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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Caminhava lentamente, preocupado, sentindo no coração uma inquietação vaga. O lago gemia tristemente, monótono e tranqüilo. A rua alargava-se, arenosa, escavada pela ação das chuvas, atravancada de cães vadios, de vacas de leite ruminando na sombra. O casario sumia-se na escuridão crescente, crivado de vez em quando por uma fachada nova e branca, salpicado a trechos de gotas vivas de candeeiros iluminados. No fundo, a massa escura da serra sustentava um céu negro, recamado de estrelas cintilantes. Uma brisa sutil, impregnada do perfume de cedro novo, vinha do fundo do lago, agitando de leve o recorte dos ramos das amendoeiras. Os sinos da Matriz começaram a tocar o sinal da ladainha, cortando de súbito com a voz de bronze bem fundido o silêncio da vila. Padre Antônio adivinhou a figura do Macário sacristão, de pé à porta da igreja, olhando para todos os lados, severo e impaciente, e um terror deteve-lhe de repente os passos vagarosos, pensando no sacrifício que mais uma vez faria e no insucesso das lutas até ali consigo mesmo travadas.

A liberdade de que gozava, as facilidades encontradas naquele meio relaxado e indolente, as provocações da vizinha tão fáceis de contentar no mistério dos quintais contíguos, as investigações dos que zombavam de sua virtude inacreditável, a inocupação do espírito, alheio aos pequenos detalhes do serviço diário, haviam-lhe espicaçado a paixão, dominante no temperamento paterno - a acreditar no que lhe haviam contado o padrinho e o Filipe do Ver-o-peso, excitando-o ao ponto de consumir-se em noites de insônia, todo entregue aos ardores da sensualidade reprimida, como no tempo do Seminário, pelo que lhe renasciam os terrores da condenação eterna, e, nos momentos de desânimo, julgava-se irremediavelmente perdido, vendo-se sem força para resistir por muito tempo às exigências da sua carne de vinte e dois anos.

Os sinos repicavam, numa impaciência alegre. Padre Antônio continuou a caminhar lentamente, pensando que cem vezes estivera a cair, cedendo à fatalidade da herança e à influência do meio que o arrastavam para o pecado. O medo da condenação eterna, espantalho que para sempre aterrara a imaginação supersticiosa do matuto, o desejo de ganhar a vitória, e, por que não o confessaria na solidão da rua adormecida? o olhar suspeitoso e investigador do jornalista liberal haviam-no salvado da queda. Quisera lutar e vencer. Dominara o ímpeto das paixões, na certeza de que vencia também o insolente colaborador do Democrata de Manaus. Mas agora - pela centésima vez o pensava - à sua natureza forte não podia quadrar aquele viver mesquinho que o tanger dos sinos lhe recordava. Forçoso era fugir a todo o custo às tentações da existência desocupada e fácil de pároco sedentário. Voltava novamente a desejar uma vida de tormentos e martírios da carne, sonho que esquecera por algum tempo no entretenimento do culto divino, mas que ultimamente se impusera como solução única do problema do futuro, prometendo sedutoramente na palma do martírio a glorificação desta vida e a segurança da outra.

Havia muitos dias que esta idéia se lhe fixara no cérebro como um prego metido a martelo. Descurara o serviço da igreja, dera sueto aos alunos, fora severo com as beatas e intratável para o sacristão. Andava preocupado e melancólico, sem apetite, passando horas compridas no cemitério, contemplando as campas mesquinhas, ornadas de cruzes toscas de madeira, e pensando na morte, na outra vida, no pouco que pesariam as suas ações na balança do julgamento final, e convencido agora, profundamente convencido que sem boas obras não poderia ir para o céu apesar da sua fé ardente, ao contrário da doutrina que despertara a justa indignação do maior teólogo do bispado, do ilustre padre Azevedo.

À vista das pobres sepulturas invadidas pelo mata-pasto e pelo cordão de S. Francisco, sentia uma tristeza infinita, misturada de raiva, pensando que um dia, como os pacíficos habitantes daquela humilde necrópole, ele, padre Antônio de Morais, dormiria esquecido o sono do aniquilamento, sem deixar de si memória alguma. Sobre o seu túmulo obscuro viriam pastar as cabras dos arredores e os mansos bois de carro, e como não ficava uma lembrança, uma saudade, a única voz que choraria sobre o seu corpo inanimado seria a do murucututu agoureiro, fugindo à luz do dia e ao alegre convívio da passarada na mata para gemer tristemente nas trevas e na solidão do cemitério os seus melancólicos amores.

(continua...)

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