Por Coelho Neto (1906)
O velho, d'olhos fechados, repoltreado na cadeira da presidência, abanavase ligeiramente, como os acrobatas japoneses, virando, revirando a cabeça. O outro continuou: "Os nossos padecimentos são insignificantes em relação aos nossos crimes. Ainda penando devemos ser gratos à misericórdia divina". Dona Júlia acenou afirmativamente com a cabeça. "Quando virdes um homem torturado, lastimai-o, mas não o julgueis vitima de uma injustiça de Deus, não! Ele buscou, com atos, aquelas dores; ele mesmo abriu as feridas em seu corpo e preparou a ruína da sua casa. Os julgamentos de Deus são retos e inexoráveis."
Limpou o suor da fronte, depois, atirando o lenço à mesa, disse, inspirado, cravando os olhos em Dona Júlia:
"Não vos revolteis contra Deus. Por que duvidais do seu poder? Por que blasfemais? Por que o vosso filho, desvairado pelas paixões, desprezou o vosso carinho, enveredando, alucinadamente, pelo caminho do vício? Confiai na
Providência e a ovelha tornará ao redil, trazida pelo arrependimento."
Dona Júlia estremeceu na cadeira e chegou-se mais à Felícia, com os olhos imensamente abertos, a boca em hiato, trêmula e fria. Era justamente a história lamentável da sua vida que aquele homem denunciava; era a sua chaga que ele esvurmava, expondo-a aos olhos de todos e ela, humilhada, envergonhada e medrosa, repuxava o xale da negra, chamando-a em voz surda:
— Felícia... Felícia. — A negra inclinou a cabeça para ouvi-la: Ele sabe?
— Como não, minh'ama!?
— Foste tu que lhe disseste.
A negra mirou-a sem dizer palavra. Mas o homem continuava pregando a misericórdia, mostrando Jesus a perdoar as ofensas, até quando as lanças se lhe embebiam nas carnes. Dona Júlia não ouvia, preocupada com as palavras misteriosas que ele pronunciara, tão de feição à sua angústia e foi preciso que Felícia a chamasse para que ela saísse do êxtase doloroso e desse atenção ao pregador:
"Meus irmãos, concentremo-nos para que os nossos bons fluidos se convertam em medicina, preparando a água que deve curar os enfermos.
Uma velha ajoelhou-se e, d'olhos no teto, mãos postas, estatelou-se em ascese; e o homem pôs-se a dizer a prece lentamente, com o surdo e arquejado acompanhamento de toda a devota assembléia.
"Imploramos aos Bons Espíritos e aos nossos Anjos da Guarda, em nome de Deus, nosso Bom Pai de Amor, para envolver-nos com os seus fluidos salutares, a fim de transmiti-los a esta água, que será medicamento, porque servirá de veículo aos nossos bons fluidos. Desejamos, antes dos curativos dos nossos corpos, curar os espíritos, arrancando de nós o ódio, o crime, o orgulhoso egoísmo, que são enfermidades d'alma, piores que todos os sofrimentos da vida terrestre. Bom Pai, nós queremos nos regenerar e, animados pela fé ardente no vosso divino amor e pela certeza inabalável na vida futura, pedimos a proteção dos Espíritos Elevados, nossos filhos e nossos irmãos amados, em vosso santo nome, para que se faça em nós, sempre, a vossa santa vontade."
Terminada a prece, persignaram-se todos, com um murmúrio devoto, e o homem declarou:
'Que os doentes podiam ir encher as suas garrafas."
Produziu-se sôfrego alvoroço. As mulheres tiravam garrafas debaixo nos xales, desembrulhavam-nas e lá iam, aos apertões, arrastadamente, em direção à pia, cuja torneira jorrava gorgolejando.
Era a água santa, impregnada de fluidos espirituais, benzida pelos anjos de Deus, e aqueles que a recebiam veneradamente saíam consolados. Uns bebiam ávidos, não por sede, mas porque sofriam e logo, aliviados, como se os bálsamos angélicos houvessem operado instantaneamente, retiravam-se fazendo lugar aos que chegavam. E interrogavam-se sobre as melhoras: se já caminhavam com mais segurança; se viam melhor; se as dores haviam abrandado.
Um velho meteu-se a um canto com a sua garrafa e, despejando a água no côncavo da mão, pôs-se a banhar os olhos, e a negra, despertando a criança enferma, chegou-lhe à boca seca um copo d'água, que a pobrezinha sorveu com sofreguidão, aos grandes goles, arquejando. O homem da prédica, enquanto os crentes cercavam a pia, dirigiu-se a Dona Júlia. A velha, profundamente abalada por aquele espetáculo estranho, só deu pelo apóstolo da santa missão quando Felícia chamou-a:
— Minh'ama.
Voltou-se e, vendo o homem, muito trêfego, a agitar-se diante dela, com os olhinhos vivos e lampejantes cheios de malícia, sentiu um arrepio, mas passivamente, dominada, encolheu-se cruzando os braços.
— É a primeira vez que vem aqui, minha senhora?
— Sim senhor.
— É a senhora de quem eu falei a vosmecê: minh'ama — disse Felícia com um sorriso servil.
O homem acenou afirmativamente com a cabeça e, como a velha cabrocha se aproximasse, batendo com o cajado, chamou-a e, apresentando-a, disse:
— Olhe, minha senhora, esta criatura que aqui está demonstra, à evidência, a verdade da nossa crença. Eu sei que por aí assoalham que vivemos a explorar a ignorância dos ingênuos, entretanto, quando apresentamos provas, riem com ironia porque não podem refutar a verdade dos fatos. Aqui está uma. — Dirigindo-se, então, à cabrocha, perguntou: Para que é que você vem buscar esta água?
A interpelada, como se não quisesse confessar a sua crença em presença de uma estranha, respondeu secamente:
— Porque venho!
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.