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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Antes nada perguntasse!... bem quisera que Margarida se achasse a milhares de léguas. Esta informação veio ainda mais alarmar a consciência já tão aterrada do jovem sacerdote. Cheio de terrores e apreensões sinistras, estremecia só com a idéia de encontrar-se com Margarida, e implorava a Deus do fundo da alma, que lhe poupasse aquela dura provação, que lhe arredasse dos lábios aquele cálix de amargura.

Mas por fim envergonhou-se de seus próprios terrores, e procurou revestirse de coragem.

— De que estou eu a tremer? — perguntava a si mesmo. — Margarida é casada... está morta para mim, e não pode senão recordar-me um passado, que foi de paixão e fogo na verdade, mas que há muito se acha sepultado debaixo de uma lápide de gelo... E mesmo que assim não fosse, serei eu tão fraco, tão indigno e vil, que ainda consinta aninhar-se debaixo destas vestes sagradas um sentimento ímpio e profano! Não é fugindo do inimigo, mas travando com ele, que o soldado se torna digno de cingir os louros da vitória. Se por fraco e pusilânime sou incapaz de combater, deveria nunca ter deixado a sombra do lar paterno, deveria nunca ter tomado estas sagradas insígnias de soldado da Cruz! Ânimo pois... — a coragem te dará força!... estas palavras de um grande santo, que muito mais do que eu sofreu e combateu por amor de Cristo sejam o meu talismã através dos perigos e tentações do século.

Era já noite cerrada, o concurso das visitas ia se diminuindo, e na sala do padre apenas se contaria meia dúzia de pessoas. Bateram à porta; alguém procurava o Sr. padre Eugênio.

— Pode subir — disse ele cuidando ser mais alguma visita.

— É um rapazinho, que quer falar a V.Rma. — lhe disseram.

O padre levantou-se e dirigiu-se para o topo da escada.

— Que me queres, filho?

— Eu venho da parte de uma pobre mulher — respondeu o rapaz — pedir ao senhor padre pelo amor de Deus, para ir confessar uma pessoa que se acha à morte.

O padre estremeceu; um confuso e sinistro pressentimento lhe atravessou o espírito.

— Pois não há aí o senhor vigário, ou outro qualquer sacerdote, filho? eu acabo de chegar de viagem, e acho-me bastante fatigado...

— Já fui à casa do senhor vigário, e disseram-me que foi fazer um batizado fora daqui a cinco léguas, e que não volta senão depois de amanhã.

— E a pessoa para quem me chamam está em grande risco de vida?...

— Está, sim senhor, se não fosse isso, eu não viria incomodar o senhor padre...

— Nesse caso... não há remédio senão acudir-lhe... Mora muito longe a pessoa, a quem tenho de confessar?...

— Não senhor; é mesmo na povoação; o senhor padre pode ir a pé; é lá no fim da vila, mas não é muito longe.

— Visto isso, filho, espera aí um momento para ires comigo, e me guiares até lá.

O padre depois de desculpar-se para com suas visitas, informando-as do motivo urgente e indeclinável, que o obrigava a retirar-se, tomou o seu bastão e o seu chapéu triangular, desceu a escada, e saiu em companhia do rapazinho que o viera chamar.

Este o foi conduzindo silenciosamente através das ruas quase desertas até uma viela quase sem habitações na extremidade da vila. Ali parou à entrada de uma casinha.

Surgiu à porta uma velhinha, tendo na mão uma candeia de ferro, de luz frouxa e vacilante.

CAPÍTULO XXII

No quarto da enferma, apesar da sua pobre simplicidade, reinava uma ordem e asseio, que contrastava com o aspecto miserável do resto da casa. O leito bem composto era guarnecido de um transparente cortinado cor-de-rosa, e em frente dele sobre uma pequena mesa de jacarandá de pés torneados, via-se um lindo oratório dourado, diante do qual ardia uma vela de cera entre duas jarras cheias de viçosas e fragrantes flores. Parecia mais uma gruta mística e perfumada, um voluptuoso ninho de amor, do que o quarto de uma moribunda.

Margarida estava sobre a cama, meio deitada, meio assentada, com as costas apoiadas na cabeceira, os braços cruzados e a cabeça pendida sobre o peito.

À primeira vista não parecia uma pessoa que estava precisada, dos últimos socorros da religião. O rosto nada tinha de desfigurado, e estava fresco e corado, e a moça parecia estar no gozo da melhor saúde, e de todas suas forças. Examinando-a porém mais atentamente, notava-se o arquejo ansiado e violento de seu peito, o coração pulsar-lhe forte e descompassado de modo assustador, e na luz dos olhos um não sei quê de sombrio e desvairado. Via-se que aquelas duas rosas excessivamente vivas, que lhe tingiam as faces, não podiam denotar um estado normal, e eram resultado de profunda perturbação na circulação arterial.

A velha apenas introduziu o padre, retirou-se com a sua candeia.

Mal deu com os olhos na moça, o padre estacou de repente, fez um gesto de espanto, e olhando inquieto ora para a porta, ora para o leito, dava mostra de querer sair precipitadamente. Seu rosto cobriu-se de medonha palidez e suas feições se transtornaram de modo horrível.

Seu primeiro impulso foi de fugir depressa e sem dizer palavra; mas hesitou; não podia negar os auxílios de seu sagrado ministério, a quem os implorava em artigo de morte. Foi-lhe mister um esforço sobre-humano para dominar a sua perturbação.

(continua...)

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