Por Franklin Távora (1879)
Júlia, entretanto, não era de todo estranha e indiferente aos seus sentimentos elevados; seu coração guardava ainda restos de simpatia para as afeições ardentes e irresistíveis; ela era ainda capaz de amar, e chegou até a amar Ângelo. Educada no centro literário, iluminado ainda pelos graciosos talentos de Lopes de Mendonça, Rabelo Silva e tantos outros escritores de que hoje só restam ilustres e saudosas lembranças, ela não podia eximir-se de se sentir arrastada para o bacharel que nas horas vagas escrevia para as primeiras folhas do Recife, compunha dramas e romances, e sustentara um periódico literário, que deixou ligado ao seu nome honrada e vantajosa memória. Quando Ângelo finalizou a leitura do seu primeiro drama em presença da companhia, o qual um mês depois passou pelas provas públicas, Júlia foi a primeira que teve para eles palavras de admiração e demonstrações de simpatia. Ângelo começou então a viver exclusivamente para o teatro.
Estava na maior intensidade essa paixão, quando Ângelo foi sabedor da fugida de Bezerra. Lembrou-se de Maurícia, e do que se passara meses antes entre ela e ele; mas a lembrança depressa se desvaneceria se logo depois ele não tivesse recebido uma carta de Maurícia, acompanhada de uma tradução da Lélia, de George Sand, que ele lhe pedira no dia da festa natalícia de Eugênia para publicá-la no periódico que tinha a seu cargo.
Grande foi a surpresa de Ângelo ao receber a carta de Maurícia. Ao princípio, pareceu-lhe que era vítima de alguma conspiração teatral, visto que, na companhia as suas relações com Júlia já tinham suscitado despeito e hostilidades surdas; mas, atentando na letra, reconheceu que a carta era de Maurícia; esta nunca lhe havia escrito nenhuma regra; mas ele conhecia sua letra de a ver em carta e em músicas dirigidas a Eugênia. Demais, ali estava a tradução que ele pedira, há tempos, e o acompanhamento da sua poesia, que Maurícia lhe prometera.
Ângelo, dando a tal episódio a importância que lhe merecia, pôs-se a refletir maduramente; e logo uma multiplicidade de interrogações encheu o seu entendimento. Por que lhe escrevera? Que era lícito inferir de lhe escrever ela depois da fugida do marido? Como se explicava o não se ter esquecido ainda dele e do pedido que lhe fizera? Ângelo sentiu-se volver ao passado, que já tivera tanta esperança e tanta grandeza para ele. Maurícia foi pouco a pouco reaparecendo em sua imaginação por entre mil hesitações, temores, promessas vãs, riscos iminentes, ausências repentinas, sorrisos e lágrimas.
Agora, as condições não eram as mesmas. As circunstâncias que cercavam a evasão de Bezerra foram tão singulares que tornavam impossível nova reconciliação.
Maurícia estava, portanto, livre, inteiramente senhora das suas ações. O antigo amor que mostrar por ele tinha ressurgido, e era disto prova evidente aquela carta. No espírito do bacharel a imagem de Maurícia desenhou-se diante da de Júlia. estabeleceu-se logo muito naturalmente o confronto entre estas duas tentações; Ângelo não hesitou senão por alguns segundos; aquela venceu esta.
Ângelo, porém, enganava-se ainda desta vez. Não era o amor de Maurícia que voltava; era uma nova luta que se ia travar para arrancá-lo do poder da atriz. Uma grande generosidade estava oculta nas demonstrações do ressurgido amor.
A situação de Maurícia nunca se afigurara tão cruel para ela. Apenas livre de um tormento, já caía a infeliz senhora em outro porventura maior. O amor de Sinhazinha assombrou-a como se fora um espectro. Quando ela, de noite, refletiu sobre o que a amiga da sua filha lhe revelara pela manhã, mal pode resignar-se a não lhe disputar a presa. Mas esta presa já estava nas mãos de outra mulher, e ela não tinha armas apropriadas para combater esta nova inimiga a que o teatro devera ter ensinado a arte de prender as suas vítimas em cadeias de flores envenenadas, pareceu-lhe arriscada empresa. Mas devia cruzar os braços, vendo escravizado aos pés dela o objeto dos seus afetos? O seu amor, e especialmente a sua vaidade, pela primeira vez estimulada, não lhe aconselharam a abstenção, antes a incitaram para a luta, ainda que de duvidoso resultado. Este poderia ser favorável aos seus intuitos, se ao plano procedesse rigoroso exame e se antes do emprego das armas ficassem assentados os melhores meios.
— Escrever-lhe-ei, Sinhazinha. Não acha melhor que eu escreva antes de irmos?
— É melhor! É melhor! - disse a menina.
Não obstante a promessa feita à Sinhazinha com grandes veras, Maurícia julgou prudente espaçar a sua ida ao Recife. A menina, cansada já de contar as semanas, os dias, as horas, começava a descrer da amizade e benevolência de Maurícia, quando, por uma tarde de novembro, a carruagem de Albuquerque parou no portão do sítio de Martins, e dela saltou a mãe de Virgínia, desacompanhada desta. Sinhazinha criou alma nova; correu à casa de Eugênia, abraçou-se com Maurícia e umedeceu-lhe o colo com lágrimas de alegria. Eram passados dois meses depois da sua estada no engenho.
No dia seguinte Martins procurou Ângelo no escritório. Achou aí um sujeito de quarenta e cinco anos, a quem Ângelo dava um tanto para abrir todos os dias a casa, varrer a sala, espanar os móveis e os livros, receber e entregar os autos. Chamava-se Jacinto.
Notando Martins que, sendo onze horas da manhã, Ângelo não estivesse ainda no escritório, o Jacinto respondeu:
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.