Os cavalos decerto esperavam, à sombra, sob as figueiras. Mal o trem parou para mim com amizade:
-Viva o amigo Zé Fernandes!
-Ó belo Pimentão!...
Apresentei o senhor de Tormes. E imediatamente:
-Ouve lá, Pimentinha... Não está aí o Silvério?
-Não... O Silvério há quase dois meses que partiu para Castelo de Vide, ver a mãe que apanhou uma cornada dum boi!
Atirei a Jacinto um olhar inquieto:
Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois não estão aí os cavalos para subirmos à Quinta?
O digno chefe ergueu com surpresa as sobrancelhas cor de milho:
-Não!... Nem Melchior, nem cavalos... O Melchior... Há que tempos eu não vejo o Melchior!
O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Então, não avistando em torno, na lisa e despovoada Estação, nem criados nem malas, o meu Príncipe e eu lançamos o mesmo grito de angústia:
-E o grilo? as bagagens?...
Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:
-Grilo!... Ó Grilo!... Anatole!... Ó Grilo!
Na esperança que ele e o Anatole viessem mortalmente adormecidos, trepávamos aos estribos, atirando a cabeça para dentro dos compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que retumbava: - “Grilo, estás aí, Grilo?” – Já duma terceira classe, onde uma viola repenicava, um jocoso gania, troçando: - “Não há pôr aí um grilo? Andam pôr aí uns senhores a pedir um grilo!” – E nem Anatole, nem Grilo!
A sineta tilintou.
-Ó Pimentinha, espera, homem, não deixes largar o comboio!... As nossas bagagens, homem!
E, aflito, empurrei o enorme chefe para o furgão de carga, a pesquisar, descortinar as nossas vinte e três malas! Apenas encontramos barris, cestos de vime, latas de azeite, um baú amarrado com cordas... Jacinto mordia os beiços, lívido. E o Pimentinha, esgazeado:
-Ó filhos, eu não posso atrasar o comboio!...
A sineta repicou... E com um belo fumo claro o comboio desapareceu pôr detrás das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto. Ali ficávamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grilo, sem procurador, sem caseiro, sem cavalos, sem malas! Eu conservava o paletó alvadio, de onde surdia o Jornal do Comércio. Jacinto, uma bengala. Eram todos os nossos bens!
O Pimentão arregalava para nós os olhinhos papudos e compadecidos. Contei então àquele amigo o atarantado trasfego em Medina sob a borrasca, o Grilo desgarrado, encalhado com as vinte e três malas, ou rolando talvez para Madri sem nos deixar um lenço...
-Eu não tenho um lenço!... Tenho este Jornal do Comércio. É toda a minha roupa branca.
Grande arrelia, caramba! – murmurava o Pimenta, impressionado. – E agora?
-Agora – exclamei – é trepar para a Quinta, à pata... A não ser que se arranjassem aí uns burros.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.