Por Coelho Neto (1906)
— Aqui tem, minha senhora: pode escolher um grupo à vontade: Círculo Espírita Conciliação, Sociedade Espírita Allan Kardec, Grupo Espírita Maria Nazaré...
— Este, — disse a velha, impressionada com o doce nome da Mãe de Jesus. O homem perguntou-lhe onde havia nascido, em que ano, onde residia. Ela respondia em murmúrio, d'olhos baixos. Lembrando-se, porém, que não levava dinheiro, balbuciou, vexada: Eu não vim prevenida...
— Não faz mal... — e entregando-lhe a pena: Pagará depois. Tenha a bondade de escrever o seu nome.
Curvou-se e lançou tremulamente o nome diante da cifra 2811. O homem deu-lhe um cartão com friso d'ouro, para que ela assinasse, explicando que — "Onde quer que se apresentasse com aquele cartão, seria reconhecida e aceita como obreira da regeneração da Humanidade".
E falou em médico, farmácia, dieta, enterro, enquanto passava o mataborrão sobre as linhas escritas. Depois, mostrando-lhe o corredor da esquerda iluminado, disse:
— Estão exercitando os médiuns lá dentro. Depois a senhora irá comigo.
Mas houve um rumor na sala das sessões íntimas, e o mulato, escancarando a porta, declarou: "Que podiam entrar".
— Vamos, convidou o apóstolo.
E a negra, inclinando-se, segredou à ama:
— Agora é que vosmecê vai ver.
A sala das sessões íntimas, ao contrário do que imaginara Dona Júlia, "um lugar escuro e triste", era clara e alegre, forrada de vistoso papel e ramagens miúdas, iluminada por seis bicos de gás, respirando por duas janelas largas. Quadros santos ornavam as paredes e, por trás da mesa, à qual se havia sentado o mesmo velho indolante e acalorado que presidira à pregação, inclinava-se um grande quadro com o retrato de um homem em tamanho natural. Os crentes apinhavam-se. As duas mulheres só conseguiram achar lugar na quarta fila. Dona Júlia acomodou-se justamente ao lado da mocinha que esmolara para os irmãos enfermos.
Todas as fisionomias tinham expressão sinistra: os olhos brilhavam em desusado fulgor, os peitos ofegavam, e, de quando em quando, suspiros angustiados subiam de um ponto, doutro. A velha senhora, enquanto o apóstolo conversava com o presidente, pôs-se a examinar a sala, como à procura da passagem por onde deviam entrar os espíritos invocados.
Felícia, atenta, d'olhos na mesa, mal respirava e a mocinha, nervosa, irrequieta, agitava-se na cadeira, esfregava as mãos, estalava os dedos, com visível ansiedade; por vezes, toda ela estremecia, a cabeça tombava-lhe para as costas, os olhos ficavam esgazeados, como em espasmo.
Dona Júlia começava a sentir a fascinação comunicativa daquele bando de alucinados. Voltando a cabeça, encontrava os olhos de uma mulher imóveis, de um brilho vítreo, ou via uma negra cabisbaixa, araviando às surdas.
De repente um homem gemeu num arranco: "Não posso! Jesus, meu Senhor...!" e continuou murmurando, a bater no peito às punhadas. O ambiente tornava-se abafadiço, com um calor de rescaldo tresandando a suor e a morrinha.
— Minh'ama está vendo? — Estou.
O homem continuava resmoneando. O seu hálito quente chegava em bafos à nuca de Dona Júlia, e a sua murmuração punha um zumbido constante na sala. Ao fundo, a criança da coqueluche rompeu a tossir, e houve um ci ci de acalento, até que o apóstolo anunciou:
— Está aberta a sessão.
Os crentes acomodaram-se e o velho, com pronunciado acento espanhol, dirigiu um apelo aos irmãos, que se achassem dispostos para o trabalho.
De um canto levantou-se um homenzinho magro, lívido, d'olhos fundos, a barba crescida, vestido com pobreza e descuido. Todos os olhares seguiam-no com interesse, e ele passava d'esguelha, por entre os devotos, limpando as mãos a um grande lenço vermelho de barra florida.
— É o irmão Canedo, disseram.
O homem sentou-se, de costas para a assembléia, impôs as mãos a mesa, fechou os olhos, apertando muito as pálpebras, e quedou, como adormecido, dominado por todos aqueles olhares fixos, que o envolviam em fluidos.
Súbito, entrando em crise, atirou violentamente a cabeça para trás, sorvendo um fôlego, pôs-se a tremer e, em voz fraca, murmurou:
— Que a paz do Senhor seja convosco!
Correu um sussurro por toda a sala e o homem, sob o prestígio das forças espirituais, pôs-se a falar, aos arrancos, profeticamente, com frases laceradas:
— Muitos dos que aqui se acham, conheceram-me enquanto andei nesta vida de torturas...
O apóstolo interrogou:
— Quem és? Quem foste?
E o médium declarou:
"Que se chamara Amaral. Fora do Correio..." e, pausadamente soturnamente, agoniado, entrou a falar da revolta de setembro, lamentando a carnificina, as depredações, as vinganças, os atentados covardes, a tristeza das viúvas, o abandono dos órfãos. O apóstolo interrompeu-o:
— Dize-nos alguma coisa que nos aproveite. Estamos aqui reunidos, ansiosos pelas palavras edificantes dos que gozam a graça de sentir a presença de Deus. Ilumina-nos.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.