Por Eça de Queirós (1887)
Mas era esta realmente a árvore de espinhos? A rapidez da sua condescendência, fazia-me suspeitar a excelência da sua divindade. Resolvi consultar o sólido, sapientíssimo Topsius.
Corri à fonte de Eliseu, onde ele rebuscava pedras, lascas, lixos, restos da orgulhosa cidade das palmeiras. Avistei logo o luminoso historiógrafo acocorado junto a uma poça de água, com os óculos sôfregos, escarafunchando um pedaço de pilastra negra, meio enterrada no lodo. Ao lado um burro, esquecido da erva tenra, contemplava filosoficamente e com melancolia o afã, a paixão daquele sábio, de rastos no chão, à procura das termas de Herodes.
Contei a Topsius o meu achado, a minha incerteza... Ele ergueu-se logo, serviçal, zeloso, presto às lides do saber.
- Um arbusto de espinhos? - murmurava, estancando o suor. Há de ser o nabka... Banalíssimo em toda a Síria! Hasselquist, o botânico, pretende que daí se fez a coroa de espinhos... Tem umas folhinhas verdes, muito tocantes, em forma de coração, como as da hera... Ah, não tem? Perfeitamente, então é o lycium spinosum. Foi o que serviu, segundo a tradição latina, para a coroa da injúria... Que, quanto a mim, a tradição é fútil; e Hasselquist ignaro, infinitamente ignaro... Mas eu vou já aclarar isso, D. Raposo. Aclarar irrefutavelmente e para sempre!
Abalamos. No ermo, ante a árvore medonha, Topsius, alçando catedraticamente o bico, recolheu um momento aos depósitos interiores do seu saber, e depois declarou que eu não podia levar à minha tia devotíssima nada mais precioso. E a sua demonstração foi faiscante. Todos os instrumentos da crucificação (disse ele, floreando o guarda-sol), os pregos, a esponja, a cana verde, um momento divinizados como materiais da divina tragédia, reentraram pouco a pouco, pelas urgências da civilização, nos usos grosseiros da vida... Assim, o prego não ficou per eternum na ociosidade dos altares, memorando as chagas sacratíssimas; a humanidade, católica e comerciante, foi gradualmente levada a utilizar o prego como uma valiosa ferragem; e tendo trespassado as mãos do Messias, ele hoje segura, laborioso e modesto, as tampas de caixões impuríssimos... Os mais reverentes irmãos do Senhor dos Passos, empregam a cana para pescar; ela entra na folgante composição do foguete; e o Estado mesmo (tão escrupuloso em matéria religiosa), assim a usa em noites alegres de nova Constituição, ou em festivos delírios pelas bodas de príncipes... A esponja, outrora embebida no vinagre de sarcasmo e oferecida numa lança, é hoje aproveitada nesses irreligiosos cerimoniais da limpeza, que a Igreja sempre reprovou com ódio... Até a cruz, a forma suprema, tem perdido entre os homens a sua divina significação. A cristandade, depois de a ter usado como lábaro, usa-a como enfeite. A cruz é broche, a cruz é berloque; pende nos colares, tilinta nas pulseiras; é gravada em sinetes de lacre, é incrustada em botões de punho; e a cruz realmente neste soberbo século pertence mais à ourivesaria do que pertence à religião...
- Mas a coroa de espinhos, D. Raposo, essa não tornou a servir para mais nada!
Sim, para mais nada! A Igreja recebeu-a das mãos de um procônsul romano, e ela ficou isoladamente e para toda a eternidade na igreja, comemorando o grande ultraje. Em todo este vário universo, ela só encontra um lugar congênere na penumbra das capelas; o seu único préstimo é persuadir à contrição. Nenhum joalheiro jamais a imitou em ouro, cravejada de rubis, para ornar um penteado louro; ela é só instrumento de martírio; e com salpicos de sangue, sobre os caracóis frisados das imagens, inspira infinitamente as lágrimas... O mais astuto industrial, depois de a retorcer pensativamente nas mãos, restituí-la-ia aos altares como cousa inútil na vida, no comércio, na civilização; ela é só atributo da Paixão, recurso de tristes, enternecedora de fracos. Só ela, entre os acessórios da escritura, provoca sinceramente a oração. Quem, por mais adorabundo, se prostraria, a borbulhar de padre-nossos, diante de uma esponja caída numa tina, ou de uma cana à beira de um regato?... Mas para a coroa de espinhos, erguem-se sempre as mãos crentes; e a sensação da sua desumanidade passa ainda na melancolia dos misereres!
Que maior maravilha podia eu levar à Titi?...
- Sim, Topsius, meu catita... Os teus dizeres são de ouro puro... Mas a outra, a verdadeira, a que serviu teria sido tirada daqui, deste tronco? Hem, amiguinho?
O erudito Topsius desdobrou lentamente o seu lenço de quadrados; e declarou (contra a fútil tradição latina e contra o ignaríssimo Hasselquist) que a coroa de espinhos fora arranjada de uma silva, fina e flexível, que abunda nos vales de Jerusalém, com que se acende o lume, com que se eriçam as sebes, e que dá uma florzinha roxa, triste e sem cheiro... Eu murmurei, sucumbido:
- Que pena! A Titi fazia tanto gosto que fosse daqui, Topsius! A Titi é tão rica!...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.