Por Aluísio Azevedo (1881)
Raimundo chegou a conceber a idéia de ir à varanda, chamar por alguém, fazer bulha, contar tudo! mas teve pena dela; “Iria prejudicá-la, ofendê-la, seria brutal; além disso escandaloso... oh! um formidável escândalo! . Que diabo então devia fazer?... Sim, no fim de contas, seria estúpido revoltar-se contra a rapariga'... ela o amava, tinha vinte anos, e queria casar nada mais justo!” E resolveu mudar de tática, empregar meios brandos e carinhosos para acabar com aquela situação. “Era o caminho mais curto e mais seguro!” Aproximou-se pois de Ana Rosa, muito temo. e disse-lhe afetuosamente, depois de enxugar-lhe o suor da testa e consertar-lhe o desalinho dos cabelos:
— Mas, querida prima, o fato de amar-me não e motivo de choro!... ao contrário — devemos alegrar-nos! Veja como estou satisfeito, estou rindo! Siga o meu exemplo! E sabe o que nos compete fazer de melhor? — Não é chorar certamente! — é casar-nos! Não acha? Não lhe parece mais acertado? Não me aceita para seu esposo?...
Ao ouvir isto, Ana Rosa tirou logo o lenço do rosto e, o que ainda não tinha feito, encarou Raimundo, desassombrada, feliz, rindo-se, com os olhos ainda vermelhos e molhados, a respiração soluçosa, sem poder articular palavra. E, em seguida, com um desembaraço, que abismou o primo e de que ela própria não se julgaria capaz, abraçou-o amplamente, com expansão, pousando-lhe a cabeça no ombro e estendendo-lhe os lábios numa ansiedade suplicante.
O rapaz não teve remédio — deu-lhe na boca um beijo tímido. Ela respondeu logo com dois — ardentes. Então, o moço, a despeito de toda a sua energia moral, perturbou-se — esteve a desabar — um fogo subiu-lhe à cabeça; latejaram-lhe as fontes; e, no seu rosto congestionado e cálido sofregamente o nariz muito frio de Ana Rosa. Porém teve mão em si: desprendeu-se dos braços dela com muita brandura, beijou-lhe respeitosamente as mãos e pediu-lhe que saísse.
— Vá, sim? Podem vê-la!... Isto não é digno de qualquer de nós...
— Você está maçado comigo Raimundo?
— Não que lembrança! mas vai-te, sim?
— Tens razão! mas olha, quando me pedes a papai?
— Na primeira ocasião, dou-te a minha palavra! mas não voltes aqui, hein? — Sim.
E saiu.
Raimundo fechou a porta e começou a passear pelo quarto, bastante agitado. Estava satisfeito consigo mesmo: apesar dos seus belos vinte e seis anos, tinha sido leal e generoso com uma pobre rapariga que o amava.
E, de contente, cantarolou, com a voz ainda um pouco trêmula:
“Sento uma força indômita!”
Mas bateram duas pancadas na porta. Era o Benedito.
— Sinhô mandou dizer para vossemecê fazer o favor de chegar no quarto dele.
—Vou já
A viagem ao Rosário ficou transferida para o outro mês, em razão de Manuel haver — caído — com uma tremenda papeira, justamente no dia em que Raimundo surpreendera Ana Rosa no seu quarto.
Nessa noite encheu-se a casa de amigos; o Freitas apareceu logo, trazendo uma dose homeopática; discutiu-se a moléstia; contaram-se fatos adequados Cada qual tivera um caso muito pior que o de Manuel! Choviam receitas de todos os lados.
— Laranja-da-terra! laranja-da-terra! gritava D. Maria do Carmo. E afiançava que “abaixo de Deus, não havia remédio melhor para aquele mal! “
— Não! olhe que as papas de linhaça têm provado muito bem... considerou Amância.
— Pois eu me achei foi com a folha de tajá, observou a sobrinha mais velha de D. Mana do Carmo.
— E eu, disse Etelvina com um suspiro, se quis dar cabo de uma que tive, recorri ao óleo de amêndoa doce!
Ana Rosa acendera uma vela a São Manuel do Buraco e Maria Bárbara prometera uma bochecha de cera a Santa Rita dos Milagres.
A Eufrasinha apareceu, e receitou logo — leite de janaúba.
— Corta-se o cipó e escorre um leite branco, tão grosso que é um azeite!
explicava ela com grande mímica. A gente apara numa xícara e depois ensopa algodão bem ensopado, e planta na cara do doente. É uma vez só, menina!
Na varanda conversavam sobre o desanimo do doente.
— É muito esmorecido!... protestava Maria Bárbara. Por qualquer coisa parece que está morrendo! Fica todo “Ai, ai, ai, eu mono desta!” Uma febrinha põe-no assim!
E Maria Bárbara, para mostrar ao vivo como ficava o genro, puxou as faces com os dedos e arregalou disformemente os olhos.
— Credo! exclamou Amância. e citou a morte de um conhecido seu.
Maria do Carmo passou a contar, patética, o falecimento do Espigão. Aquilo é que era morte! Só vendo!...
Seguiu-se uma enfiada de anedotas fúnebres.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.