Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Passando avante do colégio vai outra rua muito comprida pelo mesmo rumo do norte, muito larga e povoada de casas e moradores, além da qual, no arrabalde da cidade, num alto, está um mosteiro de capuchinhos de Santo Antônio, que há pouco tempo se começou de esmolas do povo, que lhes comprou este assento, e outros devotos que lhe deram outros chãos junto dele, em que lhe os moradores fizeram uma igreja, com a qual, e o mais recolhimento que está feito, se podem acomodar até vinte religiosos, e pelo tempo adiante lhe farão outro recolhimento como os padres quiserem, os quais têm nesse recolhimento sua cerca com água dentro, a qual cerca vem correndo de cima, onde está o mosteiro, até o mar. E tornando desse mosteiro para a praça pela banda da terra vai a cidade muito bem arruada, com casas de moradores com seus quintais, os quais estão povoados de palmeiras carregadas de cocos e outras de tâmaras, e de laranjeiras e outras árvores de espinho, figueiras, romeiras e parreiras, com o que fica muito fresca; a qual cidade por esta banda da terra está toda cercada com uma ribeira de água, que serve de lavagem e de se regarem algumas hortas, que ao longo dela estão.
C A P Í T U L O XI
Em que se declara como corre a cidade da praça para a banda do sul.
Tornados à praça pondo o rosto no sul, corre outra rua muito formosa de moradores, no cabo da qual está uma ermida de Santa Luzia, onde está uma estância com artilharia. E ao longo dessa rua lhe fica muito bem assentada, também toda povoada de lojas de mercadores, e no topo dela está uma formosa igreja de Nossa Senhora da Ajuda com sua capela de abóbada; no qual sítio, no princípio desta cidade, esteve a Sé. Passando mais avante com o rosto ao sul, no outro arre-balde da cidade, em um alto e campo largo, está situado um mosteiro de São Bento, com sua claustra, e largas oficinas, e seus dormitórios, onde se agasalham vinte religiosos que naquele mosteiro há, os quais têm sua cerca e horta com uma ribeira de água, que lhe nasce dentro, que é a que rodeia toda a cidade, como fica atrás dito. Esse mosteiro de São Bento é muito pobre, o qual se mantém de esmolas que pedem os frades pelas fazendas dos moradores, e não tem nenhuma renda de Sua Majestade, em quem será bem empregada, pelas necessidades que tem, cujos religiosos vivem santa e honesta vida, dando de si grande exemplo, e estão benquistos e mui bem recebidos do povo, os quais haverá três anos que foram a esta cidade, com licença de Sua Majestade fundar este mosteiro, que lhes os moradores dela fizeram à sua custa, com grande fervor e alvoroço.
E não se faz aqui particular menção das outras ruas da cidade, porque são muitas, e fora nunca acabar querê-las particularizar.
C A P Í T U L O XII
Em que se declaram outras partes que a cidade tem para notar.
Tem esta cidade grandes desembarcadouros, com três fontes na praia ao pé dela, nas quais os mareantes fazem sua aguada, bem à borda do mar, das quais se serve também muita parte da cidade, por serem estas fontes de muito boa água. No principal desembarcadouro está uma fraca ermida de Nossa Senhora da Conceição, que foi a primeira casa de oração e obra em que se Tomé de Sousa ocupou.
A vista desta cidade é mui aprazível ao longe, por estarem as casas com os quintais cheios de árvores, a saber: de palmeiras, que aparecem por cima dos telhados; e de laranjeiras, que todo o ano estão carregadas de laranjas, cuja vista de longe é mui alegre, especialmente do mar, por a cidade se estender muito ao longo dele, neste alto. Não tem a cidade nenhum padrasto, de onde a possam ofender, se a cercarem como ela merece, o que se pode fazer com lhe ficar dentro uma ribeira de água, que nasce junto dela, que a vai cercando toda, a qual se não bebe agora, por estar o nascimento dela pisado dos bois, que vão beber, e porcos; mas, limpa, é muito boa água, da qual se não aproveitam os moradores por haver outras muitas fontes de que bebe cada um, segundo a afeição que lhe tomam, e a de que lhe fica mais perto se ajuda por serem todas de boa água.
A terra que esta cidade tem, uma e duas léguas à roda, está quase toda ocupada com roças, que são como os casais de Portugal, onde se lavram muitos mantimentos, frutas e hortaliças, de onde se remedeia toda a gente da cidade que o não tem de sua lavra, a cuja praça se vai vender, do que está sempre mui provida, e o mais do tempo o está do pão, que se faz das farinhas que levam do reino a vender ordinariamente à Bahia, onde também levam muitos vinhos da ilha da Madeira, das Canárias, onde são mais brandos, e de melhor cheiro, e cor e suave sabor, que nas mesmas ilhas de onde os levam; os quais se vendem em lojas abertas, e outros mantimentos de Espanha, e todas as drogas, sedas e panos de toda a sorte, e as mais mercadorias acostumadas.
C A P Í T U L O XIII
Em que se declara o como se tratam os moradores da cidade do Salvador, e algumas qualidades suas.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.