Por Raul Pompéia (1888)
A certas horas reunia-se ali o colégio inteiro, desde os elementos de primeiras letras até os mais adiantados cursos. Agrupavam-se por ordem de habilitações; o abc diante da porta de entrada, à direita; à extrema esquerda, os filósofos, cogitadores do Barbe, os latinistas abalizados, os admiráveis estudantes do alemão e do grego. Baralhavam-se as três classes de idades; podia estar um marmanjo empacado à direita na carteira dos analfabetos, e podia estar um bebê prodígio a desmamar-se na filosofia da esquerda. O acaso da colocação podia sentar-me entre o Barbalho e o Sanches, como podia da afeição do Alves desterrar-me uma légua. Dependia tudo do adiantamento.
Como compensação destas desvantagens havia os telégrafos e a correspondência de mão em mão. Os fios telegráficos eram da melhor linha de Alexandre 80, sutilíssimos e fortes, acomodados sob a tábua das carteiras, mantidas por alças de alfinete. Em férias desarmavam-se. Dois amigos interessados em comunicar-se estabeleciam o aparelho; a cada extremidade, um alfabeto em fita de papel e um ponteiro amarrado ao fio; legitimo Capanema. Tantas as linhas, que as carteiras vistas de baixo apresentavam a configuração agradável de citaras encordoadas, tantas, que às vezes emaranhava-se o serviço e desafinava a citara dos recadinhos em harpa de carcamano.
Havia o gênio inventivo no Ateneu, esperanças de riqueza, por alguma descoberta milagrosa que o acaso deparasse à maneira do pomo de Newton. Ocorre-me um perspicaz que contava fazer fortuna com um privilégio para explorar ouro nos dentes chumbados dos cadáveres, uma mina! Foi assim a invenção malfadada do telégrafo-martelinho. Tantas pancadinhas, tal letra; tantas mais, tantas menos, tais outras. Os inventores achavam no sistema dos sinais escritos a desvantagem de não servir à noite. O elemento base desta reforma era uma confiança absoluta na surdez dos inspetores; aventuroso fundamento, como se provou.
As primeiras pancadinhas passaram; apenas os estudantes mais próximos sorriam disfarçando. Mas o martelinho continuou a funcionar e ganhou coragem. No silêncio da sala, gotejavam as pancadas, miúdas, como o debicar de um pintainho no soalho.
No alto da tribuna, o Silvino coçou a orelha e ficou atento; começava a implicar com aquilo. Silêncio... silêncio, e as pancadinhas de vez em quando.
Foi o diabo. Inesperadamente precipitou-se do alto assento como um abutre, e com a finura do oficio foi cair justo sobre o melhor de um despacho. Seguiu-se a devastação. Examinando a carteira, descobriu a rede considerável dos outros telégrafos. Foi tudo raso. Brutal como a fúria, implacável como a guerra — oh Havas! — o Silvino não nos deixou um fio, um só fio ao novelo das correspondências! De carteira em carteira, por entre pragas, arrancou, arrebentou, destruiu tudo, o vândalo, como se não fosse o fio telegráfico listrando os céus a pauta larga dos hinos do progresso e a nossa imitação modesta uma homenagem ao século.
A violência não fez mais que aumentar o tráfego dos bilhetinhos e suspender temporariamente a telegrafia.
De mão em mão como as epístolas, corriam os periódicos manuscritos e os romances proibidos. Os periódicos levavam pelos bancos a troça mordaz, aos colegas, aos professores, aos bedéis: mesmo a pilhéria blasfema contra Aristarco, uma temeridade. Os romances, enredados de atribulações febricitantes, atraindo no descritivo, chocantes no desenlace, alguns temperados de grosseira sensualidade, animavam na imaginação panoramas ideados da vida exterior, quando não há mais compêndios, as lutas pelo dinheiro e pelo amor, o ingresso nos salões, o êxito da diplomacia entre duquesas, a festejada bravura dos duelos, o pundonor de espada à cinta; ou então o drama das paixões ásperas, tormentos de um peito malsinado e sublime sobre um cenário sujo de bodega, entre vômitos de mau vinho e palavradas de barregã sem preço.
Com a proximidade das férias de ano, tudo desaparecia. O aborrecimento imperava.
A impaciência da expectativa de livramento fazia intolerável a reclusão dos últimos dias.
Organizavam-se os preparativos para a grande exposição de trabalhos da aula de desenho, as aulas primárias estavam a ponto de entrar em exames, dos particulares semestrais, em que o diretor sondava o aproveitamento. Estes cuidados não podiam combater a inércia expectante dos ânimos.
No salão do estudo poucos abriam livro. Os rapazes alargavam os cotovelos sobre a carteira, fincavam o queixo nas costas da mão e abstraíam-se com o olhar imóvel, idiotismo de espera, como se tentassem perceber o curso das horas no espaço. Por trás da casa, no quintal do diretor, ouvia-se cantando Ângela, cantilenas espanholas, sinuosas de moleza; mais longe, muito mais, em zumbido indistinto, como um horizonte sonoro, as cigarras trilavam, agitando o ar quente com uma vibração de fervura.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.