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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Um caso curioso deu-se com um artigo de Aires d'Ávila. Na sua cantilena diária, o paquidérmico plumitivo tinha escrito “pesados 200$000 impostos pelo Congresso”, mas, passando de uma linha para outra, cortara a quantia pelo cifrão, sem o qual, a revisão e a tipografia entenderam “200 ovos postos pelo Congresso”. Ávila às nove horas da manhã veio ao jornal, furioso, com as banhas agitadas, todo ele nervoso de pasmar, pois sempre me pareceu sem nervos. O que tinha sido uma simples obra do acaso, atribuía ele a uma canalhice da revisão, uma pilhéria de mau gosto.

De tarde o chefe da revisão foi chamado, quis explicar o “gato”; mas a nada se atendeu e houve algumas demissões. Não eram raras aliás. No jornal, há-as de mês a mês; por dá cá aquela palha, o diretor ou o secretário demite, suspende, multa nos ordenados. Dai vem o terror dos subalternos, a lisonja, o respeito religioso de que são cercados os chefes. Entretanto, quantas vezes se não lêem acres censuras ao ministro que demitiu este ou aquele funcionário, por motivos em geral mais plausíveis!

Unicamente Gregoróvitch não fazia carga sobre a revisão. Para ele, tanto se lhe dava sair “nós fomos” como “nós foi”. Não tinha nenhum amor pelos escritos; eram como cutiladas, tanto fazia matar, ferindo no pescoço como rachando a cabeça meio a meio. O que ele queria era matar, ferir, golpear: a maneira pouco se lhe dava. E era uma felicidade para a revisão que ele pensasse assim. No jornal, só o russo tinha prestigio e iniciativa. Os outros curvavam-se servilmente ao diretor. O que não seria se o doutor em Exegese Bíblica tivesse os cuidados puristas do Oliveira, que reclamava um “propositalmente” por propositadamente! Toda a sua gramática estava aí. Ele conseguira saber que “propositalmente” não era aconselhado pelo Rui e aí do revisor que deixasse escapar um na sua seção! O próprio Loberant, tão ignorante como o Oliveira, péssimo escritor, tinha fúrias extraordinárias quando lhe trocavam uma palavra no luminoso artigo. Diariamente, mesmo quando não escrevia, corria o jornal de manhã, de principio ao fim, auxiliado pela mulher, para descobrir erros segundo a gramática do Lobo. Graças a leituras das “sorites” do esquálido gramático, Loberant julgava-se um purista; demais, ele sempre tivera culto pelo dicionário, pelo purismo. Era um gosto ver surgir nos seus artigos-descomposturas termos catados ao Morais e ao Domingos Vieira. E essa sua crença de purista e cultor da língua juntara-se, com o tempo, à de ser também um grande homem, um messias, um homem providencial. Com cuidado e atilamento, afastara do jornal toda e qualquer pessoa de mais talento que ele. Proprietário da folha, absorvera-a toda em si: os artigos, a criação das seções, as referências elogiosas, as “cavações”, tudo só se fazia com sua audiência e aprovação. Ele pairava sobre o jornal como um sátrapa que desconhecesse completamente qualquer espécie de lei, fosse jurídica, moral ou religiosa. Não havia regulamentos, praxes; o jornal era ele e a coerência de suas opiniões vinha dos impulsos desordenados de sua alma, que o despeito agitava em todos os sentidos. No curto prazo de uma semana, o seu jornal atacou, elogiou e qualificou herói o ministro da Guerra; e nenhum dos três artigos saiu da sua pena; foram escritos à sua ordem pelo Adelermo Caxias, que se gabava de honestidade intelectual. Na redação era assim: escrevia-se, mediante ordem do diretor, hoje contra e amanhã a favor. Floc, entretanto, gabava-se de ter autonomia nos seus artigos. Eram puramente literários, ou tinham esse propósito, e, à luz da inteligência de Loberant, era-lhe perfeitamente indiferente que o naturalismo fosse elogiado e o nefelibatismo detratado; que a Academia de Letras tivesse referências elogiosas ou recebesse epigramas acerados. Floc era contra a Academia, contra os novos, contra os poetas, contra os prosadores; só admitia, além dele, com a sua obra subjacente, que se poetassem e fizessem versos, certos rapazes de sua amizade, bem-nascidos, limpinhos e candidatos à diplomacia. Confundia arte, literatura, pensamento com distrações de salão; não lhes sentia o grande fundo natural, o que pode haver de grandioso na função da Arte. Para ele, arte era recitar versos nas salas, requestar atrizes e pintar umas aguarelas lambidas, falsamente melancólicas.

Na crítica, tinha-se na convicção de um fazedor de poetas, um consagrador de reputações; com aquele endosso da firma burlesca — Floc — o autor que lhe recebesse elogios, passava imediatamente para o Larousse . Ignorante, insciente, com uma leitura de pacotilha, não se animava a desenvolver qualquer teoria, a ter um ponto de vista qualquer; bordava umas banalidades — “uns deliciosos momentos de gozo estético deu-nos, etc.; a sua alma vibra e palpita, etc.”.

Ainda tenho nos meus papéis a noticia que ele deu de uma plaquette de verso do poeta Almeida Lopes. Começava assim portentosamente a noticia: “Eis aqui um caso singular, e que desnorteia os princípios geralmente admitidos em hereditariedade. O Senhor Almeida Lopes, filho de escritores, nasceu poeta e escritor”.

(continua...)

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