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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

A morada de Coelho ficava por cima da própria loja. No vasto sobrado para isto destinado não faltava o luxo que caracteriza a vida de larguezas e deleites que o comercio dá e tira com a facilidade natural do jogo das operações mercantis. As extensas relações que tinha entre os agricultores, e a circunstancia de ser o negociante de mais nota do lugar pelos meios pecuniários de que dispunha, obriga-lo-iam a essa vida fastosa, quando certa ambição de figurar e o propósito de competir no lustre e grandeza com os primeiros fidalgos de Goiana não exigissem dele o tratamento luxuoso que sustentava. Até certo tempo atrás, fora visto com bons olhos por esses fidalgos. Mais de um deles lhe dera demonstrações de respeito e estima. Chegou-se a dizer que à influencia de alguns devia Coelho a nomeação de sargento-mór com que o distinguira el-rei. Fosse porque fazia de se grande conta; fosse porque lhe parecera tempo de firmar a sua posição ainda não de todo segura; fosse porque não pudera resistir às imposições do sentimento, deu Coelho um passo que, produzindo completa e radical mudança em sua vida, converteu em hostilidade e ódios contra se próprio as afeições e benevolências que tinham antes disso manifestado por ele os nobres da vila. Sabendo anos antes, que d. Damiana, pela qual sentia grande afeto, estava para ser dada em casamento a João da Cunha, antecipou-se ele e pediu-a para si. Foi-lhe peremptoriamente recusada; e não teve outra origem o eclipse da sua estrela, nem o ódio que cavou entre ele e o sargento-mór o abismo insondável que os separava. Ao principio sentiu-se Coelho como curvado debaixo do peso deste grande desastre; mas, por derradeiro, reacendendo-se-lhe a chama do forte animo, um momento apagada pelo sopro da tormenta, o negociante ergueu a cabeça, fixou vistas altivas em seu altivo inimigo, e assentou de lutar com ele e seus parentes e iguais, até que os vencesse ou caísse de todo exangue e morto. A esse tempo já se iam manifestando as rivalidades que trouxeram como resultado a guerra. Coelho, em vez de procurar dissipá-las, foi o primeiro que em Goiana as ateou e lhes deu vulto e desenvolvimento; de modo que, quando, pela criação da vila do Recife, elas definitivamente fizeram explosão, à frente dos mascates apareceu ele, sedento de vingança, tomando para se toda a responsabilidade e direção dos ódios insurgentes e tornando-se o alvo dos rancores da nobreza. Quando o Tunda-Cumbe apareceu na sala, achavam-se aí com o dono da casa Jeronimo Paes, o português Manoel Rodrigues (taberneiro), Belchior, Romão e outros. O assunto da conversação era a guerra, nem podia ser outro o que os reunisse então. Mas aqui não se manifestavam apreensões e temores, como no engenho, entre os nobres. Aqui se tinha por segura a vitoria, não obstante já se saber que o bispo se evadira e se achava exercitando o governo contra os mascates. - Que importa isso? Inquiria Jeronimo Paes. As fortalezas, os arsenais, a milícia de terra e a milícia naval, os homens bons do Recife e o povo são todos nossos. Em nossos armazéns temos gêneros acumulados para seis meses. Falava-se em que os mazombos tencionavam sitiar a vila. Estúpido plano é este. Que mal nos pode trazer semelhante sitio, quando temos livre o porto, por onde podemos comunicar-nos, não só com as outras capitanias, mas até com importantes localidades do litoral de Pernambuco?

- Hão de cansar-se eles primeiro de nos guardarem, que nós de estarmos guardados por semelhante modo – acrescentou um dos circunstantes. Dando com os olhos em Tunda-Cumbe, Antonio Coelho levantou-se e acenou-lhe com a mão que o acompanhasse ao aposento contíguo. Aí chegados, Coelho ofereceu ao peixeiro uma cadeira, e dando exemplo, disse-lhe:

- Senta-te, Manoel Gonçalves.

Este, a modo de admirado da intimidade que eqüivalia a uma honra, que ele estava longe de esperar, respondeu:

- Pode vosmecê dizer o que ordena. Ouvirei tão bem estando de pé, como se sentado estivera. Senta-te. O negocio exige pratica longa.

Tunda-Cumbe sentou-se.

Por todos os de Goiana era o Tunda-Cumbe havido por meio mercador e meio bandido. Ninguém ignorava suas relações com certos sujeitos de ruim fama, alguns dos quais se dizia serem associados ao peixeiro em criminosas negociações. Havia quem soubesse que no lugar denominado Sipó tinham eles um como rancho, onde celebravam seus conciliábulos.

- Mandei chamar-te, Manoel Gonçalves...

Aqui interrompeu Antonio Coelho, e um momento depois continuou:

Mas, antes de entrarmos no assunto, não será mau que desmanches um pedaço de bolo fresco e laves a guela com um copo de vinho puro e velho, que há dias me chegou do Porto.

Assim falando, Coelho apontava para a cômoda de cedro, onde se viam, em salvas de prata, bolos de S.João de diferentes tamanhos e formas, e em garrafas de cristal o vinho generoso a que aludira. Tenha paciência, seu Antonio Coelho, - respondeu o peixeiro. Acabo de chegar agora mesmo do divertimento em que estava, quando o Lauriano me deu o recado. Queira ter vosmecê a bondade de vir direitinho ao negocio, que eu fiquei de voltar ainda hoje ao dito divertimento, onde tenho uma grande empresa que executar, se para isso não me faltar o tempo. - Que empresa é essa?

Quebrar os dentes a um pé-rapado, por não terem mordido a língua dele na ocasião de me dizer meia dúzia de liberdades que lhe hão de custar bem caro.

- Folgo em encontrar-te nestas boas disposições. Mas, para não dares passo em falso, trata primeiro de organizar as tuas forças. Não tens tu vários amigos com quem te podes ajuntar a qualquer hora que seja necessário?

Tunda-Cumbe, não sem dar mostras de confusão e hesitação, inclinou a cabeça como quem respondia afirmativamente.

(continua...)

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