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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Mas Jupira fugia dele como a tímida lontra foge do jacaré, ou como a pomba se esconde do gavião. Era à sombra de sua mãe que vinha arquejante e espantada como a caça acossada pelo jaguar, abrigar-se das perseguições do cacique. Temerosa de cair-lhe nas garras a menina mal ousava arredar-se alguns passos da companhia dos seus.

Os outros bugres pretendentes aos favores de Jupira, que sabiam das intenções de Baguari, furiosos de raiva e de ciúme, e não ousando opor-se de viva força ao possante cacique, ainda que desejassem devorar-se uns aos outros, uniam-se para fazer face ao inimigo comum e mais forte, e seguiam e vigiavam por toda a parte a formosa menina a fim de obstar a que o cacique lograsse seus intentos. Assim Jupira sem querer e sem o pensar tinha sempre ao pé de si uma escolta ativa e vigilante para a defender contra qualquer tentativa violenta de seu sanhudo amante, como sói acontecer entre as brutas alimárias, pouco acima das quais se achavam aqueles selvagens na categoria dos entes. Baguari era valente e terrível; membrudo e robusto como a anta, ágil e veloz como a onça, já tinha sufocado nos braços um dos seus rivais, e traspassado o coração a outro com uma flecha, por terem ousado disputar-lhe abertamente a posse da formosa Jupira. Mas era só e detestado por todos, e eram muitos contra ele. Por isso também da parte dele havia constrangimento e receio.

O tronco do ipê já se tinha de novo toucado de seus tufados cachos de flores amarelas. Baguari que conforme a promessa de Jurema, estava esperando com impaciência aquela quadra, foi ter com ela, e disse-lhe: – Olha, Jurema, o ipê já está florescendo. É tempo de cumprires a promessa que me fizeste, e entregar-me tua filha.

– Ah! minha mãe! minha mãe! dá-me antes a um sucuri, – exclamou Jupira, atracando-se com a mãe.

– Jupira, – disse Jurema para sua filha, – olha que Baguari é forte e te quer muito bem. Vai com ele, minha filha.

– Se minha mãe teima, eu irei lançar-me na lagoa dos sucuris retorquiu a menina com firmeza.

A lagoa dos sucuris era um banhado, que por ali havia e onde existia enorme quantidade desses formidáveis répteis. Quem nela caía era irremissivelmente devorado pelos monstros. Jurema sabia, que sua filha era bem capaz de pôr em prática a sua ameaça, e disse ao cacique:

– Estás ouvindo, Baguari? – ela não te quer ainda. É que ainda não é tempo. Espera ainda, Baguari;... mais tarde...

– Cala-te, filha de Anhangá! – bradou o índio rugindo e batendo o pé com força – não quero mais te escutar, boicininga enganadora... ou hoje ou nunca!...

Ouvindo os gritos e vendo a atitude ameaçadora do cacique, os outros bugres, que estavam de alcatéia, aproximaram-se de arco e flecha em punho, murmurando palavras de ameaça. Baguari lançou-me de revés um furibundo olhar, soltou um rugido de raiva e de despeito, e retirou-se vagarosamente rosnando como um tigre enfurecido.

Vendo que nem por bem, nem por violência lhe era possível obter a posse da virgem indiana, Baguari que não desistia de seus intentos sobre ela, recorreu às ciladas.

Jupira gostava de caçar pássaros. Com um pequeno arco e flechas proporcionadas às suas forças, ela varava os jaós, inhambus, macucos, capoeiras e outras aves que abundavam naquelas florestas, e abastecia de copiosa caça o rancho de seu pequeno bando. Um dia à hora do pôr-do-sol ela estava sozinha com sua mãe à beira de um capão embalando-se indolentemente em sua maca de palhas de buriti e abanando o rosto e enxotando as mutucas com o cocar de penas, que havia tirado da cabeça. Seus companheiros vagueavam pelo campo a pouca distância. Um jaó começou a piar dentro da mata. Jupira saltou lestamente da rede, tomou o arco e flechas, e embrenhou-se no capão, sem que sua mãe, que estava ocupada em esfolar um tamanduá, desse fé daquele movimento.

O jaó é uma ave grande e excelente de se comer, mas muito arisca e dificílima de se caçar.

Os índios e os sertanejos, que com eles aprenderam, empregam uma engenhosa astúcia para os atrair e apanhar. É de ordinário ao pôr-do-sol que os jaós costumam piar, vagueando pelas sombras da mata. O caçador esconde-se cuidadosamente em alguma moita junto ao lugar, em que os ouve piando, e começa também a piar, imitando-os com toda a perfeição. O jaó acudindo àquele chamado, que cuida ser de algum de seus companheiros, vem se aproximando, descobre-se, e então o caçador atiralhe ou flecha-o muito à vontade.

(continua...)

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