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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Perdoe-me vosmecê, seu sargento-mór. Muito me agrada fazer pessoa em meu filho. Mas se é somente por me supor cansado da viagem que o escolheu, dê preferência a mim, para ir à cidade, eu devo dizer a vosmecê que estou mais pronto do que ele para fazer a viagem. Faço de conta que tomei o rancho em Goiana, e que a minha parada é na Paraíba. Lourenço é digno de toda a confiança dos homens de bem. mas é ainda muito moço, tem viajado pouco por esses caminhos, e sem ele o querer, pode sair o seu serviço mal feito. Vosmecê entregue-me o que tinha para ele, que em menos de uma hora já estou no caminho de Olinda. Só peço licença para ir ao Cajueiro dar um adeus à minha velha. - Pois vai. Quando voltares, receberás as minhas ordens. - Senhor, sim.

Dentro de poucos minutos, pai e filho estavam no Cajueiro; e quando a luz apontava por cima da mata, já aquele se achava uma légua distante da vila, em direitura para a capital.

XVI

Lauriano tinha sua tenda na rua do Rosário, perto da loja de Antonio Coelho. Era, como quase todos os sapateiros, paroleiro, indagador da vida alheia, e por isso sabedor de muita particularidade e segredo intimo. Seus freqüentadores não tinham nem podiam ter para ele reservas.

Na dita tenda ajuntava-se o povo baixo da vila, que o vinho e o cobre do famoso mercador, por interesseira generosidade dele, faziam simpatizar com a causa dos mascates. Para esta gente estava ela nas mesmas condições que a botica do Rogoberto para o rábula, o meirinho e outros sujeitos de igual estofa. Era o club permanente da plebe. Aí se discutiam com veemência e largueza os negócios da amiga e da inimiga parcialidade. Não raras vezes, no estreito recinto desse singular parlamento, resolveram-se ofensas e defesas da máxima importância. O oficial de pedreiro, o servente de obras, o aprendiz e o oficial de outros ofícios, vinham deixar na tenda as noticias que colhiam nas ruas, e daí levavam as que os outros, seus iguais, tinham trazido para o ignóbil comercio em que eram práticos.

O Tunda-Cumbe fazia parte deste congresso ilícito. Então as repugnância reciprocas entre os portugueses e os homens de cor do país não estavam tão afirmadas como depois vieram a ficar. Eram adina de fresca data os grandes exemplos da fraternidade que em conjunturas gravíssimas ligara raças estrangeiras com raças e castas nacionais; aquelas representadas por João Fernandes Vieira e outros, estas por Filipe Camarão, Henrique Dias e tantos índios, mulatos e pretos que deixaram ilustres nomes esculpidos nas paginas da historia e glorificados pela tradição. Não é pois de admirar que, vendido o seu peixe na vila, fosse o Tunda-Cumbe, não por obrigação mas por devoção, tirar a ferrugem da língua na tenda do Lauriano, onde se reuniam outros mascates da sua laia.

Na antevéspera de S. João o Tunda-Cumbe tinha estado com o sapateiro e lhe havia dito que iria divertir-se à noite seguinte em casa do Victorino. Em conversa familiar já revelara tempos antes as suas inclinações por Bernardina.

<Em toda esta redondeza por onde ando, dissera o vendedor de peixes ao de sapatos, não conheço rapariga que tanto tenha bólido com o meu sentimento como a filha do Victorino.>

O tendeiro, que com os defeitos próprios da sua condição, trazia aliado o de instigador das ruins paixões, tantas coisas lhe meteu na cabeça que o mascate saiu dali cheio da falsa idéia de que ninguém melhor do que ele tinha direito à posse da rapariga. Àquela manhã, Antonio Coelho, passando pela porta de Lauriano, perguntara pelo Tunda-Cumbe. Respondera-lhe o tendeiro que lhe seria fácil encontrar-se com o peixeiro à noite em um ponto, que sabia; e, como farejou negocio importante, ofereceu-se para transmitir-lhe o recado que o mercador quisesse dar. Este contentou-se com lhe pedir que dissesse, de sua parte, ao Tunda-Cumbe, que viesse falar com ele impreterivelmente em sua casa àquela noite. Tunda-Cumbe, não obstante Ter grandes desejos de não deixar o samba senão depois de ausentes todos os convivas, correu sem demora à vila, calculando que de semelhante chamado só lhe poderiam provir vantagens, atento o estado das coisas na capital, do qual já tinham chegado as graves noticias à Goiana.

Os inimigos da nobreza, divertindo-se, como esta, ao menos aparentemente, e festejando com fogos enterrados à frente de suas casas, com reuniões, danças, comes e bebes a noite do precursor do Messias, projetavam também tenebrosas vinganças, seguindo, sem o saberem, os nobres, posto que o conjeturassem.

(continua...)

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