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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

Nenhum esto de vista quebrava a monotonia do quarteirão; somente o ruído dos bondes e uma ou outra voz falando alto. Pairava um cheiro forte de urina, assim como uma emanação agressiva de mictório público, envenenando a atmosfera, intoxicando a respiração. Os primeiros reflexos do sol batiam nas vidraças obliquamente acordando os moradores, colorindo a frente das casas em pinceladas de ouro, dando brilhos de cristal puro ao granito dos portais, doendo na vista com fulgurações quentes de revérbero; e já se começava a sentir um calorzinho brando, uma tepidez morrinhenta, um princípio de mormaço.

Abriam-se botequins preguiçosos, lojas de negócio, estabelecimentos de madeira, carvoarias, quitandas.

O movimento, porém, aumentava com a luz; multiplicavam-se os transeuntes numa confusão bizarra de cores e toilettes: daqui, dali, surgiam caras estranhas, fisionomias amarrotadas pelo sono, como abelhas de um cortiço.

A vida recomeçava.

Bom-Crioulo foi encurtando o passo, diminuindo a marcha, calculando a distância, lento e lento, rumo do sobradinho. Já o avistava: era o mesmo de outrora, o mesmíssimo, com as duas janelas da frente, com o seu aspecto antigo, do tempo del-rei, e lá, no alto, lá cima, no telhado, a trapeira sumindo-se, enterrando-se, dependurada quase...

Veio-lhe um não sei quê, uma saudade, como cousa que lhe entrasse n’alma, a dor de uma ingratidão: ali é que ele se juntara ao outro com uma confiança de noivos; ali é que ele tinha passado o melhor da sua vida; ali é que ele tinha aprendido a amar, a “querer bem”...

E murmurava entre dentes, banhado no eflúvio da suas reminiscências, levado pelo fio inquebrantável das doces recordações: — “Aquele sobradinho, aquele sobradinho!...”

Lembrava-se claramente, nitidamente, de quando ele e o pequeno voltaram do cruzeiro e lá foram juntinhos para o quarto de cima, onde morrera, dias antes, o português, de febre amarela. Oh! tinha tudo na cabeça; lembrava-se bem: a primeira noite, os modos ingênuos de Aleixo, a cena da vela... — tudo estava gravado em sua imaginação, tudo!

Enchiam-se-lhe os olhos d’água, turvava-se-lhe a vista, nem era bom pensar...

Bom-Crioulo sentia-se mais do que nunca abandonado, mais do que nunca lhe doía fundo o desprezo do grumete, esse desprezo calculado, proposital, voluntário, com que Aleixo o esmagava, o ludibriava impunemente. “—Ah! era assim, hein? Pois havia de lhas pagar hoje ou amanhã. A gente é como um copo d’água: vai-se enchendo, vai-se enchendo, até não poder mais!”

Faiscavam-lhe as retinas como duas brasas, como dois fogachos, por trás da névoa úmida das lágrimas; todo ele vibrava, todo ele tremia como um epiléptico: vinham-lhe cóleras, ímpetos, aflições... Quase não se podia conter diante daquela casa, que era como o túmulo mesmo das suas ilusões. Transfigurava-se, enlouquecia de ódio, espumava de cólera, de raiva, de ciúme! O aspecto das cousas, o mundo exterior, a gente que passava para o trabalho, tudo quanto seus olhos viam naquela hora de amargura, o próprio sol, a própria luz torrencial do dia causava-lhe um tédio imenso; arrancando-lhe blasfêmias da boca entreaberta num sorriso agoniado e convulso. Não tinha coragem de fitar, de demorar os olhos no sobradinho: baixava-os logo gelado: — “Era ali mesmo, tal e qual!”

Começou, de repente, a sentir uma zoada no ouvido, um rumor vago de insetos, uma cousa desagradável, incômoda e amofinadora; tremiam-lhe as pernas; ia-se-lhe faltando a respiração. Era um mal-estar, um nervoso, uma aflição, um delírio, um vago desejo de matar, de assassinar, de ver sangue... Passou a mão nos olhos, trêmulo, encostando-se à coluna de um gás; quase não podia ter-se em pé: estava sem forças, o hospital enfraquecera-o, debilitara-o horrorosamente, o “maldito hospital”. —“Nunca mais havia de lá, por os pés, nunca mais!”

A porta do sobrado estava fechada; em cima a meia vidraça de uma janela conservava-se aberta; nem parecia morar gente ali: uma imobilidade sepulcral, desoladora!

Bom-Crioulo rodou nos calcanhares, atônito, sem consciência do meio em que estava, o olhar perdido ao longe, na rua, e foi andando, andando, muito devagar por ali acima.

De repente: — “Ah! a padaria!” Já se não lembrava; era a mesma também, a mesmíssima, com seu grande letreiro na fachada — Padaria Lusitana, com suas três portas, debaixo de uma sobrado, quase defronte da portuguesa. Vinha lá dos fundos um cheiro bom de massa, um apetitoso cheiro de pão quente.

Enfiou pelo estabelecimento, e, sem reflexionar, dirigiu-se ao empregado, um muito vivo, rapazola, que, pelos modos, parecia de além-mar.

— O senhor sabe me dizer se ainda mora ali defronte, no sobradinho, uma portuguesa?

— D. Carolina?

— Essa mesma: uma gorda, bonitona...

— Mora, pois não! disse o outro com um quê de malícia nos olhos.

— E um rapazinho, marinheiro, de olhos azuis...?

— Também, Acordam tarde. Ultimamente a porta vive fechada. Costumam sair juntos à noite...

— Saem juntos?

— Pois não! A mim me parece que o menino é bem espertinho...

Bom-Crioulo estremeceu. Ia saber tudo agora, pela boca do caixeiro: a ocasião era a melhor porque o dono do estabelecimento andava fora.

(continua...)

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