Por José de Alencar (1870)
Saindo o leão a espairecer, dirigiu os passos para a casa do Sales; esperava encontrar algum criado que se incumbisse de entregar a carta.
Quem sabe? Talvez nessa mesma ocasião se decidisse de sua sorte. A moça lhe permitiria falar-lhe.
Era noite fechada; o céu, carregado de nuvens, anunciava próxima borrasca. A frente da casa do negociante estava às escuras; contudo quem observasse bem, perceberia a coar-se pelos interstícios das janelas um tênue reflexo de luz interior. No portão da chácara a meio cerrado, ninguém aparecia.
O leão penetrou no jardim. Nesse momento um carro parou à porta da casa: três pessoas saíram dele. Em um Horácio viu, estremecendo, roupas de sacerdote. Só então refletiu o moço no aspecto soturno do edifício. Inquieto, sobressaltado, adiantou-se pelo jardim na esperança de encontrar pessoa a quem interrogasse.
As janelas laterais estavam esclarecidas; e pelo jogo das sombras no quadro iluminado, conheceu o moço que reinava no interior alguma agitação.
Que fazer? Apresentar-se na casa, depois do que passara, e antes de qualquer explicação. não era razoável.
A dois passos ficava uma frondosa mangueira, em cujos galhos tinham fabricado uma espécie de belveder ou caramanchão. Conduzia ao alto uma escadinha de caracol cingindo o tronco da árvore.
Por acaso avistou o leão a mangueira, e subindo sem hesitar, achou-se justamente fronteiro às janelas iluminadas. Em princípio a claridade súbita ofuscoulhe a vista, e não pôde ele distinguir o que se passava no interior.
Mas afinal o deslumbramento dos olhos cedeu ao deslumbramento d'alma.
Ele via, e duvidava.
Um altar erguido, círios acesos, o sacerdote oficiando, Amélia e Leopoldo de joelhos, ao lado Sales, D. Leonor, e dois amigos que serviam de testemunhas: eis o quadro que se ofereceu aos olhos de Horácio. Tinha visto na comédia da vida muitos lances dramáticos, mas nenhum tão imprevisto e curioso.
A surpresa do leão provinha de um engano seu. Ele acreditava que Amélia o tinha amado, quando a moça não sentira por ele mais do que o desvanecimento de ver cativo de seus encantos o rei da moda, o feliz conquistador dos salões.
Quem Amélia amou desde o princípio, foi Leopoldo. A vaidade, o galanteio que se nutre de brilhantes futilidades, a seduziam por momentos, e rendiam ao capricho de Horácio. Mas passado esse enlevo, sua alma sentia a atração irresistível que a impelia para o seu pólo.
Disso que durante dois meses passava na vida íntima da moça, ela própria não se apercebia; foi depois da cena do baile, que ela entrou em si, e compreendeu as sublevações recônditas de sua alma, e o drama que aí se agitava desde muito.
Leopoldo começara a freqüentar a casa de Sales poucos dias depois da partida de D. Clementina. As duas almas, por tanto tempo separadas, só esperavam o momento de se unirem ou antes de se entranharem uma na outra. Às tardes, no jardim, entre cortinas de flores, elas celebravam esse místico himeneu do amor, único eterno e indissolúvel, porque se faz no seio do Criador.
Pelo voto de todos se apressou o dia do casamento, que os noivos exigiram se fizesse inteiramente à capucha, e sem prévia participação. A razão desse empenho, só Amélia a sabia e nunca a disse. Eram escrúpulo de seu pudor: depois do que tinha acontecido, não queria que lhe dessem outra vez o título de noiva.
Terminada a cerimônia, e feitas as felicitações do costume, correram os minutos em agradável conversação.
Eram onze horas, quando Leopoldo entrou no toucador em que sua noiva o esperava. Sentada em uma conversadeira, Amélia sorriu para seu marido; porém através das largas dobras do roupão de cambraia, percebia-se o tremor involuntário que agitava seu lindo talhe.
— É meu presente! disse ela com timidez.
E apresentou ao noivo um objeto envolto em papel de seda, atado com fita azul.
Abrindo, achou Leopoldo dois mimosos pantufos de cetim branco, os mesmos que Amélia começara a bordar no dia seguinte ao baile.
O moço enleado, não compreendia. Insensivelmente seu olhar desceu à fímbria do roupão. Sobre a almofada de veludo e entre os folhos da cambraia, apareciam as unhas rosadas de dois pezinhos divinos.
Uma onda de rubor derramou-se pelo semblante da moça, cujos lábios balbuciaram uma palavra.
— Calce!
Leopoldo ajoelhou aos pés da noiva.
O temporal, desabando nesse momento, bateu com violência nos vidros da janela, que fechou-se.
Horácio desceu do seu observatório, e escalando a grade de ferro do jardim, ganhou a casa, onde chegou todo alagado.
Enquanto filosoficamente esperava que seu criado lhe preparasse uma xícara de café, abriu um livro, que acertou ser La Fontaine. Leu ao acaso: era a fábula do leão amoroso.
— É verdade! murmurou soltando uma fumaça de charuto. O leão deixou que lhe cerceassem as garras; foi esmagado pela pata da gazela.
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.