Por Aluísio Azevedo (1895)
— Olha, minha filha, disse-lhe uma vez, enquanto costurávamos à mesma mesa — o que não poderás negar são as vantagens, que tens sobre as outras esposas, com esse sistema de vida conjugal que te arranjei... O casamento, longe de roubar-te aos prazeres que dantes desfrutavas na sociedade, veio trazer-te novos, sem falar no inestimável gozo de satisfação do amor instintivo que ainda não conhecias. Continuas a ter hoje, em minha companhia, os teus bailes, os teus passeios e os teus teatros, como no tempo de solteira; teu marido, sempre enamorado de ti, nunca falta aos pontos onde saiba que estejas. Entre os homens que te galanteiam é sempre ele o mais solícito em merecer-te as graças, em reqüestar-te, em perseguir-te como verdadeiro apaixonado.
Ora, quero que me digas quantas senhoras casadas encontras tu por aí nestas condições a respeito dos competentes maridos?...
Nenhuma.
Pudessem eles e nunca em público compareceriam ao lugar onde elas se acha, ainda mesmo quando as amem.
E isso por quê? porque sabe cada qual de antemão que, ao recolher-se à casa, há de invariavelmente encontrar a mulher à sua espera, e que terá a sua companhia por toda a noite, e por todo o dia seguinte, e pelo outro depois, e por todos os que seguirem, e enfim por toda a vida! “Estamos unidos para sempre!” suspira o desgraçado. E vê, minha filha, repara quanto esta frase é terrivelmente assustadora! repara como é ela em tudo oposta a essa outra frase, que teu marido repete todas as vezes que tão amargamente se queixa de mim: “Nunca estou com minha mulher todo o tempo que desejo!” sem se lembrar, o ingrato! que nisso consiste justamente o segredo da felicidade de vocês dois! Vamos, confessa qual das duas esposas é a mais feliz — aquela, cujo marido se preocupa com a irremediável eternidade da sua união; ou tu, minha tolinha, cujo marido lamenta a cada instante que as horas passadas contigo nunca são tantas e tão largas quanto ele desejava?...
Mas, observou Palmira — eu amo tanto meu marido!... Não me cansaria em estar ao lado dele...
É o que te parece agora, como a todo o sujeito, atormentado pelo apetite, parece que se não cansaria de comer! Estivessem vocês sempre e sempre juntos, e haverias de dar razão às minhas palavras...
Ora, mamãe, não há de ser tanto assim... murmurou ela.
E, se não podes responder por ti, quanto mais por ele!...
Oh! Ele me ama deveras! Disso tenho eu certeza!
E eu também. E justamente para que essa bela chama não se extinga, doume ao cuidado de reformar-lhe o combustível.
Palmira soltou uma risada e não insistiu no assunto. Mas, à noite desse mesmo dia, a questão voltou com mais força. Meu genro, quando veio para jantar, trazendo como de costume, flores para a mulher e uma pequena lembrança literária para mim, (creio que dessa vez foi um livro de Olavo Bilac) percebeu logo, pela conversa travada entre nós duas, que ele essa noite iria para Botafogo, pois havia já três seguidas que ficava com Palmira.
Não protestou logo, apenas franziu o nariz. À sobremesa, porém, começou a lamentar-se sozinho em casa — e que, com franqueza, antes não tivesse casado — e que era preferível não amar a esposa como ele a amava — e não sei que muitas frases deste gênero.
Fingi não perceber a sua rabugice e, para mudar de conversa, falei-lhe de interesses comerciais, atirando-lhe perguntas sobre perguntas, a que tinha ele de responder a todas. Mas Leandro, que se conservava ao lado da mulher não descia da sua preocupação e, por meias palavras em segredo a gestos dissimulados, instigava Palmira a protestar contra o meu arbítrio. Palmira, a furto, olhava-me suplicante.
Findo o jantar fomos jogar o pôquer, e ele durante o jogo parecia cada vez mais contrariado. Ao chá mostrou-se ainda carinhoso com minha filha, não obstante ir visivelmente se agravando o seu mau humor à medida que se aproximava a hora da separação. E depois do chá deixou-se ficar conversando, sem se resolver a tomar o chapéu e a bengala.
Levantei-me e chamei o criado para dizer-lhe que se preparasse para apagar as luzes e fechar a casa, porque o senhor Leandro ia sair. Palmira então veio ter comigo com o ar embaraçado, as mãos um tanto frias; deu-me um beijo, e pediu-me, hesitante, comovida, e em segredo que eu consentisse ao marido passar com ela ainda aquela noite.
Durante isto, meu genro, sem abalar donde estava, sacudia com impaciência a perna que tinha dobrada sobre a outra. E olhava-me à esconsa.
Não! não! respondi à minha filha.
Mamãe!...
Ele já cá ficou três noites seguidas... É preciso que se vá embora.
Palmira ia insistir a fazer-me novas carícias, mas o marido interrompeu-a secamente, erguendo-se.
Não insistas! disse. Para quê?... Deixa lá tua mãe! Ela não quer! Acabou-se!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.