Por Eça de Queirós (1870)
Mas, de repente, Rytmel tomando um machado correu ao bor do de onde pendia o escaler, cortou as correias de suspensão; o bar co caiu na água com um ruído surdo, ficoujogando sobre as ondas meio voltado, sobrenadando como um corpo morto.
Eu bati o pé, desesperado.- Ah, que infâmia, Captain Rytmel! Que infâmia! E por uma inspiração absurda, querendo desabafar, fazendo alguma coisa de violento, gritei para alguns marinheiros que estavam à proa:- Há algum inglês aí que preze a sua bandeira?
Todos se voltaram admirados, mas sem compreender.- Pois bem! — gritei eu. — Declaro que esta bandeira cobre uma torpeza, tem a cumplicidade da desonra, e que é sobre toda a face inglesa que eu cuspo, cuspindo no pavilhão inglês.E, correndo à popa, cuspi, ou fiz o gesto de cuspir sobre a lar ga bandeira ingles a. Um dos marujos então decerto compreendeu, porque teve um movimento de ameaça.- Ninguém se mova! — gritou Rytmel. — Eu sou o ofendido, meu amigo — disse ele com a voz sufocada -, tem razão; desde que abandonei Malta, deixei de ser oficial inglês. Sou um aventureiro. Esta bandeira, com efeito, não tem que fazer aqui!Adiantou-se, arriou o pavilhão de tope da popa.
E numa exaltação tão insensata como a minha, arremessou o pavilhão ao mar; as ondasenvolveram-no, e por um estranho acaso, no encontro das ág uas, a bandeira desdobrou-se, e ficou estendida sem movimento, serena, imóvel, à superfície do mar, até que se afundou.
Rytmel, então, por um impulso romanesco e apaixonado, to mou o lenço das mãos da condessa, amarrou-o à corda da bandeira, e içando-o rapidamente, gritou: — De ora em diante o nosso pavilhão é este! Eu achava-me no meio de todas aquelas coisas violentas, como entre as incoerênciasde um sonho.
Num movimento que fiz, senti no bolso o revólver: não sei que desvairadas ideias de honra me alucinaram, tirei-o, engatilhei-o, brandi-o, gritei:- Boa viagem!
— Jesus! — bradou a condessa. IX
Rytmel precipitou-se sobre mim e arrancou-me o revólver. Eu murmurei simplesmente:- Bem! Será no primeiro porto a que chegarmos.
A condessa então adiantou-se, lívida como a cal, e disse (nun ca me esquecerá o som da sua voz):- Rytmel, voltemos para Malta.
— Voltar para Malta! Voltar para Malta! Para quê, santo Deus?Eu interpus-me, disse as coisas mais loucas: — Rytmel, dê-me esse revólver, sejamos homens. Que as nos sas acções tenham a altura dos nossos caracteres. Nada mais sim ples. Nem a paixão pode retroceder, nem a honracondescender. A solução é a morte. Eu mato-te, fugi vós para bem longe...
Mas a condessa, que era a única que parecia ter ainda uma luz de razão dentro de si, repetiu, com a mesma firmeza, onde se sen tia a dor oculta:- Rytmel, voltemos para Malta.
Ele olhou-a um momento: a consciência da nossa odiosa situa ção pareceu entãoinvadi-lo, subjugá-lo; vergou os ombros, obedeceu, foi dizer algumas palavras ao capitão do iate.
Daí a um instante corríamos sobre Malta.Houve um grande silêncio, como o cansaço daquela luta da pai xão. Rytmel passeava rapidamente pelo convés, e sob a serenida de do seu rosto, sentia-se a tormenta que lhe iadentro.
— Aqui está! — disse ele de repente, parando e cruzando os braços, com um estranho fogo nos olhos. — Acabou tudo! Voltamos:para Malta. Que mais querem? Que nos resta agora? Dizer-nos adeus para sempre, para sempre! Íamos a Alexandria; estávamos. salvos, sós, novos, felizes! E agora?Felicidade, amor, paixão, es perança, alegria, acabou tudo. Ah, pobre ingénuo! Falam-te na honra! Que honra a que me vai matar todos os dias, a que me arranca do meu paraíso, a que me toma o último desditoso! Honra!Que me resta a mim? Uma bala na Índia. Morrer para ali, só, como uni cão.
A condessa não dizia nada, com os olhos perdidos no mar.E Rytmel vindo para mim, tomandome o braço, com um ges to desesperado: — Vês tu! Vês isto? Eu sofria tudo por ela: a desonra, a infâmia, o desprezo; abandonava o mundo, renegava a minha farda, queria a pobreza, o escárnio, tudo por ela.Diz-se a um homem — amo-te, vai-se fugir com ele, está-se num navio, e de repente, a meia hora da felicidade e do paraíso, quando já se não vê terra, vem um escrú pulo, uma mágoa,uma saudade do marido talvez, uma lembrança de um baile, ou de uma flor que ficava bem — e adeus para sempre! E quer-se voltar; e tu, miserável, sofre, chora, arrepela-te, e morre para aí como um cão. Meu amigo, eu não tenho voz, nem força: previna o piloto: a senhora condessa tem pressa de chegar a terra!... — William! William! — gritou a condessa, precipitando-se, tomando-lhe as mãos. — Mas tu não percebes nada? Em Malta, como em Alexandria, eu sou tua, só tua... tua diante deDeus, tua diante dos homens...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.