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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Não admira, Tras sempre a imaginação excitada pelo vinho que lhe dá a beber Antonio Coelho, os olhos encandeados pelo ouro que lhe mostra, mas não lhe dá, Jeronimo Paes, disse Cosme Bezerra.

Tenha a senhora d. Izabel certeza de que dentro em pouco há de soar em Goiana o grito da rebelião. Quem sabe se a este momento não estão tramando nos esconderijos dos seus armazéns, Antonio Coelho com seus sequazes, a destruição de todos nós?

- Façam o que fizerem – observou a mulher do sargento-mór, Goiana não há de render-se a eles. Porque não há de render-se?

- Não sabemos todos que Goiana é invencível porque todas suas igrejas têm as frentes voltadas para dentro dela?

- É verdade – disse uma senhora, que até esse ponto assistira à conversação sem tomar parte nela.

- E d. Maria Bezerra acudiu em apoio da velha, confirmando o que dela ouvira. Abusões do povo, contestou Cosme.

- Os antigos já o diziam, replicou d. Maria e os antigos não diziam senão a verdade. Minha avó contava-me muitos casos de guerras, em que os que vinham a tomar Goiana ficavam destruídos ou presos nela, e nunca a puderam dominar. Os santos das igrejas olham pelos moradores. Vão lá contar destas historias a Antonio Coelho e a Jeronimo Paes, que hão de vê-los responder à crença do povo com risos mofadores. É porque eles são dois refinados hereges, disse a velhota. E como hereges hão de acabar. Quem for vivo há de ver. Talvez que nesta guerra mesma que eles preparam, venha o seu fim encoberto.

O crepitar das labaredas com que as fogueiras iluminavam todo o largo pátio do engenho; as detonações das armas de fogo que de todos os lados estavam indicando quanto o S. João é estimado pelo povo, fizeram enfim inclinar para a festa as atenções até então absorvidas nas tristes apreensões que o grave acontecimento suscitava.

Como se compreendessem a conveniência de auxiliar esta nova disposição dos espíritos, as escravas copeiras entraram nesse momento na sala, conduzindo bandejas com bolos e doces, de que começaram a servir-se os hospedes. Dentro em pouco a conversação, ainda presa por uma ponta à guerra, espalhava-se pela outra em vários assuntos mais próximos e positivos. Praticou-se da abundância das chuvas, e do mal que tinham feito às canas e à roça; da escassez da farinha; da carestia da fazenda.

A razão porque a farinha não aparece no mercado, observou Manoel de Lacerda, é porque os mascates se atravessam e compram por atacado a que encontram. A razão do alto preço da fazenda é porque são eles os que a vendem.

Vai por estes dias à praça o engenho de Martins por execução que lhe move o Porto, disse Felipe Cavalcanti. Por um ano que Porto levou a suprir o engenho de Martins, fez-se credor deste em avultada quantia. Absorveu-lhe três ou quatro safras, e por fim, não contente com este resultado ainda, propôs-lhe ação em juízo e o obriga agora a dar o engenho a pagamento. Entretanto, observou Cosme Bezerra, Porto está rico. O açúcar, que recebia do Martins, em pagamento, a 400 réis a arroba, remetia a seus correspondentes na Europa à razão de 1$400.

- Só por este modo poderia ele abrir os dois importantes armazéns que estabeleceu no Beco-do-pavão, observou Jorge Cavalcanti.

- E que é feito de Martins? Perguntou um.

- Está pobre, e é hoje meu lavrador, respondeu Matias Vidal.

- E não havemos de pegar em armas contra os mascates! Exclamou Cosme Bezerra.

Foi neste ponto interrompida a conversação pela entrada de Francisco e de Lourenço. Vendo-os, o sargento-mór chamou-os ao gabinete onde minutos antes se celebrara em família a grave conferencia a que assistimos.

- Aqui está o rapaz, seu sargento-mór, disse Francisco, entrando no gabinete.

Estava impaciente pela tua volta. Dize-me cá. O rapaz poderá partir para a capital, ao nascer da lua?

- Quem? Eu? perguntou Lourenço.

- Tu mesmo, Lourenço.

- Posso partir já, assim o ordene vosmecê.

- Estás pronto de tudo?

- De tudo estou, porque nada tenho que aprontar.

- Se Francisco não tivesse chegado há pouco, ele é que havia de ir. A incumbência é de gravidade.

- E que tem que eu tivesse chegado há pouco? Perguntou o matuto.

- Estás cansado. Já não és menino para resistires a duas jornadas forçadas uma atrás da outra.

(continua...)

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