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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

De que lhe teriam então servido e a que ficariam reduzidas a mocidade, a inteligência, a extrema dedicação pelo próximo de que ele se sentia capaz, se tudo isso acabava numa cova escura e fria que os animais pisavam e os homens olhavam com indiferença? Meditara muito nessas ocasiões de isolamento, sobre a ignorância da hora suprema, sobre a incerteza da vida que, no dizer da Escritura Santa, é uma folha que cai à menor aragem, e pensava que ninguém há que não cuide viver ao menos até o dia seguinte. A morte podia surpreendê-lo dum momento para outro, tornando-o para sempre esquecido dos homens e deslembrado de Deus, a quem servia tibiamente no descanso do paroquiato cômodo de vila sertaneja, dormindo em macia rede de linho noites compridas e tranqüilas sob coberta enxuta, nutrindo o corpo de galinhas gordas e de tambaquis saborosos, acompanhados dum suave vinho verde, espesso e cheiroso. Recordava a sentença do filósofo, a vida é árvore que traz em si a semente da morte e nunca é cedo para cuidar da longa viagem, e estremecia de susto à idéia de que um desses acidentes dos climas tropicais, uma simples perniciosa podia colhê-lo de surpresa, não preparado para a vida eterna, não feito para a vida subjetiva da imortalidade do nome. E à beira daquele lago sertanejo, ao meio da vila deserta, ouvindo o segundo sinal da ladainha, e imaginando o Macário de pé, à porta da igreja, as negras velhas sentadas no ladrilho, à espera dele, numa passividade resignada, viu-se claramente condenado àquele suplício novo e doloroso, inventado pelo poeta para as almas tristes que neste mundo não caíram na infâmia, nem souberam merecer aplausos. ... l'anime triste de coloro che visser senza infamia e senza lodo.

Não. O cumprimento banal do dever não bastava. Ser um bom padre, não beber, não jogar, nem dar escândalos com mulheres não bastava à ambição de padre Antônio de Morais. Demais o interesse da salvação da alma confundia-se singularmente com a sede de reputação e renome que o devorava. Fosse o modelo dos padres, em Silves, não conseguiria vencer a muralha do indiferentismo público. Ganhando a glória que perpetua uma personalidade na memória dos homens, asseguraria o triunfo da sua causa perante o tribunal do Juiz indefectível. Era preciso ser um herói para a humanidade e um mártir para Deus. A vasta ambição abraçaria o céu e a terra. Ser um santo célebre, eis um ideal digno que as circunstâncias contrariavam e o seu temperamento punha em risco.

E como combater esse risco? O isolamento, a falta de alimento sério para o espírito inquieto e agitado, a ociosidade em que o fastio das funções ordinárias do ofício e a indiferença dos fregueses o deixavam, entregavam-no desarmado e fraco às paixões ardentes que lhe tumultuavam no cérebro. A cultura intelectual recebida no Seminário a modo que lhe aumentava o mal-estar do coração, incapaz de afazerse àquele meio ignorante. Não tinha com quem trocar duas idéias em conversa que lhe contentasse o espírito. Lia e relia o Flos Sanctorum, procurando achar nos inúmeros martírios dos grandes homens do cristianismo um tormento igual ao seu, nada o consolava, nada podia arrancar-lhe do coração o pungente espinho da sua inutilidade imbecil, da sua chata vulgaridade.

Depois do insucesso do último sermão, não passava mais pela Rua do Porto, nem pelos lugares mais povoados. Vagava pelos arredores da vila, sombrio, preocupado, fugindo às vistas curiosas dos poucos habitantes de Silves, maldizendo a irresolução e a fraqueza que a mãe lhe transmitira no sangue. A noite embalava-se na rede, fazendo ranger as cordas nas escápulas de madeira, e murmurando citações latinas como para se convencer dessa verdade que o seu temperamento de contradição repelia ainda, e parecendo-lhe ver, a cada trecho, na indecisa claridade dos cantos, surgir, provocadora e risonha, a figura juvenil da Luísa Madeirense.

Quando saiu ao Largo da Matriz era noite fechada, mas viu perfeitamente o vulto do Macário, à porta, esperando. E penetrando no templo escuro e frio, deu-lhe uma agonia, como se para sempre entrasse no aniquilamento total da sua personalidade.

CAPITULO VI

Saberá V. Rev.ma que já são seis horas.

— E Macário, de servilhas e em mangas de camisa, foi abrindo a porta da alcova à luz suave da manhã. Padre Antônio acordou do sono que o dominara por alta madrugada, depois de uma longa noite de vigília. Já seis horas! As janelas da sala, abertas de par em par, ofereciam franca passagem à brisa úmida repassada de aromas sutis de flores campestres. Da rua vinha um rumor vago de portas que se abriam e de vozes raras e espaçadas. Ao longe chiava um carro de bois, descendo para o pasto, sob o aguilhão do lenhador que fornecia os depósitos da Companhia do Amazonas. No quintal da Luísa Madeirense um galo cantava batendo com força as asas.

— Já seis horas! repetiu padre Antônio, puxando até o pescoço o lençol da cama, numa sensação de frio e sono. Passara mal a noite, e depois, que lhe importava a hora, pois que nada tinha a fazer naquele dia? O melhor era encostar as janelas e aprontar-lhe o café para as oito horas. Sentia-se cansado e moído, ia talvez cair doente, um grande torpor apoderava-se-lhe do corpo, tinha dores vagas, palpitações, um grande peso na cabeça, o melhor era descansar, já que com isso nada perdia o serviço da paróquia.

Macário insistiu. Eram seis horas dadas, e se os hereges maçons abandonavam a vila ainda havia almas cristãs que precisavam do ministério de S. Rev.ma. A Chica da Beira do Lago, aquela velhinha devota, andava mal de sezões e mandava pedir a S. Rev.ma que a fosse ouvir de confissão à sua casa, visto como a moléstia não lhe permitia vir à igreja. E V. Rev.ma devia fazer esse serviço já, a tempo de voltar para o almoço, evitando o sol ardente de junho.

— Um quarto de légua! murmurou padre Antônio, voltando-se para o lado da parede; um quarto de légua na ida, outro na volta, meia légua pelas lamas do caminho do lago!

(continua...)

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