Por Eça de Queirós (1925)
Com efeito, as fauces do cão de fila abriram-se, e durante uma hora ladrou a injúria; e como ele tinha (meu Deus, sejamos justos com todo o mundo!) uma certa habilidade de prosa, uma experiência astuta da perfídia parlamentar, não o fez claramente, o que lhe atrairia sobre o dorso as severidades do Regulamento. Não pronunciou o nome de Alípio. Falou apenas do traidor, do apóstata, e sob esta designação vilmente vaga, rugiu, com punhadas de atleta, a sua verrina estudada. O desgraçado, porém, participava, como todos os da sua corpulência, da clássica estupidez.dos colossos: não contava com a finura, a habilidade, o génio de Alípio.
Com efeito, o nosso herói deu-lhe uma lição severa: todo o tempo que o Roldão da Baixa trovejou, Alípio, curvado, rufava tranquilamente com os dedos sobre a sua pasta de verniz.
E quando, entre os aplausos da maioria alucinada, o medonho Gorjão terminou, lançando uma apóstrofe «aos cobardes que sob a injúria, em lugar de erguer a cabeça em desafio, rufam, agachados, sobre as mesas» Alípio, que todos esperavam ver pular para a tribuna, tomou serenamente o Diário do Governo, e pôs-se a folheá-lo com pla-cidez.
Dos bancos da maioria saíram vozes:
– Que nojo! Que abjecção!
Mas o grande homem, pálido, sim, de emoção reprimida, mas sereno na aparência, continuou imperturbável a folhear o Diário do Governo. Assim o plano da maioria falhava. Alípio Abranhos, provocado, insultado, caluniado, lia o Diário do Governo!
Esperando provocar-lhe uma cólera fatal, produziam-lhe apenas uma serenidade sublime!
Daqui, uma raiva desordenada e outro orador da maioria, o Sr. Albino Peixoto, subir à tribuna: depois do Roldão trovejante, era Simão de Nântua, o melífluo.
Este personagem, com efeito, pela face redondinha e jovial, de óculos de ouro, por todo o seu serzinho barrigudo, pela untuosidade vaga das suas palavras, pela sua plácida polidez, assemelhava-se ao amável filantropo, cheio de provérbios e de virtude, de que fala o livro querido onde aprendemos a soletrar.
O seu discurso foi a repetição das mesmas injúrias, mas em voz suave e chorosa. Os vitupérios que o outro rugira, este lagrimejou-os. Era, de resto, pessoa de uma proverbial pacatez: havia nos seus movimentos a hesitante timidez de um míope que perdeu os óculos; caminhava na vida como na rua, com extremo cuidado, evitando pisar um calo ou uma susceptibilidade.
Em consequência da sua autoridade intelectual (e não, como vilmente se disse, porque deste não tinha medo), Alípio decidiu responder-lhe.
O silêncio que se fez na Câmara quando Alípio Abranhos se ergueu e pediu a palavra, foi um daqueles clássicos silêncios – muito conhecidos e estimados em retórica «que precedem as tempestades».
Começou por dizer que se erguia para responder ao Sr. Albino Peixoto – e só ao Sr. Albino Peixoto – acrescentando estas palavras tão admiradas, tão dignas de ficarem clássicas (ainda que se disse depois perfidamente que ele as imitara de Guizot):
– Pode o ilustre deputado acumular as calúnias, elas não chegarão à altura do meu desprezo!
Peixoto ergueu-se de um jacto, e erecto palidíssimo:
– O ilustre deputado insinua que eu sou um caluniador?...
– Ordem! Ordem!
Resposta admirável de Alípio Abranhos:
– Eu não quero insinuar que o ilustre deputado é um caluniador. Eu só afirmei, e claramente, que o ilustre deputado acumulou calúnias!
– Ordem! Ordem!
Leio no extracto da sessão esta infecta interrupção de Gorjão:
– Não responda, Peixoto! Para os cobardes, só o escarro ou o chicote...
Alípio Abranhos não se dignou responder-lhe.
Mas o pacífico Peixoto, que decerto a maioria excitava, exclamou lívido:
– O desprezo de um homem de bem poderia magoar-me, o desprezo de um traidor.só me regozija!
Triunfante réplica de Alípio Abranhos:
– Traidores são os que vendem a sua pena e fazem de um jornal um prostíbulo!
Esta alusão a certos factos lamentáveis da carreira jornalística de Albino Peixoto, produziu uma tormenta que eu encontro assim descrita no Diário das Câmaras: (Sensação prolongada. Diversas interrupções que não chegam à mesa dos taquígrafos. Os senhores deputados, de pé, em grande confusão, trocam palavras coléricas. O Sr. Presidente, não podendo fazer-se escutar, suspende a sessão).
O que me resta contar é doloroso. Nos corredores da Câmara, Alípio Abranhos é subitamente interpelado pelo Dr. Albino Peixoto, que se lança de entre um grupo da maioria, e lhe grita:
– Retire as palavras que disse, senhor!
Alípio, prudente, balbuciou:
– Mas colega... mas caro colega...
– Retire as palavras, canalha! – rugiu Peixoto.
Alípio (como ele me disse depois) ia talvez, por amor da dignidade parlamentar, retirá-las, quando Gorjão, intervindo bruscamente, trovejou:
– Não retira nada! Entre cavalheiros, estas questões de honra não se tratam assim. Não retira nada! Venha daí, Peixoto...
Arrastou o Dr. Peixoto e, daí a pouco, voltava acompanhado de um certo Sequeira, que depois morreu em África, e dirigindo-se a Alípio Abranhos:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.