Por Eça de Queirós (1870)
Neste momento ouviu-se a voz distante de um sino! Eram os sinos de Malta. A terra ficava defronte.A suavidade da hora era extrema; o ar estava inefavelmente límpido. Viam-se já as aldeias brancas, o altivo perfil de La Vale ta, O Sol descia. Os seus últimos raios oblíquosfaziam cintilar os miradouros. Distinguiam-se no cais os vendedores de flores. Duas gôndolas corriam para nós. Houve um grande ruído nas velas, as sobios de manobras, o navio parou, e a âncora caiu na água! Tínha mos chegado. Os sinos de Malta continuavamrepicando.
X
Quando desembarcámos corri ao hotel. O conde ainda não tinha vindo do seu passeioa Bengama com Mademoiselle Rize. Rytmel foi encerrar-se em casa, num triste estado de exaltação e de paixão.Cármen veio logo procurar-me ao meu quarto. Entrou rapida mente, perguntou-me:
— Voltaram? Como foi? — Sabia então alguma coisa? — interroguei admirado.- Tudo. Por um acaso. Sabia que queriam fugir. Durante to. da a noite Rytmel andou fazendo preparativos. Era uma combina ção de há três dias. Lorde Grenley sabia. E agora?
— Agora — disse eu -tudo terminou. A condessa naturalmen te parte no primeiropaquete.
— Duvido. Mas se não partem, ha uma desgraça. É uma fata lidade, bem o sei, mas quequer? Amo aquele homem, amo Rytmel. Demais é uma obrigação, salvou-me a vida. É, sobretudo, uma paixão estúpida que me rói, que me mata. E ainda me não mata tão depressa como eu queria. Faço tudo para me matar. Ponho-me a suar, levanto-me e vou apanhar oorvalho para o terraço. Para que vivo eu? Vivia desta paixão. Cresceu desde que o vi agora.
E diga-me quem o não há-de adorar? Às vezes lembra-me matá-lo!...Conversámos algum tempo. A pobre criatura tinha nos olhos um fulgor febril, na face uma palidez de mármore. Eu procurei calmá-la. Começava a simpatizar com ela...
A condessa não saiu do seu quarto dois dias. Eu contei ao conde que ela tivera emGozzo um susto terrível, porque tínhamos esta do em perigo, na visita às cavernas da costa, onde a navegação é cheia de desastres. Estive quase sempre, depois, com Rytmel. Len-tamente a esperança renascia no seu espírito. Acomodava-se, ain da que com certas repugnâncias, a uma situação mais racional, ainda que menos pura. Era um convalescente da paixão. E, ao fim de cinco dias, senhor redactor (tanto a natureza humana é cheia deconciliações!), ao fim de cinco dias a condessa apareceu no teatro fresca, radiante, e ao lado da brancura dos seus ombros reluzia nas dragonas de ouro de Captain Rytmel!Entrámos então numa vida serena, sem romance e sem luta. Os corações tinham calmado, e falavam baixo. O conde passeava no campo com Mademoiselle Rize; Lorde Grenley fumava, cheio de tédio, o seu cachimbo de ópio; eu jogava as armas com os oficiaisingleses; D. Nicazio negociava; Rytmel tinha um ar feliz e misterio so; a condessa recebia, guiava os seus póneis, e todas as noites, no teatro, fazia reluzir ao gás o louro esplendor dosseus cabelos e a palidez preciosa das suas pérolas. Santa paz!
O tempo estava adorável. Malta resplandecia, abafa reluzia ao sol, os jardins floresciam, os olhos das maltesas suspiravam. Era o tempo das flores da laranjeira. Só Cármen emagrecia e vivia re tirada. Mr. Perny entrava em convalescença; passava o tempo deita do num sofá, de dia compondo uma ópera cómica, à noite jogando com alguns oficiais, e salpicando a gravidadebritânica de calemburgos bonapartistas.
Uma ocasião, ao sair de casa dele, onde tinha perdido algumas dúzias de libras, recolhia eu a Clarence-Hotel, levemente irritado, e sentindo um prazer excêntrico em cantaro fado pela ruas de Malta, a mil léguas do Bairro Alto. O pavilhão que nós habitávamos em Clarence-Hotel dava sobre um jardim todo escuro de árvores e de moitas de flores.Ordinariamente o conde e eu entrávamos pelo jardim. Tínha mos uma pequena chave que abria a portinhola verde, no muro, todo coberto de musgo e de copas de arbustos orientais. Nessa noite, ao abrir a porta, cantando em voz alta, senti sumir-se ra pidamente naespessura das folhagens um vulto. O ar estava sere no, acendi um fósforo, e àquela luz trémula, entrei na sombra, para descobrir o vulto, entre as ramagens. Mas a pessoa, vendo-seseguida, e sentindo a impossibilidade de se esquivar rapidamente, retrocedeu, com uma naturalidade visivelmente artificial, e profe riu o meu nome. Era Cármen.
— Que faz aqui? — disse eu.- Mato-me. Não lhe disse que, sempre que suava de noite, me erguia e vinha apanhar o orvalho?Mas ela estava completamente vestida de seda preta, e tinha até sobre os ombros uma larga capa escura, de forma árabe, com grande capuz! — Ah! minha cara — disse eu -, mata-se, mas é de amores. A esta hora, com essa toilette, neste jardim, com este aroma de la ranjeiras!... Que história me vem contar deorvalhos e de suor?...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.