Por Lima Barreto (1909)
— É o autor que pergunto.
— O autor! É uma fidalga portuguesa...
— Livra! São versos de folhinha...
— De folhinha!
— De folhinha, sim. Este aqui. “Quem tem amores vai dormir” — é “verso” de hoje até!
— Não é possível! Não é possível! reclamou o crítico literário.
— Queres ver? Caminha, gritou o russo para mim, traze-me aí o “verso” de hoje.
Procurei-o nos papéis de uma cesta e entreguei-o ao redator poliglota. O estrangeiro passou os olhos no papelucho e entregou-o ao Floc. O oráculo artístico do jornal correu rapidamente os versos e confessou: é verdade, acrescentando — que cinismo! mas sem convicção nem indignação.
O diretor tinha entrado para o gabinete seguido de Leporace e nenhum dos dois ouvira o breve diálogo trocado na sala entre os dois redatores. De repente, com aquela sofreguidão que lhe era peculiar e que ele punha nos atos, nos afetos e nos seus medíocres artigos, chegou-se à porta e perguntou ao Floc:
— Vi esse tal Andrade na rua... O jornaleco dele ainda continua a sair?
— Penso que sim.
— Tens lido?
— Às vezes.
— Continua a insultar-me?
— Sempre. E acrescentou: O doutor se incomoda com o que diz esse vagabundo?
— Não... Ora! Mas... Deixa estar que ele há de precisar de mim, há de cair em alguma; então veremos... Não se esqueçam dele, quando for ocasião, casquem... Patife!!!
E passou por mim ainda com os dentes rilhados, cheio de raiva, desabotoando a barguilha, apressado para o mictório, olhando para o lado em que eu estava, como querendo dar a entender que ele era forte, muito forte, e havia de esmagar um dia aquele pigmeu que ousava pôr-se diante do seu caminho triunfante, atirando-lhe alfinetadas com uma cômica violência liliputiana. Havia de esmagá-lo, inutilizá-lo para sempre e faze-lo sofrer eternamente o grande desaforo de o não supor Deus no “Domingo”, a ele, doutor Ricardo Loberant, diretor-proprietário d'O Globo, jornal independente, órgão do povo e dos sofredores, pesadelo dos ministros, espada de Dâmocles suspensa sobre a tríade política e administrativa da República. E ele tinha razão.
O terror que inspirava dentro do jornal, irradiava para fora. Aquele homem magrinho, fraco de corpo e de inteligência, sem cultura. amedrontava a cidade e o país. Todos o cortejavam; os colegas que o combatiam, evitavam feri-lo de frente. Um ou outro, num momento de desespero, tinha a coragem de enfrenta-lo; mas era num momento de desespero. Armados, cercados de todos os lados, tinham uma convulsão e atiravam-se, desferindo golpes para a esquerda e para direita. Se porventura algum era mais certeiro e parecia esmagar o doutor Loberant, ficava-se pasmado que se desse o contrário. Longe de perder prestigio, esses ferimentos aumentavam-no. O povo não queria ver a sua ignorância, a sua inabilidade no escrever; era valente e dizia a verdade. Houve uma polêmica sobre um tratado de limites em que o seu desconhecimento da geografia pátria ficou patente; o jornal foi mais lido. Em outra vez, deu como tendo feito oferecimentos a conventos do Brasil, reis da dinastia de Borgonha; recebeu uma ovação. De dia para dia, o jornal crescia em venda. Todos o liam; era o jornal dos desgostosos, dos pequenos empregados, dos ratés de todas as profissões e também dos ricos que não podem ganhar mais e dos destronados das posições e das honras. Na venda avulsa, nenhum o excedia, nem o próprio Correio da Manhã. Só o Jornal do Brasil se mantinha emparelhado com ele, e a rivalidade era acesa. Julgando que a prosperidade do outro era devida aos bonecos, Loberant punha na sua folha bonecos. Parecendo-lhe que isso não era o bastante, forjava anúncios, “calhaus”, calhaus de “precisa-se”, de "aluga-se", de pequenos anúncios que, em abundância, parecem ser o índice da prosperidade de um jornal. Mas não contente com esses expedientes todos, um dia o doutor Loberant, supondo a popularidade do rival devida à falta de gramática nos artigos, chegou à redação furioso e, com o seu modo habitual, berrou:
— Não quero mais gramática, nem literatura aqui!... Nada! Nada! De lado essas porcarias todas... Coisa para o povo, é que eu quero!
O Lobo, que estava na sala, teve em começo um grande olhar de tristeza com que envolveu toda a sala e a coleção de jornais dependurados pelas paredes. Depois de um momento de hesitação, tomou coragem e observou:
— Mas, doutor...
— Ora, Lobo! já vem você...
— Mas, doutor, a língua é uma coisa sagrada. O culto da língua é um pouco o culto da pátria. Então o senhor quer que o seu jornal contribua para corrupção deste lindo idioma de Barros e Vieira.
— Qual Barros, qual Vieira Isto é brasileiro — coisa muito diversa!
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.