Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
A cidade do Salvador está situada na Bahia de Todos os Santos uma légua da barra para dentro, num alto, com o rosto ao poente, sobre o mar da mesma baía; a qual cidade foi murada e torreada em tempo do governador Tomé de Sousa, que a edificou, como atrás fica dito, cujos muros se vieram ao chão por serem de taipa e se não repararem nunca, no que se descuidaram os governadores, pelo que êles sabem, ou por se a cidade ir estendendo muito por fora dos muros; e, seja pelo que fôr, agora não há memória aonde eles estiveram. Terá esta cidade oitocentos vizinhos, pouco mais ou menos, e por fora dela, em todos os recôncavos da Bahia, haverá mais de dois mil vizinhos, dentre os quais e os da cidade, se pode ajuntar, quando cumprir, quinhentos homens de cavalo e mais de dois mil de pé, afora a gente dos navios que estão sempre no porto. Está no meio desta cidade uma honesta praça, em que se correm touros quando convém, na qual estão da banda do sul umas nobres casas, em que se agasalham os governadores, e da banda do norte tem as casas do negócio da Fazenda, alfândega e armazéns; e da parte de leste tem a casa da Câmara, cadeia e outras casas de moradores, com que fica esta praça em quadro e o pelourinho no meio dela, a qual, da banda do poente, está desabafada com grande vista sobre o mar; onde estão assentadas algumas peças de artilharia grossa, donde a terra vai muito a pique sobre o mar; ao longo do qual é tudo rochedo mui áspero; e desta mesma banda da praça, dos cantos dela, descem dois caminhos em voltas para a praia, um da banda do norte, que é serventia da fonte que se diz Pereira, e do desembarcadouro da gente dos navios; o caminho que está da parte do sul é serventia para Nossa Senhora da Conceição, aonde está o desembarcadouro geral das mercadorias, ao qual desembarcadouro vai ter outro caminho de carro, por onde se estas mercadorias e outras coisas que aqui se desembarcam levam em carros para a cidade. E tornando à praça, correndo dela para o norte, vai uma formosa rua de mercadores até a sé, no cabo da qual, da banda do mar, está situada a casa da Misericórdia e hospital, cuja igreja não é grande, mas mui bem acabada e ornamentada; e se esta casa não tem grandes oficinas e enfermarias, é por ser muito pobre e não ter nenhuma renda de Sua Majestade, nem de pessoas particulares, e sustenta-se de esmolas que lhe fazem os moradores da terra, que são muitas, mas são as necessidades mais, por a muita gente do mar e degradados que destes reinos vão muito pobres, os quais em suas necessidades não têm outro remédio que o que lhe esta casa dá, cujas esmolas importam cada ano três mil cruzados pouco mais ou menos, que se gastam com muita ordem na cura dos enfermos e remédio dos necessitados.
C A P Í T U L O VIII
Em que se declara o sítio da cidade, da Sé por diante.
A Sé da cidade do Salvador está situada com o rosto sobre o mar da Bahia, defronte do ancoradouro das naus, com um tabuleiro defronte da porta principal, bem a pique sobre o desembarcadouro, donde tem grande vista.
A igreja é de três naves, de honesta grandeza, alta e bem assombrada, a qual tem cinco capelas muito bem feitas e ornamentadas, e dois altares nas ombreiras da capela-mor. Está esta sé em redondo cercada de terreiro, mas não está acabada da tôrre dos sinos e da do relógio, o que lhe falta, e outras oficinas muito necessárias, por ser muito pobre e não ter para fábrica mais do que cem mil-réis para cada ano, e estes muito mal pagos. Serve-se nesta igreja o culto divino com cinco dignidades, seis cônegos, dois meios cônegos, quatro capelães, um cura e um coadjutor, quatro moços de coro e mestre da capela, e muitos destes ministros não são sacerdotes; e ainda são tão poucos, fazem-se nela os ofícios divinos com muita solenidade, o que custa ao bispo um grande pedaço da sua casa; por contentar os sacerdotes que prestam para isso, com lhes dar a cada um, um tanto com que queiram servir de cônegos e dignidades, que os clérigos fogem, por não ter cada cônego mais de trinta mil-réis, e as dignidades a trinta e cinco, tirado o deão, que tem quarenta mil-réis, o que lhes não basta para se vestirem. Pelo que querem antes ser capelães da Misericórdia ou dos engenhos, onde têm de partido sessenta mil-réis, casas em que vivam e de comer; e nestes lugares rendem-lhes suas ordens e pé de altar outro tanto. Está esta Sé muito necessitada de ornamentos, e os de que se serve estão mui danificados; e de maneira que, nas festas principais, se aproveita o cabido dos das confrarias, onde os pedem emprestados; de que Sua Majestade não deve estar informado, que se o estivera, tivera já mandado prover esta necessidade em que está o culto divino, pois manda receber os dízimos deste seu Estado, cuja cabeça está tão danificada, que convém acudir-lhe com remédio devido com muita presteza.
C A P Í T U L O IX
Em que se declara como corre a cidade do Salvador da Sé por diante.
Passando além da Sé pelo mesmo rumo do norte, corre outra rua mui larga, também ocupada com lojas de mercadores, a qual vai dar consigo num terreiro mui bem assentado e grande, aonde se representam as festas a cavalo, por ser maior que a praça, o qual está cercado em quadro de nobres casas. E ocupa esse terreiro a parte da rua da banda do mar um suntuoso colégio dos padres da Companhia de Jesus, com uma formosa e alegre igreja, onde serve o culto divino com mui ricos ornamentos, a qual os padres têm sempre mui limpa e cheirosa.
Tem este colégio grandes dormitórios e muito bem acabados, partes dos quais ficam sobre o mar, com grande vista; cuja obra é de pedra e cal, com todas as escadas, portas e janelas de pedrarias, com varandas, e cubículos mui bem forrados, e por baixo lajeados com muita perfeição, o qual colégio tem grandes cercas até o mar, com água muito boa dentro, e ao longo do mar tem umas terracenas, onde recolhem o que lhe vem embarcado de fora. Tem este colégio, ordinariamente, oitenta religiosos, que se ocupam em pregar e confessar alguma parte deles, outros ensinam latim, artes, teologia, e casos de consciência, com o que têm feito muito fruto na terra; o qual está muto rico, porque tem de Sua Majestade, cada ano, quatro mil cruzados e, davantagem, importar-lhe-á a outra renda que tem na terra outro tanto; porque tem muitos currais de vacas, onde se afirma que trazem mais de duas mil vacas de ventre, que nesta terra parem todos os anos, e tem outra muita granjearia de suas roças e fazendas, onde tem todas as novidades dos mantimentos, que se na terra dão em muita abastança.
C A P Í T U L O x
Em que se declara como corre a cidade por este rumo até o cabo.
(continua...)
BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.