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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

- Os senhores são muito viciosos, vou vêr a gente do bilhar, disse Carlos. Deixei o Steinbroken engalfinhado com o marquez, a perder já quatro mil réis. Querem o punch aqui?

Nenhum dos parceiros respondeu.

E em torno do bilhar Carlos encontrou o mesmo silencio de solemnidade. O marquez, estirado sobre a tabella, com a perna meia no ar, o começo de calva alvejando á luz crua que cahia dos abat-jours de porcelana, preparava a carambola decisiva. Cruges, que apostára por elle, deixára o divan, o cachimbo turco, e, coçando com um gesto nervoso a grenha crespa que lhe ondeava até á gola do jaquetão, vigiava a bola inquieto, com os olhinhos piscos, o nariz espetado. Do fundo da sala, destacando em preto, o Silveirinha, o Eusebiosinho de Sta. Olavia, estendia tambem o pescoço, affogado n'uma gravata de viuvo de merino negro e sem collarinho, sempre macambuzio, mais mollengo que outr'ora, com as mãos enterradas nos bolsos - tão funebre que tudo n'elle parecia complemento do luto

pesado, até o preto do cabello chato, até o preto das lunetas de fumo. Junto ao bilhar, o parceiro do marquez, o conde Steinbroken, esperava: e apesar do susto, da emoção d'homem do norte aferrado ao dinheiro, conservava-se correcto, encostado ao taco, sorrindo, sem desmanchar a sua linha britanica, - vestido como um inglez, inglez tradicional d'estampa, com uma sobrecasaca justa de manga um pouco curta, e largas calças de xadrez sobre sapatões de tacão raso.

- Hurrah! gritou de repente Cruges. Os dez tostõesinbos para cá, Silveirinha!

O marquez carambolára, ganhando a partida, e triumphava tambem:

- Você trouxe-me a sorte, Carlos!

Steinbroken depozera logo o taco, e alinhava já sobre a tabella, lentamente, uma a uma, as quatro placas perdidas.

Mas o marquez, de giz na mão, reclamava-o para outras refregas, esfaimado d'ouro filandez.

- Nada mach!... Vôcê hoje 'stá têrivêl! dizia o diplomata, no seu portuguez fluente, mas de accento barbaro.

O marquez insistia, plantado diante d'elle, de taco ao hombro como uma vara de campino, dominando-o com a sua macissa, desempenada estatura. E ameaçava-o de destinos medonhos n'uma voz possante habituada a ressoar nas lezirias; queria-o arruinar ao

bilhar, forçal-o a empenhar aquelles bellos anneis, leval-o elle, ministro da Filandia e representante d'uma raça de reis fortes, a vender senhas á porta da Rua dos Condes!

Todos riam; e Steinbroken tambem, mas com um riso franzido e difficil, fixando no marquez o olhar azulclaro, claro e frio, que tinha no fundo da sua myopia a dureza d'um metal. Apesar da sua sympathia pela illustre casa de Souzella, achava estas familiaridades, estas tremendas chalaças, incompativeis com a sua dignidade e com a dignidade da Filandia. O marquez, porém, coração d'ouro, abraçava-o já pela cinta, com expansão:

- Então se não quereis mais bilhar, um bocadinho de canto, Steinbroken amigo!

A isto o ministro accedeu, affavel, preparando-se logo, dando caricias ligeiras ás suissas, e aos anneis do cabello d'um loiro de espiga desbotada.

Todos os Steinbrokens, de paes a filhos (como elle dissera a Affonso) eram bons barytonos: e isso trouxera á familia não poucos proventos sociaes. Pela voz captivara seu pae o velho rei Rudolpho III, que o fizera chefe das caudelarias, e o tinha noites inteiras nos

seus quartos, ao piano, cantando psalmos lutheranos, coraes escolares, sagas da Dallecarlia - em quanto o taciturno monarcha cachimbava e bebia, até que saturado de emoção religiosa, saturado de cerveja preta, tombava do sophá, soluçando e babando-se. Elle mesmo, Steinbroken, levara parte da sua carreira ao piano, já como addido, já como segundo secretario. Feito chefe de missão, absteve-se: foi só quando vio o Figaro

celebrar repetidamente as walsas do principe Artoff, embaixador da Russia em Paris, e a voz de basso do conde de Baspt, embaixador d'Austria em Londres, que elle, seguindo tão altos exemplos, arriscou, aqui e alem, em soirées mais intimas, algumas melodias filandezas. Emfim cantou no Paço. E desde então exerceu com zelo, com formalidades, com praxes, o

seu cargo de «barytono plenipotenciario,» como dizia o Ega. Entre homens, e com os reposteiros corridos, Steinbroken não duvidava todavia cantarolar o que elle chamava «cançonetas brejêras» - o Amant d'Amanda, ou uma certa ballada ingleza:

On the Serpentine, Oh my Caroline...

Oh!

Este oh! como elle o expellia, gemido, bem puxado, n'um movimento de batuque, expressivo e todavia digno... Isto entre rapazes e com os reposteiros fechados.

N'essa noite, porém, o marquez, que o conduzia pelo braço á sala do piano, exigia uma d'aquellas canções da Filandia, de tanto sentimento e que lhe faziam tão bem á alma...

- Uma que tem umas palavrinhas de que eu gosto, frisk, gluzk... La ra lá, lá, lá!

- A Primavera, disse o diplomata sorrindo.

(continua...)

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