Por Eça de Queirós (1887)
Então este sagaz filósofo compreendeu que há razões de família como há razões de Estado, e foi sublime. Estendeu a mão por cima da árvore, cobrindo-a assim largamente com a garantia da sua ciência, e disse estas palavras memoráveis:
- D. Raposo, nós temos sido bons amigos... Pode pois afiançar à senhora sua tia, da parte de um homem que a Alemanha escuta em questões de crítica arqueológica, que o galho que lhe levar daqui, arranjado em coroa, foi...
- Foi? - berrei ansioso.
- Foi o mesmo que ensangüentou a fronte do Rabi Jeschoua Natzarieh, a quem os latinos chamam Jesus de Nazaré, e outros também chamam o Cristo!...
Falara o alto saber germânico! Puxei o meu navalhão sevilhano, decepei um dos galhos. E enquanto Topsius voltava a procurar pelas ervas úmidas a cidadela de Cipron e outras pedras de Herodes, eu recolhi às tendas, em triunfo, com a minha preciosidade. O prazenteiro Pote, sentado num selim, estava moendo café.
- Soberbo galho! - gritou ele. - Quer-se arranjadinho em coroa... Fica de uma devoção!
E logo, com a sua rara destreza de mãos, o jucundo homem entrelaçou o galho rude em forma de coroa santa. E tão parecida! Tão tocante!...
- Só lhe faltam as pinguinhas de sangue! - murmurava eu, enternecido. - Jesus! O que a Titi se vai babar!
Mas como levaríamos para Jerusalém, através dos cerros de Judá, aqueles incômodos espinhos - que, apenas armados na sua forma passional, pareciam já ávidos de rasgar carne inocente? Para o alegre Pote não havia dificuldades; tirou do fundo do seu provido alforje uma fofa nuvem de algodão em rama; envolveu nela delicadamente a coroa do agravo, como uma jóia frágil; depois, com uma folha de papel pardo e um nastro escarlate, fez um embrulho redondo, sólido, ligeiro e nítido... E eu, sorrindo, enrolando o cigarro, pensava nesse outro embrulho de rendas e laços de seda, cheirando a violeta e a amor, que ficara em Jerusalém, esperando por mim e pelo favor dos meus beijos.
- Pote, Pote! - gritei, radiante. - Nem tu sabes que grossa moeda me vai render esse galhinho, dentro desse pacotinho!
Apenas Topsius voltou da sacra fonte de Eliseu - eu ofereci, para celebrar o encontro providencial da grande relíquia, uma das garrafas de Champagne, que Pote trazia nos alforjes, encarapuçadas de ouro. Topsius bebeu "à ciência!" Eu bebi "à religião!" E largamente a espuma de Moed et Chandon regou a terra de Canaã.
À noite, para maior festividade, acendemos uma fogueira; e as mulheres árabes de Jericó vieram dançar diante das nossas tendas. Recolhemos tarde, quando por sobre Moabe, para os lados de Maqueros, a lua aparecia, fina e recurva, como esse alfanje de ouro que decepou a cabeça ardente de Iocanã.
O embrulho da coroa de espinhos estava à beira do meu catre. O lume apagara-se; o nosso acampamento dormia no infinito silêncio do Vale da Escritura... Tranqüilo, regalado, adormeci também.
III
Havia certamente duas horas que assim dormia, denso e estirado no catre, quando me pareceu que uma claridade trêmula, como a de uma tocha fumegante, penetrava na tenda, e através dela uma voz me chamava, lamentosa e dolente:
- Teodorico, Teodorico, ergue-te, e parte para Jerusalém!
Arrojei a manta, assustado; e vi o doutíssimo Topsius, que, à luz mortal de uma vela, bruxuleando sobre a mesa onde jaziam as garrafas de Champagne, afivelava no pé rapidamente uma velha espora de ferro. Era ele que me despertava, açodado, fervoroso:
- A pé, Teodorico, a pé! As éguas estão seladas! Amanhã é Páscoa! Ao alvorecer devemos chegar às portas de Jerusalém!
Arredando os cabelos, considerei com pasmo o sisudo, ponderado doutor:
- Oh Topsius! Pois nós partimos assim, bruscamente, sem os nossos alforjes, e deixando as tendas adormecidas, como quem foge espavorido?
O erudito homem alçou os seus óculos de ouro que resplandeciam com uma desusada, irresistível intelectualidade. Uma capa branca, que eu nunca lhe vira, envolvia-lhe a douta magreza em pregas graves e puras de toga latina; e lento, esguio, abrindo os braços, disse, com lábios que pareciam clássicos e de mármore:
- D. Raposo! Esta aurora que vai nascer, e em pouco tocar os cimos do Hébron, é a de 15 do mês de Nizam; e não houve em toda a história de Israel, desde que as tribos voltaram da Babilônia, nem haverá, até que Tito venha pôr o último cerco ao templo, um dia mais interessante! Eu preciso estar em Jerusalém para ver, viva e rumorejando, esta página do Evangelho! Vamos pois fazer a santa Páscoa à casa de Gamaliel, que é um amigo de Hilel, e um amigo meu, um conhecedor das letras gregas, patriota forte e membro do Sanedrim. Foi ele que disse: "para te livrares do tormento da dúvida, impõe-te uma autoridade". Portanto, a pé, D. Raposo!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.