Por Eça de Queirós (1878)
- Pareceu-me um asno - repetiu. - Umas maneiras, uma afetação, um alambicado, a olhar muitopara as meias, umas meias ridículas de mulher...
E com um certo sorriso azedado:
- Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas - disse, apontando para os botins mal engraxados -, tenho muita honra nelas; são de quem trabalha...
Porque publicamente costumava gloriar-se de uma pobreza, que intimamente não o cessava de o humilhar.
E remexendo devagar a sua carapinhada:
- Uma besta! - resumiu.
- Ti sabes que ele foi namoro da Luísa? - disse Sebastião, baixo, como assustado da gravidadeda confidência.
E respondendo logo ao olhar surpreendido de Julião:
- Sim. Ninguém o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o há pouco, há meses. Foi. Estiveram a casar.Depois o pai faliu, ele foi para o Brasil, e de lá escreveu a romper o casamento.
Julião sorriu, e encostando a cabeça à parede:
- Mas isso é o enredo da Eugênia Grandet, Sebastião! Estás-me a contar o romance de Balzac! Isso é a Eugênia Grandet!
Sebastião fitou-o espantado.
- Ora! Não se pode falar sério contigo. Dou-te a minha palavra de honra! - acrescentouvivamente.
- Vá, Sebastião, vá, dize.
Houve um silêncio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do teto sujo de fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a mão sapuda, de tom pegajoso, cofiava amorosamente as repas. No bilhar vozes altercavam.
Sebastião então, como tomado de uma resolução, disse bruscamente:
- E agora vai lá todos os dias, não sai de lá!
Julião afastou-se na banqueta e encarou-o:
- Tu queres-me dar a entender alguma coisa, Sebastião?
E com uma vivacidade quase jovial:
- O primo atira-se?
Aquela palavra escandalizou Sebastião.
- Ó Julião! - E severamente: - Com essas coisas não se brinca!
Julião encolheu os ombros.
- Mas está claro que se atira! - exclamou. - És de bom tempo ainda! Está claro que sim! Namorou-a solteira, agora quere-a casada!
- Fala baixo - acudiu Sebastião.
Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recaído na sua leitura fúnebre.
Julião baixou a voz:
- Mas é sempre assim, Sebastião. O primo Basílio tem razão; quer o prazer sem a responsabilidade!
E quase ao ouvido dele:
- É de graça, amigo Sebastião! É de graça! Tu não imaginas que influência isto tem nosentimento!
Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilhérias vinham-lhe com abundância:
- Há um marido que a veste, que a calça, que a alimenta, que a engoma, que a vela se estádoente; que a atura se ela está nervosa; que tem todos os encargos, todos os tédios, todos os filhos, todos, todos os que vierem, sabes a lei... Por conseqüência o primo não tem mais que chegar, bater ao ferrolho, encontra-a asseada, fresca, apetitosa à custa do marido, e...
Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfação, enrolando deliciosamente o cigarro, regozijando-se no escândalo.
- É ótimo! - acrescentou. - Todos os primos raciocinam assim. Basílio é primo, logo... Sabes osilogismo, Sebastião! Sabes o silogismo, menino! - gritou, dando-lhe uma palmada na perna.
- É o diabo - murmurou Sebastião cabisbaixo.
Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando:
- Mas tu supões que uma rapariga de bem...
- Eu não suponho nada! - acudiu Julião.
- Fala baixo, homem!
- Eu não suponho nada - repetiu Julião baixinho. - Eu afirmo o que ele faz. Agora ela...
E acrescentou com secura:
- Como é uma rapariga honesta...
- Se é! - exclamou Sebastião, batendo uma punhada na pedra da mesa.
- Pronto! - cantou arrastadamente o moço.
O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia ao balcão bocejando, e que os dois continuavam a remexer a sua carapinhada, encostou os cotovelos à mesa, salivou para longe, e puxando o jornal deixou-lhe cair em cima um olhar desolado.
Sebastião disse, então, com tristeza:
- A questão não é por ela. A questão é pela vizinhança.
Ficaram um momento calados. A altercação de vozes no bilhar crescia.
- Mas - disse Julião, como saindo de uma reflexão - a vizinhança?
- Sim, homem! Vêem entrar para lá o rapaz. Vem de tipóia; faz um escândalo na rua. Já se fala.
Já vieram com mexericos à tia Joana. Há dias encontrei o Neto que reparou. O Cunha também. O homem dos trastes, embaixo, não se faz nada que ele não dê fé; são umas línguas de tremer. Há dias ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem para entrar, e foram logo conciliábulos na rua, olhadelas para a janela, o diabo! Vai lá todos os dias. Sabem que o Jorge está no Alentejo... Está duas e três horas. É muito sério, é muito sério!
- Mas ela então é tola!
- Não vê o mal...
Julião encolheu os ombros, duvidando.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.