Por Coelho Neto (1906)
— E porque tem sentido melhoras, não?
— Apois... se eu não sentisse não vinha.
Mas a língua desatou-se-lhe, gárrula, e contou toda a história da sua moléstia: Três meses entrevada numa cama, gemendo, sem uma ora de alívio, até que uma conhecida lhe deu uma garrafa daquela água. Foi pronto beber que logo começou a melhorar, como por milagre. Ao cabo de quinze dias estava outra: andando, trabalhando. Mostrou a garrafa e, avaramente, guardou-a, de novo, debaixo do xale roto.
— Eu também não acreditava, minha dona, nem queria saber dessas coisas, mas vi! Não foi coisa contada, foi comigo. Estou assim. — Levantou a saia e mostrou o pé hediondamente deformado pela elefantíase, uma perna monstruosa, com a carne grossa, engelhada em dobras encoscoradas, coberta de cicatrizes.
Dona Júlia olhava, quando uma mocinha parou diante dela, com uma sacola, esmolando para os pobres. Felícia atirou umas moedas, por ela e pela ama e o homem chamou a crioula que ninava a filha enferma.
— Então: como vai ela?
— Parece que agora vai um pouquinho melhor, com a graça de Deus.
— É outro caso, — explicou o apóstolo. — Esta criança não dormia, com a coqueluche, estava inchada e, com cinco dias de tratamento... Cinco dias, não?
— Cinco, sim, senhor; uma colherinha d'água no café.
— Está melhorando. E dorme bem, não?
— Ainda tosse, mas não tanto como tossia.
— Vê? — Dona Júlia concordou. — E seu marido?
A cabrocha encolheu os ombros.
— Esse é que está no mesmo, coitado!
— Mas... — e coçando o queixo com frenesi: tem feito o que eu disse?
— Tenho sim, senhor.
— E donde vem essa água? perguntou Dona Júlia.
— Da caixa; é água da caixa, mas impregnada de fluidos superiores.
— E cura?
— A senhora não está ouvindo?
O mulato, porém, chamou-o, e os dois ficaram cochichando. Mas o apóstolo mostrava impaciência e logo tornou à velha:
— A senhora deve hoje experimentar a sessão íntima. Nós, aqui fora, não trabalhamos, oramos apenas; para os trabalhos superiores temos outra sala. Para a senhora entrar basta que se filie a um dos grupos que constituem a Confederação. Paga a mensalidade e recebe um cartão permanente, podendo vir todas as noites concorrer para a grande obra santa da regeneração da Humanidade. É a primeira vez que assiste a uma sessão?
— É, sim senhor.
— Nunca trabalhou particularmente?
— Não senhor.
— Minh'ama tem medo, — explicou Felícia.
— Medo! — exclamou o homem corcoveando. — Medo de quê? — E, superiormente: Tenha medo dos vivos, minha senhora, que nos impelem ao pecado, concorrendo para a perdição da nossa alma; mas dos puros espíritos, que nos regem, que nos iluminam, que são os nossos conselheiros, desses não deve ter medo porque só baixam ao mundo para fazer bem. — Chegou-se muito à Dona Júlia e continuou, com mistério: Quantas e quantas vezes tem a senhora seguido os bons conselhos de um espírito protetor? Vai praticar um ato e ouve uma voz íntima que lhe aconselha a desistir da idéia, por ser inspiração do Mal. Dizem: é a consciência. Engano, — afirmou, categórico: é o espírito superior que nos guia. Ninguém observa. Os incrédulos procuram explicar tais fatos com razões absurdas. Observe, minha senhora, observe, e há de convencer-se de que a vida na terra é dirigida pelos espíritos que formam as legiões de Deus. Os mortos governam os vivos. Para o verdadeiro espírita a morte não é um motivo de aflição. Por que choram tanto os que vêem sair o enterro de um parente ou de um amigo? porque imaginam que o perdem, não é verdade? Com o espírita não se dá tal; o espírita sabe que os mortos não se ausentam: respondem ao apelo dos que ficaram em penitência na vida e demoram-se com eles, conversando, aconselhando, como se vivos fossem. É uma consolação: a mãe continua a viver com o filho, a esposa continua a sentir a presença do esposo. Há a eterna aliança espiritual. Não há doutrina mais consoladora! — suspirou, com os olhos em alvo.
— Minh'ama entra, assegurou Felícia.
— Pois sim, — concordou resignadamente a velha e, enquanto o homem foi procurar o livro de inscrições, ela interrogou a negra:
— Fala com franqueza: tu contaste o que se deu lá em casa?
— Não contei, minh'ama; toquei nisso uma vez, na rua, mas não disse com quem era. Disse que estava muito triste porque tinha acontecido uma coisa com uma pessoa da minha amizade, mas não disse o nome de vosmecê, nem o de Nhá Violante. Ele sabe tudo, vosmecê pensa?! só vendo. Ele não adivinha, são as almas que contam. Vosmecê ainda não viu nada, com o tempo é que vosmecê há de ver.
O homem acenou à Dona Júlia — estava junto da mesinha, inclinado sobre um livro. Logo que a viúva chegou pôs-se a falar:
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.