Por Aluísio Azevedo (1895)
Vem o filho, e a desventura doméstica dos pais transforma-se então em novos elementos de desgraça para a geração inteira: A mãe, que até aí conservou intacto o cabedal de meiguice feminil com que veio ao mundo, põe-se a adorar o bebê e despeja-lhe de uma só vez, na tenra moleira, todo esse inestimável tesouro de ternura, que ela trazia no coração para gastar durante toda a sua vida de mulher; o marido, por outro lado, não tendo tido também até aí com quem aproveitar o seu farnel de dedicação e de amor, porque encontrou a esposa sempre de peito fechado para recebê-lo, recorre ao filho, e começa a fazer dele o exclusivo objeto de todos os seus carinhos e exagerados desvelos. Se o pimpolho não desmedra e morre logo no berço, sufocado de beijos e abraços, qual será a conseqüência desse excesso de mimos? Será que a criança fica irremissivelmente estragada e perdida para todos os efeitos, fica malcriada, voluntariosa, insuportável de gênio: fica reduzida a um mimalho adulado pelo papá e pela mamã. E como o desvelo por ele foi até ao ponto de o não deixarem correr e brincar com liberdade, e como sempre o trouxeram afogado em ondas de rendas e de fitas, e de fraldas e cueiros; e como lhe não deixaram descansar o estômago das balas de açúcar e confeitos e bonecas meladas, fica ainda o desgraçadinho tão minguado de corpo como de espírito.
E que homem pode vir desse mimanço? O pai, comendador, destina-o para doutor, está claro! mas, à proporção que o filho for crescendo, os mimos vão aumentando, e o infeliz ir-se-á tornando pior, cada vez mais insuportável para os estranhos, e cada vez mais adulado pelo papá e pela mamã. Como até então ninguém o constrangeu ao menor esforço ou dever de trabalho, ninguém obterá também dele que consiga aprender alguma coisa; ficará condenado a ser um belo tolo; adquirirá vícios antes de ser homem; o seu curso acadêmico, se chegar à academia: o que é natural porque é fácil, será um curso de bebedeiras, de pândegas e de aprovações obtidas à custa do aviltamento de seu caráter, ou do caráter dos pais. E o mimalho acabará fatalmente por apresentar ao mundo mais um espécime desses milhões de bacharéis inúteis, pretensiosos e tristes, incapazes da obra mais insignificante, mantendo-se à custa da família ou da herança até à velhice, e só vivendo para desorganizar o meio em que vegetam.
Eis por que o negociante nem sempre convém para marido de nossas filhas.
E eis por que, para sintetizar a escala geral da família brasileira feita pelos portugueses, formei este axioma:
Pais — comendadores; filhos — bacharéis; netos — mendigos.
Se outras razões não ocorressem para promover eu a todo o transe a conservação do amor sexual entre minha filha e meu genro só o fato de que o contrário seria nocivo a meus netos, mereceria de mim todos os sacrifícios que àquela causa tenho até hoje dedicado.
CAPÍTULO XVIII
Com orgulho e com prazer declaro que a vida conjugal de minha filha ia por adiante, desenrolando-se feliz. Meu genro continuava a morar sozinho em Botafogo e nós duas no bairro de Laranjeiras. Ao fim de vinte meses de casados, Leandro era para a sua adorada Palmira o mesmo amante dos primeiros dias.
Mas é que nunca se aproximou dela nos período em que a Bíblia manda que o homem se afaste da mulher — por imunda; nem jamais demorada promiscuidade deu-lhes margem e vagar a que se estudassem em silêncio, no enojo de bocejados lazeres, ao lado um do outro na mesma cama, quando o corpo, cansado de amar, deixa que só o pensamento trabalhe por sua conta própria, enquanto ele repousa. Nunca enfim tiveram ocasião de enfastiar-se juntos, consorcialmente, porque o tempo de que dispunham nas suas desejadas entrevistas era pouco para os interesses de seu amor e para o muito que cada um, de parte a parte, tinha para dizer ao companheiro, com respeito à felicidade de ambos.
Eram felizes. Contudo, mais de uma vez, tentou Leandro imbecilmente revoltar-se contra mim, queixando-se com amargura da suposta falsa posição que eu lhe impusera ao lado da esposa. Chamei-o à razão e ao bom desempenho de sua palavra de honra, sem lhe dar todavia segura explicação do meu modo de proceder, porque me não convinha ainda que ele alcançasse por inteiro o secreto espírito das minhas intenções. Palmira também, a princípio, não parecia muito disposta a conformar-se com o meu regime estabelecido, mas tal carinho pus no que lhe disse, e tal eloqüência emprestou a meu amor de mãe as minhas palavras, que se ela em verdade não se deu por convencida, pelo menos entregou-me os pulsos resignada.
Não me desgostava ouvir-lhe as queixas; sinal era de que amava fisicamente o marido, virtude esta que se vai fazendo rara em nossos dias.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.