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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Jupira, que era habilíssima neste manejo foi se esconder e começou a responder ao jaó. Mas este em vez de aproximar-se, ia-se afastando aos poucos, e piando cada vez mais ao longe. Jupira piando sempre e mudando de esconderijo em esconderijo o foi acompanhando, sem nunca conseguir avistá-lo, entranhou-se a uma grande distância pelo capão adentro. O sol já era entrado, e as sombras do crepúsculo começavam a escurecer a floresta; Jupira desanimada ia já voltando, quando sentiu pelas costas mão de ferro agarrar-lhe o ombro, e uma voz medonha bradou-lhe – Jupira, agora és minha!– Era Baguari que usara daquela negaça para atrair Jupira e arredá-la dos seus. Assim a pobre menina cuidando ser a caçadora era a caça, que vinha descuidada cair nas mãos de seu feroz perseguidor.

Jupira deu um grito de terror; mas o cacique levou-lhe imediatamente a mão à boca, e nem os companheiros dela poderiam ouvi-la, na distância em que se achavam. Viu que nenhum partido poderia tirar da resistência, e procurou aplacar o seu feroz agressor.

– Espera, Baguari! – dizia ela arquejando de susto: – Não me faças mal; eu me entrego... mas larga-me.

– Não; tu queres enganar-me; mas é escusado; desta vez não me escaparás.

– Não quero te enganar, não, Baguari. Vamos onde está minha mãe...

ela me entregará a ti, e eu te juro que não hei de pôr dúvida nenhuma em ser tua.

– Por Tupã!... nesse laço não caio eu, minha formosa garça do Paraná. Já agora não sairás mais dos meus braços, quer tu e tua mãe queiram, quer não queiram.

– Pois bem, Baguari; sou tua; não te fugirei mais;... mas larga-me... tu assim me sufocas... ai...

Falando assim e debatendo-se Jupira procurava ganhar tempo a ver se seus companheiros dando por falta dela vinham em seu socorro, ou a excogitar algum ardil para arrancar-se dos braços do seu brutal amante. Melhor porém do que ela esperava, veio o destino ou o céu em seu auxílio. Pisada pelo índio uma enorme jararaca que dormia em uma moita de capim quase debaixo de seus pés, salta enfurecida, e enrosca-se-lhe nas pernas. O índio dá um grito de horror, sacode vigorosamente a perna, e atira longe o medonho réptil, que felizmente não o havia picado, recua em dois pulos com Jupira nos braços, larga-a no chão, e investe de tacape alçado sobre a cobra, que ia se esgueirando pelo matagal adentro. Jupira não perdeu um só instante; mal se viu solta dos braços do truculento cacique, enquanto este a rijos botes de tacape perseguia a cobra, mais veloz e sutil do que uma irara desapareceu pela mata, e chegou suando e arquejante ao pé de sua mãe.

–Está morta!... – bradou triunfante o cacique. – Jupira!... Jupira!...

Jupira!... Onde estás?

Mas Jupira já estava longe.

Capítulo IV

Quando Baguari, perseguindo Jupira, chegou ao lugar em que Jurema se achava, já era noite e os outros bugres já ali reunidos estavam acendendo seus fogos.

– Que fizeste a Jupira, que ela me apareceu correndo e chorando, toda assustada? perguntou Jurema a Baguari.

– Não lhe fiz mal algum, Jurema; ela é arisca e medrosa como a saracura do brejo.

– Tem medo de ti, porque não sabes amimá-la. A pomba foge do carcará, que lhe fisga as unhas, mas gosta do trocaz, que a beija e acaricia.

– Mas porventura sou eu algum jacaré do rio para ela fugir-me assim, e obrigar-me a negaceá-la como o jaguar que anda à espia da veada nova?... – Por essa forma, Baguari, nunca Jupira te quererá.

– Não queira embora; há de ser minha. Para que me deu Tupã estes olhos, que enxergam mais do que os do gavião, e estes pulsos mais fortes do que os do canguçu?...

A estas palavras ressoou por entre os outros bugres um murmúrio surdo, e alguns rosnaram palavras de indignação e de ameaça. Baguari vibrou sobre eles um olhar de fogo e sangue, e voltando-se para Jurema e sua filha:

– Está bem, – disse; – não quero mais teimar contigo, Jurema. Voume embora para os meus. E tu Jupira fica-te em paz; não te perseguirei mais. Dou-te seis luas para me esperar e ai daquele, que ousar tocar-te, e ai de ti, se te entregares a algum!

De feito eram já passados dois meses, e ninguém mais via por aquelas paragens o sanhudo Baguari. Tinha realmente ido reunir-se a seus companheiros, cuja residência favorita era para as bandas de Sant’Ana do Parnaíba próximo à junção dos dois grandes rios.

Jupira pois podia já passear sozinha e desassombrada, e adormecer tranqüila à sombra da figueira silvestre pelas margens do seu pátrio Paraná, ela que tinha mais medo do amor de um homem do que das sanhas do canguçu, das ciladas do sucuri.

Em uma sesta ardente ela estava sozinha sentada à sombra bem junto à margem do rio. Pendurada a um galho se via perto dela uma pequena maca, onde dormia um irmãozinho seu, que ela embalava cantando, e enxotando com um ramo os maribondos e mutucas, que lhe esvoaçavam em torno. Espalhados pela praia, pendurados ou encostados pelos troncos viam-se armas, redes, esteiras e mais utensílios indianos, sinal de que a sua horda não devia andar por longe. De feito, Jurema e seus companheiros tinham-se entranhado pela floresta à cata de jabuticabas, araticuns, bacuparis e outras frutas silvestres de que abundam aquelas matas, e deixaram ali Jupira tomando conta do rancho e vigiando a criança.

(continua...)

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