Por Bernardo Guimarães (1872)
Desde o primeiro momento, Eugênio e Margarida se haviam reconhecido, e por alguns instantes se olharam mudos e atônitos sem ousarem proferir palavra.
Margarida estava deslumbrante de formosura. As madeixas opulentas de seus compridos cabelos, rolando-lhe em torno dos ombros em um denso e escuro nevoeiro, davam o mais esplêndido realce ao busto encantador; os grandes olhos negros, cheios de uma luz sombria e melancólica, fixos sobre o padre eram como brandões ardentes e sinistros, que lhe queimavam a alma.
O padre esforçou-se em compor a fisionomia, procurando dar-lhe uma expressão calma e severa. Assentou-se gravemente à beira do leito, e cruzando as mãos sobre o peito:
— Não é a Sra. Margarida, que estou vendo, e com quem estou falando? perguntou com voz surda.
— Bendito seja Deus! exclamou a moça com vivacidade, e levantando as mãos ao céu. — Há quanto tempo não ouço esta voz!... É ela mesmo; é Margarida, senhor padre!...
— E quer se confessar?...
— Sim! sim!... que boa sina o trouxe aqui!... graças a Deus... morro consolada... Eugênio!...
Falando assim Margarida delirante de prazer estendia os braços para o padre.
— Senhora! — retorquiu o padre levantando-se em sobressalto, e dando à voz uma inflexão severa — lembre-se que sou um padre, que venho confessá-la... mas... que é isto?... — continuou olhando atentamente para Margarida — vejo-a tão sadia e corada!... por Deus, que não se acha em estado de pedir confissão!... é um laço diabólico, que me estão armando! A senhora não precisa de meu ministério; eu me retiro. Adeus, senhora!
— Senhor padre, eu não sabia que o senhor estava na terra. Foram chamar o vigário... veio o senhor; foi Deus que o mandou. Por piedade, não se vá; não me deixe morrer sem confissão... eu me acho muito mal...
— Muito mal! não parece... que está sofrendo então?
— Sofro muito, muito!... parece que a cada momento se me rebenta o coração — mas agora... como o senhor veio, sinto-me feliz; já não morro tão sozinha... tão desamparada.
— Desamparada!... pois onde está seu marido?
— Meu marido!... exclamou a moça atônita. — Tenho eu algum marido?...
— Pois a senhora não casou-se!?
— Eu? quem lhe disse isso?...
— Disseram-me; então não é verdade?...
— Não; nunca!... quiseram casar-me, isso sim; mas eu nunca quis... Meu Deus! por que haviam de enganá-lo assim?...
— Ah! meu pai! meu pai! — murmurou consigo o padre agora compreendo tudo... para que semelhante mentira?... Pobre Margarida! — continuou dirigindo-se à moça — como zombaram cruelmente de ti, e de mim!...
— Isso pouco importa; estou agora bem satisfeita. O que me afligia era pensar que ia morrer sem nunca mais torná-lo a ver.
— Mas, Margarida, eu sou agora um sacerdote...
— Que tem isso? assim mesmo quero-lhe bem... que mal lhe pode fazer o amor de uma moribunda? é padre?... fez muito bem; quem sou eu, pobre desgraçada, para o impedir de seguir uma carreira tão bonita... veja... eu estou bem contente, e dou louvores a Deus...
— Ah! Margarida, não me fales assim.
— Por que não, senhor padre? sinto-me tão feliz! lembra-se, quando nós éramos pequeninos?... não me jurou que a primeira pessoa, que havia de confessar, seria eu? veja como Deus nos ouviu...
— Que cruel recordação, senhora! que fatalidade! sim, esse primeiro juramento Deus o guardou escrito no livro do destino, e agora recebe o seu tremendo complemento!
— Era a vontade de Deus, devia cumprir-se...
— Mas em que transe, justo céu!... também eu havia jurado depois que nunca me havia de ordenar... fui perjuro... ordenei-me, perjurei-me de novo... ai... Deus!... tudo isto é o justo castigo de meus repetidos perjúrios.
— Perjúrio não, senhor padre, aquilo foi um juramento louco, que Deus não aceitou. Esta mão foi feita para o altar e não para mim, pobre desvalida; está muito bem empregada no serviço de Deus... deixa-me beijá-la.
Falando assim a moça tomava a destra de Eugênio, e a beijava inundando-a de lágrimas.
— Não chores assim, Margarida! disse com acento comovido e tornando a assentar-se à beira do leito. — Dizes que estás feliz e satisfeita, e me despedaças o coração com tuas lágrimas!
— Deixa-me chorar, Eugênio! — disse a moça abandonando-se insensivelmente à doce familiaridade de tempos mais felizes. — Deixa-me chorar, não fazes idéia de quanto estas lágrimas me fazem bem. Desde que te foste embora, nunca pude chorar assim... isto me alivia tanto...
Eugênio também deixando-se arrebatar pelo perfume das suaves recordações, que se lhe evaporavam do coração, esqueceu um momento que era padre, chegou-se mais para junto de Margarida, retirou a mão que ela apertava com ternura entre as suas, colocou-a sobre o ombro dela, e encarando-a com doçura:
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.