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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

— Margarida, não chores!... disse, e encostando instintivamente seu rosto ao dela, os lábios de ambos roçaram de leve.

O padre estremeceu e recuou assustado, como se houvesse tocado em uma áspide venenosa. Por alguns instantes ficaram ambos silenciosos.

— Ah! meu Deus! — prosseguiu o padre — eu vinha confessá-la, e sou eu o penitente, que de joelhos a seus pés devo suplicar-lhe perdão...

— Perdão de quê, Eugênio?...

— Ainda me perguntas, Margarida? pois não te faltei à palavra jurada?... não sou a causa do teu sofrimento?

— Não, não és tu, que me matas... eu é que era uma ímpia, uma libertina, querendo roubar-te ao altar, querendo valer mais que Deus. Mas sossego... creio que não morro ainda... depois que te vi, sinto-me tão melhor...

Margarida falava assim tanto para não consternar o padre, como porque realmente a alegria de vê-lo a fazia esquecer os seus sofrimentos.

— Acha-se melhor?... — retorquiu o padre — ainda bem!... não precisa mais dos socorros do meu ministério, nem sou eu o padre mais próprio para ouvi-la de confissão. Adeus, senhora!... não devo voltar mais à sua casa...

— Ah! por piedade!... não deixes de voltar, meu padre, volta, se não queres que eu morra impenitente e desesperada... que perigo há em ouvir de confissão uma pobre moribunda?

— Mas achas-te melhor, Margarida; poderás esperar o vigário.

— Não quero-me confessar com nenhum outro... já agora hei de cumprir o juramento, que fiz quando menina... se o não cumprir creio que a minha alma não se salvará... acho-me muito mal... esta melhora é passageira, a cada momento posso expirar. Mas eu me esforçarei em reter o alento da vida, se me prometeres voltar amanhã...

O padre ficou por um momento pensativo.

— Pois bem, Margarida, voltarei — disse, afinal, e com um movimento rápido e brusco, alongando a mão que tinha pousado sobre o ombro da moça, a estreitou no coração.

— Até amanhã — murmurou com voz breve o padre, e tomando o chapéu retirou-se precipitadamente, hirto e convulso, como se acabasse de ter uma pavorosa visão.

— Até amanhã! — suspirou Margarida, como um eco mavioso, que a voz de Eugênio acabava de acordar no seio de uma gruta misteriosa.

CAPÍTULO XXIII

O padre Eugênio entrou em casa com o cérebro a arder, e com o coração açoitado das mais violentas agitações. De coração mole e extremamente impressionável, não tinha força para lutar contra a tempestade medonha, que dentro dele se suscitava. Como piloto fraco e inexperiente, que se perturba e desorienta em presença do perigo, arrependia-se mil vezes de ter tomado o timão, tão superior às suas forças, de uma nau pujante destinada a afrontar mares tão tormentosos. A tonsura sacerdotal era uma coroa de espinhos, que se lhe enterravam no crânio, e lhe arrancavam bramidos de desespero.

Exasperava-se contra a mentira de que seu pai, decerto de conivência com os padres de Congonhas, se havia prevalecido para determiná-lo a tomar ordens.

— Para que semelhante embuste, meu Deus! — murmurava consigo. — Que idéia infernal de sacrificar o destino de duas pessoas por meio de uma mentira!... Se não fosse tal mentira, se me constasse — como era verdade — que Margarida fiel ao seu amor se finava de saudades por mim, decerto eu nunca teria tomado esta veste sagrada, que hoje me queima as carnes como a túnica de Nesso. A impressão de um sonho, de um sermão, se teria esvaecido como fumaça, como tantas outras que não puderam desarraigar de meu coração uma paixão, que com ele nasceu, e que com ele... desgraçado de mim!... sim, mil vezes desgraçado .... que com ele terá de morrer... Margarida!... pobre Margarida!... tens tanto de boa, pura e leal, como de formosa... e tanto de formosa, como de infeliz!... nem nos mais exaltados sonhos de fantasia, eu fazia idéia justa do tesouro que eu louco troquei por uma coroa de martírio, que não tenho força para suportar!...

Eugênio estorcia-se em febril agitação, e quase delirava. A paixão, que julgava já não ser mais que uma triste recordação, uma dolorosa desilusão do passado, não se tinha extinguido debaixo das vestes sagradas do sacerdote. Era essa paixão como o arbusto, que a geada despojou das folhas, e mirrou-lhe os galhos, e parece estar morto para sempre, entanto, que o tronco e a raiz, cheios de seiva e vitalidade estão prontos a germinar com novo viço e galhardia ao primeiro bafejo da primavera.

(continua...)

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