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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Em todo o tempo que D. Duarte governou o Brasil, foi todos os anos favorecido e ajudado com armadas que do reino lhe mandavam, e em que lhe foram muitos moradores e gente forçada com todo o necessário, ao qual sucedeu Mem de Sá, em cujos feitos já tocamos, o qual foi também governar este Estado por mandado del-rei D. João o III, a quem a fortuna favoreceu de feição em catorze anos, que foi governador do Brasil, que subjugou e desbaratou todo o gentio tupinambá da comarca da Bahia e a todo o mais até o Rio de Janeiro, de cujos feitos se pode fazer um notável tratado; o qual Mem de Sá foi pouco favorecido destes reinos, por lhe falecer logo el-rei D. João, que com tanto fervor trabalhava por acrescentar e engrandecer este seu Estado, a quem a rainha D. Catarina, no tempo que governou nestes reinos, foi imitando; mas como ela desistiu da governança dêles, foram esfriando os favores e socorros que cada ano esta nova cidade recebia, para a qual não mandaram dali por diante mais que um galeão da armada, em que iam os governadores que depois a foram governar, pelo que este Estado tornou atrás de como ia florescendo. E se esta cidade do Salvador cresceu em gente, edifícios e fazenda como agora tem, nasceu-lhe da grande fertilidade da terra, que ajudou aos moradores dela, de maneira que hoje tem no seu termo, da Bahia para dentro, quarenta engenhos de açúcar, mui prósperos edifícios, escravaria e outra muita fábrica, dos quais houvera muitos mais, se os moradores foram favorecidos como convinha, e como eles estão merecendo por seus serviços, com os quais o governador Mem de Sá destruiu e desbaratou o gentio que vivia de redor da Bahia, a quem queimou e assolou mais de trinta aldeias, e os que escaparam de mortos ou cativos, fugiram para o sertão e se afastaram do mar mais de quarenta léguas, e com os mesmos moradores socorreu e ajudou o dito Mem de Sá as capitanias dos Ilhéus, Porto Seguro e a do Espírito Santo, as quais estavam mui apartadas do gentio daquelas partes, e com eles foi lançar por duas vezes os franceses fora do Rio de Janeiro, e a povoá-lo, onde acabaram muitos destes moradores sem até hoje ser dada nenhuma satisfação a seus filhos. E todos foram fazer estes e outros muitos serviços à custa, sem darem soldo nem mantimentos, como se costuma na Índia e nas outras partes, e a troco desses serviços e despesas dos moradores desta cidade não se fez até hoje nenhuma honra nem mercê a nenhum dêles, do que vivem mui escandalizados e descontentes.

C A P Í T U L O VI

Em que se declara o clima da Bahia, como cruzam os ventos na sua costa c correm as águas.

A Bahia de Todos os Santos está arrumada em treze graus e um terço, como fica dito atrás; onde os dias em todo o ano são quase iguais com as noites e a diferença que têm os dias de verão aos do inverno é uma hora até hora e meia. E começa-se o inverno desta província no mês de abril, e acaba-se por todo o julho, em o qual tempo não faz frio que obrigue aos homens se chegarem ao fogo, senão ao gentio, porque andam despidos. Em todo este tempo do inverno correm as águas ao longo da costa a cem léguas ao mar dela, das partes do sul para os rumos do norte, por quatro e cinco meses, e às vezes cursam os ventos do sul, sudoeste e lés-sueste, que há travessia na costa de Pôrto Seguro até o cabo Santo Agostinho.

Começa-se o verão em agosto como em Portugal em março, e dura até todo o mês de março, no qual tempo reinam os ventos nordestes e lés-nordestes e correm as águas na costa ao som dos ventos da parte do norte para o sul, pela qual razão se não navega ao longo desta costa senão com as monções ordinárias. Em todo o tempo do ano, quando chove, fazem os céus da Bahia as mais formosas mostras de nuvens de mil cores e grande resplendor, que se nunca viram noutra parte, o que causa grande admiração. E há-se de notar que nesta comarca da Bahia, em rompendo a luz da manhã, nasce com ela juntamente o sol, assim no inverno como no verão. E em se recolhendo o sol à tarde, escurece juntamente o dia e cerra-se a noite; a que matemáticos dêem razões suficientes que satisfaçam a quem quiser saber este segredo, porque os mareantes e filósofos que a esta terra foram, nem outros homens de bom juízo não têm atinado até agora com a causa porque isso assim seja.

C A P Í T U L O VII

Em que se declara o sítio da cidade do Salvador.

(continua...)

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