Por Bernardo Guimarães (1872)
- Pobre Lúcia! quanto és boa. . . quanto és adorável e sublime! se antes eu te amava, de hoje em diante eu te admiro, eu te adoro, e não me julgo digno do amor de uma criatura tão superior, de um anjo, de que o mundo não é digno.
-se não te julgasse digno, eu nunca te amaria, e não teria passado por tantas aflições e angústias só por amor de ti. Mas, hoje sou feliz. Deus teve piedade de mim, arredou de meu caminho aquele maldito homem, e restituiu-me o meu
Elias. . .
- Oh! aquele homem parecia enviado ao mundo por Satanás para perturbar a nossa felicidade! Tudo que podia fazer meu prazer, minha glória neste mundo, ele pretendia arrancar-me; parece que o perseguia uma inveja feroz de tudo quanto era meu; queria para si o dinheiro de minha bolsa, o amor de meu coração, o ar de meus pulmões, o sangue de minhas veias. Mas o monstro apenas conseguiu roubar-me o fruto do meu suor, essa pequena fortuna que eu tinha adquirido. . . mas que importa isso, Lúcia! . . . Deus ainda me conserva a mesma inteligência, a mesma atividade e disposição, e eu saberei adquirir outra. . .
-mas por piedade! . . . eu te peço, não me abandones mais; não vás mais procurar fortuna lá tão longe. Não quero mais que saias de perto de mim. . .
-mas, Lúcia, eu sou pobre. . . tu também estás tão pobre como eu. Hoje há um motivo ainda mais forte para que eu empregue todos os esforços para adquirir alguma coisa; e se por aqui não for possível, devo. . .
- Deves amar-me, a mim só, e a mais ninguém. Somos ambos pobres; o destino nivelou nossas condições; e agora não há mais embaraço algum para nossa união! . . .
-mas a pobreza, Lúcia. . . por mim só eu a suportaria como tenho suportado, de coração alegre; mas doer-me- ia horrivelmente ver-te em minha companhia sofrendo as inclemências e privações da indigência sem poder erguer-te a uma condição mais feliz.
- Porventura já não sou tão pobre, Elias? e deixarei de sê-lo, se me abandonares? . . . então antes queres me ver sofrendo sozinha os rigores da pobreza, do que em tua companhia!
-mas olha, Lúcia; tu és muito moça, formosa e bem educada. . . não te faltarão maridos que, mais felizes do que eu, possam dar-te no mundo a posição de que és tão digna. . .
- Cala-te! . . . não digas mais tal blasfêmia, eu te peço pelo nosso amor. Antes miserável contigo do que milionária com um Leonel, ou com quem quer que seja. Mas tu não irás mais para longe; fica por aqui mesmo na nossa terra; eu te peço pelo nosso amor, por tudo quanto mais queres neste mundo ou no outro. . . pela alma de teu pai e de tua mãe. . . em toda a parte se ganha com que passar a vida, e que necessidade temos nós de riquezas; o nosso amor será a nossa riqueza, e porventura não basta ele para nos tornar felizes?
- Sossega, minha querida Lúcia; não irei longe. O teu amor, assim como me enche o coração de felicidade, dá-me também toda a coragem e toda a confiança no futuro. É impossível que Deus não abençoe o trabalho de quem se esforça para amparar e fazer a felicidade de um anjo, como tu és. Mas olha, Lúcia, não quero, não devo pedir-te a teu orgulhoso pai, enquanto desta destra que vou oferecer-te, não puder escorregar um pouco de ouro.
- Ah. . . mas se isso não for possível, me abandonarás? . . .
- Nunca, minha Lúcia, nunca! serei teu, sempre teu.
- Basta! . . . adeus! já estamos aqui há muito tempo; alguém pode nos ver. . .
- Um instante ainda: escuta, Lúcia. Da minha malfadada fortuna do Sincorá restam-me ainda alguns destroços. Vou pó-los em jogo. Não sairei destes arredores. Saberás notícias minhas, e eu virei ver-te todas as vezes que puder; não sei que pressentimento me diz que seremos felizes, muito felizes. Adeus.
- Adeus. . . não te esqueças de mim e não me fujas mais.
- Não; nunca mais: eu te juro. . . por este beijo. . . mais este. . . e mais ainda. Adeus!
E dizendo isto Elias cingiu a moça a seu peito, e lhe deu um beijo em cada uma das faces e o último na boca. Era a primeira vez que tal ousava.
XV – ABNEGAÇÃO
O garimpeiro é como o jogador; sua esperança está sempre no seio da grupiara, como a do jogador nas cartas do baralho, nos dados ou no tabuleiro verde do bilhar; isto é, sua felicidade dorme na urna do acaso, de onde as mais das vezes nunca sai. Por mais que sejam os reveses com que a fortuna os maltrate, por mais que repila e os calque aos pés, esses cegos e pertinazes amantes estão sempre de rojo a mendigar favores aos pés daquela cruel e caprichosa amásia.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.