Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Uma miniatura, a casinha de Benfica, um sonho de poeta lírico, assobradada, com a sua fachada azul ainda fresca, recebendo em cheio até o meio-dia toda a luz do nascente. Logo à entrada havia uma escadinha de três degraus, de onde se via, lá dentro, nitidamente, como por um cristal muito límpido, a sala de jantar e as bananeiras do quintalejo, de um verde tenro... Sala de visitas, alcova, comunicando com um quarto, casa de jantar, varanda, despensa, quarto para criado, cozinha e quintal, tudo asseado e confortável, com uns tons aristocráticos matizando a compostura graciosa dos móveis, papel claro nas paredes e lustre na sala de visitas. Concluídas as obras da casa, o trabalho de renovação, Loureiro dera-se pressa em mobiliá-la a seu jeito, conforme as suas posses e os seus hábitos de empregado zeloso e metódico. Não pedira conselhos a ninguém: escolhera ele mesmo os móveis e os objetos decorativos, tudo novo e lustroso, como se tivesse saído da fábrica naquele instante. Mandara vir dos Estados Unidos, por intermédio da Casa Confúcio, um piano americano e uma máquina de costura. E, uma vez tudo pronto, tudo no seu lugar, passou uma revista geral na casa, desde a sala de visitas até o fundo do quintal, admirando com a alma cheia de satisfação a espécie de paraíso que ele próprio criara para si.

— “Sim, senhor, tinha cumprido rigorosamente o seu dever. Estava tudo que nem um brinco! Agora, sim, podia casar.”

Lídia pasmou diante daquele novo mundo que se lhe oferecia à vista. Nunca pensara que o guarda-livros soubesse preparar uma casa com tanta graça. Pela primeira vez na sua vida o Loureiro revelara-se um homem moderno e civilizado. Estava encantada! Já agora não invejava a sorte de Maria do Carmo: o Loureiro podia competir com o Zuza em bom gosto! Quem diria? Supunha o guarda-livros mais tolo, mais ignorante e sensaborão. Agora estava convencida de que o seu homem era capaz de fazer figura em qualquer sociedade. Percorreu todos os aposentos, revistando os móveis, admirando a qualidade fina dos objetos, com exclamações de íntima alegria. Sentou-se ao piano e ensaiou uma escala, achandoo excelente.

— Esplêndido, hein, mamãe? Melhor que o das Cabrais!

Mirou-se ao espelho, numa peça magnífica, de cristal, que o guarda-livros comprara num leilão particular por um preço exorbitante. Subia de ponto a satisfação da rapariga. Esteve quase se atirando ao pescoço do noivo e beijando-o agradecida; conteve-se, porém. A viúva, essa acompanhava a filha, embasbacada, dando graças a Deus por ter encontrado semelhante genro — “Olha isto, menina, olha, aquilo!” dizia, muito gorda, chamando a atenção da Lídia.

Da sala de visitas passaram à alcova. O guarda-livros guiava-as, na frente, explicando os menores detalhes, a procedência dos objetos, o seu valor. — “Oh! a cama!”, saltou a Lídia, sentando-se no belo leito de ferro azul com esmaltes de ouro, armado à inglesa em forma de dossel.”

Achava muito elegante as camas que se estavam usando. Experimentou o enxergão de arame calcando-o com o corpo. Magnífico! A viúva também se sentou um instantinho, e continuaram a visita.

Era quase noite quando se retiraram.

Agora, uma semana depois, num sábado, toda a gente falava no casamento da Campelinho como de um acontecimento extraordinário. A Campelinho, hein? Quem diria!... Uma felizarda! E todos comentavam o fato com ruído, recapitulando a vida inteira da viúva e da filha, lembrando episódios, cochichando malícias, prognosticando o futuro da rapariga, admirando a boa fé do Loureiro. Coitado, ele talvez ignorasse mesmo certos pormenores da vida da Lídia...

Daí quem sabia? talvez fossem muito felizes. Conheciam-se moças malcomportadas que, depois, casando-se, tinham-se tornado verdadeiras mães de família.

O Guedes, da Matraca, esse logo às seis horas começou a beber no Zé Gato mais o Perneta, vomitando todo o seu despeito contra a Lídia que ele cobria de impropérios aguardentados.

Debalde, o Perneta procurava acalmá-lo, o Guedes estava fora de si, com os olhos ensangüentados, esbravejando como uma fera.

— Deixa-te disto, ó Guedes, aconselhava o Perneta. Olha que te podem ouvir, homem!

— Que ouçam, que ouçam, cambada de infames!

E batendo no peito orgulhoso:

— Esse aqui beijou muito aquela tipa, sabes? Não preciso dela para coisíssima alguma, estás ouvindo? Aquilo é uma sem-vergonha muito grande, aquela fêmea!

— Cala a boca, menino...

— Cala a boca, por quê? Pensa você que tenho medo de caretas? Hei-de dizer o que eu muito bem quiser, fique você sabendo!

— Quem te diz o contrário, homem de Deus? O que não é bonito é estares aí a dizer asneiras.

De vez em quando aproximava-se o Zé Gato e suplicava que não falassem tão alto, que na rua se estava ouvindo. Mas o Guedes não atendia a coisa alguma, com o pensamento na Lídia, transbordando cólera, possesso.

Escureceu e ele ainda lá estava no fundo da bodega esvaziando cálices de aguardente, a falar desesperadamente.

Às sete horas dois foguetes queimados defronte da casa da viúva Campelo, no Trilho, deram sinal de que os noivos iam sair. Com efeito, daí a pouco surgiu na calçada Campelinho, caracterizada em noiva, afogada em seda branca, com uma auréola de imortalidade, cabisbaixa, pisando devagar, de braço com a firma Carvalho & Cia.

E àquela aparição levantou-se um rumor em todo o quarteirão. “Já vem, já vem!” era a voz geral.

Logo após vinha o Loureiro com a viúva, em seguida Maria do Carmo e um rapaz empregado no comércio, D. Terezinha, o Castrinho, e outras pessoas de mais ou menos intimidade, duas a duas.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4243444546...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →