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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

— O senhor não estará enganado? tornou ele muito curioso, precipitadamente, numa voz quase humilde, o olhar grudado no rapaz.

E entrou a explicar, a dizer como era a portuguesa, como era o marinheiro: — Uma gorda, bonitona, muito vistosa, d’olhos grandes, que alugava quartos...

— Essa mesma, homem!

— O outro não tinha barba, era meio criança ainda, olhos azuis, muito alvo, bonitinho...

— Exatamente, informou o caixeiro. Foram ao teatro, ontem, à Tomada da Bastilha. Conheço muito D. Carolina. Dizem até que está amigada com o pequeno...

Quase as mesmas palavras do Herculano! A mesma história de mulher! BomCrioulo ficou imóvel, calado, perdido nas suas idéias. — Aleixo amigado com a portuguesa, com a D. Carolina! Era inacreditável, era um desaforo sem nome, um desrespeito, uma falta de vergonha, um escândalo!

— Está admirado? perguntou o rapaz fitando o negro, cujo olhar tinha agora uma dolorosa, uma extraordinária, uma indizível expressão de melancolia e surpresa. Não se admire, não, que é que o todos dizem...

E logo, interrompendo-se, com o braço estendido:

— Olhe, nem de propósito: aí vem ele, o pequeno...

Aleixo ia saindo porta fora, tranqüilamente, apertado na sua roupa azul e branca de marinheiro, a camisa decotada, a calça justa.

O negro teve um daqueles ímpetos medonhos, que o acometiam às vezes; garganteou um — oh! rouco, abafado, comprimido, e, ligeiro, furioso, perdido de cólera, sem dar tempo a nada, precipitou-se, numa vertigem de seta, para a rua. Não via nada, tresvariado, como se de repente lhe houvesse fugido a luz dos olhos e a razão do cérebro. Precipitou-se, e, esbarrando com o grumete, fintou-o pelo braço.

Tremia numa crise formidável de desespero, os olhos congestionados, um suor frio a porejar-lhe da testa negra e reluzente. O pequeno estacou surpreendido:

— Sou eu mesmo, rugiu Bom-Crioulo, sou eu mesmo! Pensavas que era só meter-te com a portuguesa, hein? Olha para esta cara, olha como estou magro, como estou acabado... Olha, olha!

E apertava bruscamente o outro, sacudindo-lhe como se o quisesse atirar no chão.

— Vê lá se me conheces, anda! Olha bem para esta cara!

O efebo debatia-se, pálido, aterrado:

— Me largue! Não me provoque, senão eu grito!

— Anda pr’aí, grita, se és capaz! Grita, safado, sem-vergonha... malagradecido!

Sua voz tomava uma inflexão voluptuosa e terrível ao mesmo tempo; a palavra saía-lhe gaguejada, estuporada e trêmula.

— Grita, anda!

O outro mudava de cores, recuava trôpego, a língua presa, quase a chorar, numa aflição de culpado, o olhar azul submisso refletindo a imagem do negro:

— Me largue, repetiu. Eu lhe peço: me largue!

Transeuntes olhavam-nos de banda e voltavam-se para os ver naquela posição, rosto a rosto, juntinhos, agarrados misteriosamente. Porque Bom-Crioulo não falava alto, que todos ouvissem, não dava escândalo, não fazia alarme: sua voz era um rugido cavernoso e histérico, um regougo abafado. longínquo e profundo.

— Grita, anda, grita pela vaca da Carolina!

— Me solte! continuou o efebo trêmulo, acovardado. Me largue!

— Não te largo, não, coisinha ruim, não te largo, não! Bom-Crioulo, este que aqui está, não é o que tu pensas...

— Mas eu não fiz nada! Me solte, que é tarde!

Os olhos do negro tinham uma expressão feroz e amargurada, muito rubros, cruzando-se, às vezes, num estrabismo nervoso de alucinado.

Um sujeito parou defronte, a olhá-los; vieram depois outras pessoas, outros curiosos; um marinheiro da Capitania, um italiano carregado de flandres, um guarda municipal, crianças, mulheres...

Houve logo um fecha-fecha, um tumulto, um alvoroço. Trilaram apitos; vozes gritavam — rolo! rolo! e a multidão crescia no meio da rua, procurando lugar, empurrando, abrindo caminho, precipitando-se, formando um grande círculo de gentes ao redor dos dois marinheiros, invisíveis agora.

Os bondes paravam. Senhoras vinham à janela, compondo os cabelos, numa ânsia de novidade. Latiam cães. Um movimento cheio de rumores, uma balbúrdia! Circulavam boatos aterradores, notícias vagas, incompletas. Inventavam-se histórias de assassinato, de cabeça quebrada, de sangue. Cada olhar, cada fisionomia era uma interrogação. Chegavam soldados, marinheiros, policiais. Fechavam-se portas com estrondo.

Alguma cousa extraordinária tinha havido porque, de repente, o povo recuou, abrindo passagem, num atropelo.

— Abre! abre! diziam soldados erguendo o rifle.

De cima, das casa, mãos apontavam pra baixo.

E D. Carolina também chegara à janela com a vozeria, com o barulho, viu, entre duas filas de curiosos, o grumete ensangüentado...

— Jesus! Meu Deus!

Uma nuvem escureceu-lhe a vista, correu um frio pelo corpo, e toda ela tremia horrorizada, branca, imóvel.

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