Por Bernardo Guimarães (1872)
Elias possuía ainda algum dinheiro e objetos de valor, restos que tinham escapado à depredação de seu execrável protetor do Sincorá, e que podiam servir de princípio a novas especulações. Elias, que já tinha garimpado muito, tinha certo pendor natural para este gênero de vida; e apesar de ter dissipado o melhor de seu tempo e de seu dinheiro em explorar minas de diamantes, sem outro resultado mais do que contínuas perdas, nem assim perdera a fé em que estava de que do chão havia de lhe brotar a riqueza e a felicidade. Esta era a crença firme do seu velho camarada, crença que por muito repetida não deixava de fazer profunda impressão na imaginação algum tanto fatalista e supersticiosa de seu jovem amo.
Elias costumava também ter sonhos matizados de rubis e diamantes, e além disso, como já ouvimos da boca do velho Simão, uma cigana lhe predissera que sua estrela era de pedra. O amor não contribuía menos poderosamente para inspirar-lhe aquela resolução; suspirava impaciente pelo momento em que pudesse ver-se para sempre unido a Lúcia, e para esse fim só é que desejava enriquecer, e enriquecer depressa. Ora, a não cair do céu, só do seio da terra poderia ver surgir de um dia para outro uma fortuna. Demais a questão era de pouco tempo; em poucos meses, em poucos dias, em algumas horas mesmo poderia ficar resolvido o problema de seu destino. Elias era audaz e resoluto; com o primeiro sorriso de Lúcia voltara-lhe toda a sua coragem e seguridade, toda a sua confiança no futuro.
Comprou datas, engajou praças, e começou a trabalhar com atividade e ardor inconcebível. Mas ah! aquela terra da Bagagem para ele parecia ser amaldiçoada; parecia que o diamante sumia-se do lugar onde tocavam suas plantas!
Tinha-se escoado um mês, e com ele grande parte dos recursos de Elias sem o menor resultado. Montões de cascalho bruto aglomerado em torno das grupiaras, eis o fruto único que se via do trabalho do infeliz moço.
Durante esse tempo duas vezes viu Lúcia, mas com o coração pesaroso e cheio de tristes presságios não ousou comunicar-lhe o mau êxito de suas explorações, e embalou- a com vagas esperanças, que ele mesmo não alimentava. Mas nem assim desistiu ainda. Coragem! . . . dizia ele consigo. Mais um pouco de paciência! . . . mais quinze dias; mais um mês! às vezes a sorte do jogo está na última cartada.
E mais quinze dias, mais um mês se foram de insano trabalho, e de ansioso esperar, sem que a ingrata grupiara lhe entreabrisse nem mesmo um leve sorriso de esperança.
Elias já tinha o coração curtido de decepções; mas nem por isso este último insucesso deixou de lhe amargar cruelmente. Depois de tantas tentativas malogradas, depois de tantos e tão cruéis reveses, esbarrava enfim na muralha impenetrável do impossível. Cansou de lutar, e o desalento calou-lhe fundo pela alma adentro.
- Pobre ainda, meu Deus! exclamava o infeliz; pobre sempre, e cada vez mais pobre! e não poder dar a Lúcia, pobre ainda mais do que eu, senão a miséria em troca de seu amor! Ah! céu de bronze, que deixas exposta aos mais duros rigores da sorte a mais pura e a mais bela de tuas criaturas! ah! terra maldita, que escondes tesouros em teu seio avaro e deixas perecer à míngua o mais lindo dos seres, a mais formosa flor que te adorna a face! . . .
Elias por si só bem pouco se importaria com a pobreza; estava afeito a suporta-la desde longo tempo. Mas cortava-lhe o coração ver a sua querida Lúcia, nascida e educada sempre no meio da abastança, sofrendo privações e quase reduzida à miséria, e condenada a trabalhar com suas próprias mãos para prover à sua subsistência, de seu pai e de sua irmãzinha. Blasfemava contra o céu e maldizia da Providência, que lhe negava sua proteção naquela nobre e santa tarefa em que se empenhava para arrancar à miséria aquela criatura digna do céu.
Desejava morrer, e a idéia do suicídio como um fantasma lúgubre lhe esvoaçava de contínuo pela mente. Mas lembrava-se de Lúcia, de Lúcia na miséria, e compreendia que era preciso viver para ela. Quem lhe poderia valer, se ele lhe faltasse? . . . arrancar-se a existência naquela ocasião era talvez roubar a Lúcia o último, se bem que fraco arrimo, que lhe restava neste mundo. Naquelas circunstâncias já não era somente o simples amante de Lúcia; considerava-se um irmão, um pai.
Elias, completamente desalentado, abandonou de todo os seus serviços, e estava como que de braços cruzados em frente de seu destino inexorável a contemplar-lhe a sinistra catadura, sem ousar lutar contra ele e esperando que o esmagasse.
Elias tinha-se estabelecido no Comércio de baixo, chamado de Joaquim Antônio, que fica rio abaixo, a perto de uma légua da povoação principal. Há dois dias, desamparado da esperança, tinha abandonado o trabalho, e não fazia mais do que cismar na sua triste sorte, entregue às mais pungentes angústias e à mais cruel perplexidade.
Na tarde do segundo dia, estando à janela da casinha que habitava, envolto em suas cismas ordinárias, um rapaz entregou-lhe uma carta. Abriu- a imediatamente; era de Lúcia e dizia assim:
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.