Por Adolfo Caminha (1896)
E o secretário rondava a mesa, de um lado para o outro, indo e vindo, com o seu ar de fidalgo, calça de casimira e paletó branco.
Foi então que, pela primeira vez, Adelaide viu quanto estimava o marido, quanto o idolatrava. Aquela demora doía-lhe como se o já estivesse contemplando morto no meio da casa, dentro de um caixão negro com galões de ouro... Mais um quarto de hora: novo acesso de choro.
— Menina, tenha paciência que o homem vem! Adelaide! - ralhou D. Branca.
Com efeito, a campainha retiniu no corredor e uma alegria súbita iluminou o rosto de Adelaide que ergueu-se para ver chegar o bacharel. Evaristo vinha carrancudo, muitíssimo sério.
— Boa noite! cumprimentou, respeitoso.
— Oh, Evaristo! — fez a esposa abraçando-o.
— Oh, o quê?
— Que horas!
— Então, faz-se ou não se faz a república? — interrompeu o secretário.
— Não posso responder agora; estou com muito sono... — disse, enfadado, o bacharel.
— Acredito, acredito; vamos tratar de dormir, que já passa de meia-noite.
Trocaram-se ainda algumas palavras frias, sem interesse, e os dois casais separaram-se.
Adelaide compreendeu que o marido estava de mau humor e não lhe fez a menor pergunta, a mais leve recriminação: tinha-o a seu lado — era o principal. Ele também não disse a causa da demora, nem falou em coisíssima alguma.
Cantarolava baixo, desafinadamente, enquanto se despia.
Mas Adelaide não adormeceu logo; ferroava-a uma espécie de remorso, um vago arrependimento de ter pensado, com insistência, numas tantas loucuras de mulher sem juízo, nem moralidade... ela "a mais honesta das esposas, a mais virtuosa das donas-de-casas". Como aquilo fora, não sabia; o certo é que tinha uma espécie de remorso, uma dor no fundo d'alma como um ponto negro na brancura da sua consciência.
Duas vezes viu, à luz do quarto, o rosto tranqüilo do bacharel dormindo e duas vezes teve vontade de o acordar, simplesmente, para lhe dizer "que estava nervosa"; mas não se animou: preferiu respeitar o sono calmo de Evaristo. Chegavase a ele, medrosa, supersticiosa, sentindo-lhe a quentura do corpo, a respiração ronronada, e encolhia-se muito franzina, quase a desaparecer nos lençóis, como uma criança. Uma figura de homem interpunha-se entre ela e o marido, tentadora, chamando-a com os lábios fechados em beijo, criminosamente, o olhar voluptuoso, fosforescente de desejo, pousando nela e queimando-lhe as faces.
— Evaristo! Evaristo! — Há!... Que é?
O bacharel levantou a cabeça, espantado, os olhos muito vermelhos de sono.
— Que é?... — repetiu.
Adelaide estava diante dele fitando-o, como se o não reconhecesse. Mas, ouvindo-o falar:
— Nada... uma sombra...
— Que sombra?
— Uma coisa na parede...
— Pois tu ainda estás acordada?.
Ela não respondeu; tornou a deitar-se, muda, com arrepios de frio, enroscando-se toda.
Foi uma noite de pesadelos, de sonhos incríveis e de sobressaltos.
Adelaide, pela manhã, jurou ir-se embora daquela casa, fugir para longe, voltar à província, onde nunca o demônio lhe sorrira tão de perto.. Em Coqueiros, ao menos gozava tranqüilidade, ninguém lhe ia meter na cabeça idéias perniciosas a titulo de civilização, nem era obrigada a luxo e a hipocrisias. E outra vez a imagem da negra Balbina, como um tipo primitivo de ingenuidade e candura, acenava-lhe do fundo da memória, recordando-lhe o passado, os tempos felizes de uma existência quase bíblica, dourada pela esperança e pelo amor... Começava a odiar o Rio de Janeiro - esse Botafogo aristocrata e imoral, cheio de convenções, onde todo o mundo era grande, onde não havia pobreza, nem sinceridade, e só se falava no Lírico, em Petrópolis e vestidos à última moda e passeios a carro e piqueniques e na família imperial! Já podia ter-se mudado, já podia estar longe de tanta mentira. A culpa era sua de mais ninguém... Bem feito, muito bem feito!...
Andava-lhe na cabeça um enxame de idéias; palpitava-lhe o coração desordenadamente; queria, mas não tinha coragem de falar a Evaristo numa mudança breve, numa retirada escandalosa, que podia suscitar desconfiança no espírito dele. Era preciso ir pouco apouco fugindo à tentação daquele homem, evitando-o, mostrando-se fria, de uma frieza de estátua, cada vez que ele se aproximasse dela, até ir-se embora da Corte com Evaristo.
E enquanto Adelaide pensava nessas coisas, sem nada dizer ao marido, o bacharel premeditava o arrasamento das instituições, ao mesmo tempo que lia, com avidez, os artigos revolucionários d'A Folha.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.