Por Adolfo Caminha (1896)
— No entanto, D. Adelaide, eu estimo-a, como se fosse minha irmã. Nunca mulher alguma dominou tão poderosamente um coração. Não quero dizer que a amo, porque... porque seria uma deslealdade... Que idéia faz de mim? Pensa então que eu não considero as coisas, que me deixo levar por utopias ou por sentimentos que nivelam o homem com o animal? O meu estado obriga-me à circunspecção, ao respeito, à sisudez. Além disso, eu não desejaria para os outros o que não quero para mim...
Adelaide, sempre muda, o rosto voltado para o piano, batia com a ponta do pé no soalho, inquieta, uma exacerbação de todos os nervos, quase a romper numa caudal de desespero.
O secretário ia continuar, mas D. Branca penetrou na sala.
Daí em diante Furtado não perdia ocasião de aludir ao episódio do beijo com uma insistência atrevida, numa voz untuosa de padre que aconselha um pecador. Ela ouvia-o — que remédio! — de olhos baixos, calada, sem exalar um suspiro, sem fazer um movimento, presa ao chão, como uma estátua. Era a mesma sempre, a mesma mulher fraca, incapaz de repelir qualquer ofensa aos seus brios de esposa honesta, dócil como um animaízinho que a gente acaricia, meiga como uma pomba. E esta passividade era tanto maior porque Adelaide estimava o secretário, habituarase a vê-lo todos os dias, a receber favores e finezas dele e D. Branca, a considera-lo quase como um parente. Romper agora, depois de tantos meses de intimidade, — que escândalo! Não pensava tampouco em ceder, isso nunca lhe passara pela idéia. Era toda de Evaristo, toda do seu marido, a quem amava e respeitava abaixo de Deus. Nada se lhe afigurava tão desprezível como uma mulher adúltera, uma mulher que pertence a mais de um homem, depois de ter escolhido publicamente um esposo, um companheiro eterno para as suas dores e para as suas alegrias. Demais Evaristo nunca faltara com os deveres de homem casado: adorava-a como se adora a imagem de uma santa; era sempre o mesmo Evaristo da província, o mesmo caráter bondoso, e reto, confiando nela, sacrificando-se por ela, respeitando-a também. Lamentava que o marido de D. Branca, "homem distinto e de tão belos modos, de tão fina educação, tentasse uma coisa impossível, julgando-a capaz de um ato vergonhoso e torpe!" Lamentava em silêncio, pungida de desgosto, e não raras vezes umedeciam-se-lhe as pálpebras, quando estava só refletindo nas coisas da vida.
E tornava a pensar: — Antes nunca houvesse deixado a casinha de Coqueiros, perdida entre árvores, longe de tentações.
Mas Evaristo chegava e ela redobrava de carinhos abraçando-o, como se quisesse pregar-se a ele, beijando-o, e iam os dois unidinhos por aquele tristonho segundo andar que sem ele era um deserto.
O bacharel agora vivia para Adelaide, para a república e para o Clube Republicano de Botafogo. Não pensava noutra coisa. A propaganda abolicionista entusiasmava-o, porque, dizia ele, feita a abolição, estava feita a república, e um país de escravos é um país atrasado. O escravo era ainda o único obstáculo para a realização da forma democrática no Brasil!
Nas discussões com os amigos ia buscar no próprio direito romano argumentos contra a escravidão. Um dia o diretor do Banco Industrial preveniu-o que "ali não era lugar de palestras"... O diretor do banco possuía fazendas em São Paulo. Evaristo queixou-se a Furtado.
— Você logo não está vendo que eu não troco as minhas idéias por um lugar de escriturário! — bradou ele. — A república há de se fazer, depois da abolição, e tudo quanto é visconde e marquês vai para a rua!
— Isso devias tu dizer ao diretor, não a mim... — obtemperou gravemente o secretário. - Por que lhe não respondeste?
— Ora, porquê! Porque não há liberdade, porque neste país domina o capital e sem dinheiro ninguém vive!
— Ah! neste caso, meu amigo, é sempre melhor o empreguinho do que as tais idéias!
Evaristo, porém, ameaçava o diretor do banco com o novo sistema de governo, e citava episódios da revolução francesa, repetindo os nomes de Marat, Robespierre e Danton, batendo com o punho na mesa, erguendo-se na ponta dos pés, num entusiasmo apaixonado pelos homens de 1789.
Furtado às vezes, por distração, opunha-lhe argumentos em defesa da monarquia, rebaixando Marat, chamando-o de assassino, de bandido, apelando para o juízo da história e para as altas qualidades do imperador do Brasil. Via-se, então, o marido de Adelaide ficar sem gota de sangue no rosto, desabotoar o paletó, o colete, arregaçar as mangas e berrar, como um possesso, contra os ministros da coroa, contra o regime imperial, contra os abusos do Poder!
— Eu lhe peço, Sr. Furtado, pelo bem que quer à D. Branca: não discuta política com o Evaristo! suplicou uma vez Adelaide.
Furtado olhou-a, enternecido, e jurou por todos os santos da Corte celeste, não mais discutir política com o Evaristo.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.