Por Lima Barreto (1909)
Não sabia Floc que, como grande número de sábios, o povo sentencia: “filho de peixe sabe nadar; quem sai aos seus não degenera”, etc., etc.
Certamente, ele possuía, sobre herança psicológica, noções muito mais elegantes, branquinhas e limpinhas que as admitidas geralmente.
Com isso, e repetidos elogios aos outros jornalistas, adquiriu ele uma linda reputação e um grande prestigio de talento e de artista. Quando se suicidou (oh! como isto é triste de recordar!), quando se suicidou fui-lhe ver os livros; lá havia a Grande Marnière, de Ohnet; Je suis belle, de Victorien de Saussay; uns volumes de Bourget, alguns de Maupassant, nenhum historiador, nenhum filósofo, nenhum estudo de critica literária, mas dez de anedotas literárias de autores de todos os tempos e de todos os países. A sua critica não obedecia a nenhum sistema; não seguia escola alguma. As suas regras estéticas eram as suas relações com o autor, as recomendações recebidas, os títulos universitários, o nascimento e a condição social. Elogiava nefelibatas, se eram de sua amizade, se eram “limpos”; detratava se não eram. Tinha, além, dois princípios: a aristocracia da arte e a fulminação dos nulos. Entendia a seu modo aristocracia da arte, isto é, arte feita pelos aristocratas como ele, cujo pai tivera na primeira mocidade uma taverna em Barra Mansa.
Uma tarde, chegou à redação com uma plaquette, impressa em Portugal, tendo por título — Coração Magoado. Encontrando Leporace, mostrou-lhe a brochura:
— Conheces?
— Não. Deixa-me vê-la.
Leporace quis dar a sua fisionomia flácida, aos músculos inexpressivos de sua face, uma expressão de finura, de atilamento particular de entendido. Leu o titulo, o nome do autor, folheou o livro e perguntou:
— Quem é Odalina?
— Uma poetisa portuguesa de muito talento... Está de passagem e vem tratar de uma revista — O Bandolim... Os versos são líricos, mas de uma pureza de sentimento e cheios de um acento pessoal de encantar... Eu não gosto da arte pessoal; a arte (tomou outra atitude) deve refletir o mundo e o homem, e não a pessoa... Penso como Flaubert... Vê só este:
“Meu coração por desgraça
Entrou no meu pensamento
É como crime de faca
Que nunca {em livramento.”
— Notaste, acrescentou ao terminar a leitura, como está bem aproveitada a devida cadência da trova popular para exprimir um alto conceito filosófico? Ela quer dizer que o julgamento, a lucidez de sua inteligência é perturbada pelo Amor, pelo sentimento... E como ela compara bem com um dizer popular, essa coisa alta e transcendente! O livro é notável... Vê só esta quadrinha, que perfeição! Quanta emoção há nela! Ouve:
“Quem tem amores vai dormir
Na porta do seu amor
Das pedras faz cabeceira
Das estrelas cobertor.”
Leporace pediu de novo o livro e pôs-se a folheá-lo, lendo aqui e ali. Não teve uma palavra para dizer, descansou o livro e perguntou:
— Quem te apresentou?
— O Raul de Gusmão.
— O Raul! Com mulheres! E casada?
— É, com o Visconde de Varannes, um fidalgo francês.
— Olá! Deve ser uma grande família, nobreza antiga... O nome é histórico, rematou Leporace satisfeito por ter encontrado uma observação a fazer.
— Não sei se é.
— O marido veio com ela?
— Não. Ela vive separada do marido...
— Ahn! Vais escrever sobre ela, não?
— Naturalmente.
E os dois sorriam: Floc cheio de satisfação, recordando vagamente as mulheres já gozadas; Leporace com um evidente travo de amargura nos lábios. O critico preparava-se para se pôr à mesa, quando entravam o doutor Loberant e Gregoróvitch. O diretor vinha com a fisionomia alegre. Floc e Leporace, este mais que aquele, acolheram com as grandes mostras de respeito de sempre a presença do doutor Ricardo Loberant. O desbotado secretario deu-lhe conta das recomendações do dia seguinte. Tinha posto mais uma “brotoeja” contra o prefeito e fizera escrever um solto combatendo o empréstimo da Prefeitura; e, se não saira a “porrada” na gente do Paraná, fora porque o vira a conversar com o Xavantes.
— Ora, “seu” Leporace! exclamou o diretor. Que é que tem isso! O jornal é uma coisa e eu sou outra...
— Pensei...
— Bem... Foi bom... Mas não me deixe de bater na Prefeitura... É um escândalo! Uma vergonha! Só o Machado vai ganhar mil contos... Embirro com esse Machado... Um tratante que não me cumprimenta... Ainda se fosse outro, vá! E não e isso; é um nulo, um titulo desvantajoso, e que juro!... Não o deixem, não o deixem; havemos de ver se o O Globo vale ou não vale...
E o diretor rematou as suas recomendações com um baixo palavrão insultuoso. Floc e Leporace tinham ficado a ouvir o venerável diretor; Gregoróvitch, sentado, fumando, estivera a ler o livro da poetisa portuguesa.
— De quem é isto? perguntou.
— É meu.
(continua...)
BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.