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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

– Preciso fazer-lhe uma comunicação séria. Tenha a bondade de nos acompanhar ao gabinete A da Comissão de Fazenda.

Alípio seguiu-o, e, com ele, todos os seus amigos, na expectativa excitante de um conflito inesperado. Porém entraram sós no gabinete A da Comissão de Fazenda e aí Gorjão, que retomara o seu ar pomposo, declarou:

– Vimos aqui numa missão de honra. O nosso amigo, Dr. Albino Peixoto, reclama uma satisfação. V. Exª chamou-lhe vendido...

– Mas primeiro tinha-me ele chamado...

– V. Exª chamou-lhe vendido! O que ele tinha chamado a V. Exª é-nos perfeitamente indiferente. V. Exª chamou-lhe vendido, e, ou V. Exª, quando se abrir de novo a sessão dá explicações...

– Eu estou pronto a dar explicações... (Ouço daqui estas palavras precipitadas de Alípio Abranhos, que, com os seus altos princípios de civilização, tinha o horror dos conflitos de força).

– Perfeitamente. As explicações são estas: V. Exª sobe à tribuna e diz: «Declaro que, quando disse que o meu amigo Albino Peixoto era um vendido, menti, e que tenho as provas mais evidentes da sua probidade impecável!»

– Então os senhores querem que eu diga publicamente que menti?...

– Não querendo dar esta explicação, tenha a bondade de nos dizer a que horas poderemos encontrar dois amigos seus, para regular as condições do combate...

– Do combate?... Mas, queridos colegas, ponham-se no meu lugar...

A estas palavras tão cordiais, tão conciliadoras, o brutal Gorjão respondeu:

– No seu lugar qualquer de nós tinha há muito tempo marcado a hora e as armas! V. Exª que diz?

– Ao menos quero consultar alguns amigos...

– Consulte V. Exª os seus amigos.

Consultou, com efeito, dois amigos – mas, infelizmente, escolheu aqueles que.eram menos próprios para promover uma solução humana, sensata e cristã. Não os mencionarei, porque vivem ainda e ocupam altas situações no Estado. Chamarei a um A e ao outro B.

A, fidalgo de alto porte, recebera das tradições da sua raça, um pouco deteriorada, o preconceito clássico do ponto de honra. B, moço estimável, valente, caçador, possuía uma única especialidade: a sua destreza à pistola e ao sabre. Ambos, em questões de honra, tinham a manter uma reputação de seriedade e de valor. De resto, tanto um como o outro, perfeitos cavalheiros, mas, infelizmente, muito predispostos, por índole, a soluções violentas.

Estes dois amigos opinaram, com a unanimidade de um coro antigo, que aceitar tal exigência, era aceitar, implicitamente, uma humilhação infamante. Um homem que se declara mentiroso, fecha diante de si as portas da Sociedade, da Vida Pública e dos seus conhecidos. O Sr. Abranhos passaria daí por diante a ser um cobarde estabelecido. O medo seria a sua profissão. Tornar-se-ia o homem que se pode insultar sem perigo. B disse-lhe mesmo brutalmente:

– Um homem que comete no começo da sua vida pública uma tal cobardia, torna-se, mais tarde ou mais cedo, um armazém de pancada! Mostre que é homem e ninguém o torna a insultar.

Que se podia responder a isto? Havia, sob o ponto de vista social, alguma verdade naquelas frases triviais. Alípio Abranhos ou tinha de ceder às regras absurdas, obsoletas, monstruosas que regulam a sociedade, ou tinha de abandonar essa sociedade e a carreira que um dia lhe daria o delicioso prazer de a dominar.

Mas a ideia de se colocar diante de uma espada desembainhada ou de uma pistola aperrada! Teve, um momento, o desejo furioso de fugir com D. Virgínia, com o Bibi, para um canto ignorado da terra, e aí, vil mas intacto, sem elogios nos jornais, mas com todos os membros no corpo, gozar egoistamente o amor, a paternidade, o repouso, a natureza, o conforto...

Mas consentiria Virgínia em ser a esposa do cobarde Alípio? Não seria cruel condenar Bibi a ser o filho do abjecto Abranhos? Que diriam os jornais? Que diria o coronel Serrão? Que risadas no Marrare! Esta ideia torturava-o. E foi com grande dignidade que respondeu a A e a B:

– Eu não tenho medo, os amigos bem o sabem. A minha questão é de princípios. Sou um homem de progresso, e repugna-me esse meio de salvar a honra, à maneira da Idade Média! Mas enfim, a sociedade é a sociedade... Vão-se entender com a fera do Gorjão. Espero-os em casa... Mas prudência, lembrem-se que tenho família.

As negociações foram longas, muito delicadas. Infelizmente, parece que desde a primeira palavra entre as testemunhas, ficou assente a priori, como base natural da argumentação, que «haveria duelo», e, às 8 horas da noite, Alípio recebeu no seu escritório os seus amigos A e B, que lhe anunciaram em voz baixa que ele, Alípio Abranhos, se batia à espada, às sete da manhã, na Cruz Quebrada, e que os do Peixoto lhe deixavam a ele, Abranhos, a escolha do cirurgião que melhor lhe conviesse.

– Um cirurgião! – exclamou Alípio, juntando as mãos, atónito.

(continua...)

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