Por Eça de Queirós (1887)
Era um tronco grosso, curto, atochado e sem nós de raízes, semelhante a uma enorme moca bruscamente cravada na areia; a casca corredia tinha o lustre oleoso de uma pele negra; e da sua cabeça entumecida, de um tom de tição apagado, rompiam, como longas pernas de aranha, oito galhos que contei, pretos, moles, lanugentos, viscosos, e armados de espinhos... Depois de olhar em silêncio para aquele monstro, tirei devagar o meu capacete e murmurei:
- Para que viva!
E que me encontrava certamente diante de uma árvore ilustre! Fora um galho igual (o nono talvez) que, arranjado outrora em forma de coroa por um centurião romano da guarnição de Jerusalém, ornara sarcasticamente, no dia do suplício, a cabeça de um carpinteiro de Galiléia, condenado... Sim, condenado por andar, entre quietas aldeias e nos santos pátios do templo, dizendo-se filho de Davi e dizendo-se filho de Deus, a pregar contra a velha religião, contra as velhas instituições, contra a velha ordem, contra as velhas formas! E eis que esse galho, por ter tocado os cabelos incultos do rebelde, torna-se divino, sobe aos altares, e do alto enfeitado dos andores faz prostrar no lajedo, à sua passagem, as multidões enternecidas...
No colégio dos Isidoros, às terças e sábados, o sebento Padre Soares dizia esfuracando os dentes - "que havia, meninos, lá num sitio da Judéia..." Era ali! "...uma árvore que segundo dizem os autores é mesmo de arrepiar..." Era aquela! Eu tinha, ante meus frívolos olhos de bacharel, a sacratíssima árvore de espinhos!
E logo uma idéia sulcou-me o espírito, com um brilho de visitação celeste... Levar à Titi um desses galhos, o mais penugento, o mais espinhoso, como sendo a relíquia fecunda em milagres, a que ela poderia consagrar seus ardores de devota e confiadamente pedir as mercês celestiais! "Se entendes que mereço alguma cousa pelo que tenho feito por ti, traze-me então desses santos lugares uma santa relíquia..." Assim dissera a senhora D. Patrocínio das Neves na véspera da minha jornada piedosa, entronada nos seus damascos vermelhos, diante da magistratura e da igreja, deixando escapar uma baga de pranto sob seus óculos austeros. Que lhe podia eu oferecer mais sagrado, mais enternecedor, mais eficaz, que um ramo da árvore de espinhos, colhido no vale do Jordão, numa clara, rosada manhã de missa?
Mas de repente assaltou-me uma áspera inquietação... E se realmente uma virtude transcendente circulasse nas fibras daquele tronco? E se a Titi começasse a melhorar do fígado, a reverdecer, mal eu instalasse no seu oratório, entre lumes e flores, um desses galhos eriçados de espinhos? ó misérrimo logro! Era eu pois que lhe levava nesciamente o princípio milagroso da saúde, e a tornava rija, indestrutível, ininterrável, com os contos de G. Godinho firmes na mão avara! Eu! Eu que só começaria a viver, quando ela começasse a morrer!
Rondando então em torno à árvore de espinhos, interroguei-a, sombrio e rouco: "Anda, monstro, dize! És tu uma relíquia divina com poderes sobrenaturais? Ou és apenas um arbusto grutesco com um nome latino nas classificações de Lineu? Fala! Tens tu, como aquele cuja cabeça coroaste por escárnio, o dom de sarar? Vê lá... Se te levo comigo para um lindo oratório português, livrando-te do tormento da solidão e das melancolias da obscuridade, e dando-te lá os regalos de um altar, o incenso vivo das rosas, a chama louvadora das velas, o respeito das mãos postas, todas as carícias da oração, não é para que tu, prolongando indulgentemente uma existência estorvadora, me prives da rápida herança e dos gozos a que a minha carne moça tem direito! Vê lá! Se, por teres atravessado o Evangelho, te embebeste de idéias pueris de caridade e misericórdia, vais com tenção de curar a Titi, então fica-te aí, entre essas penedias, fustigado pelo pó do deserto, recebendo o excremento das aves de rapina, enfastiado no silêncio eterno!... Mas se prometes permanecer surdo às preces da Titi, comportar-te como um pobre galho seco e sem influência, e não interromperes a apetecida decomposição dos seus tecidos, então vais ter em Lisboa o macio agasalho de uma capela afofada de damascos, o calor dos beijos devotos, todas as satisfações de um ídolo, e eu hei de cercar-te de tanta adoração que não hás de invejar o deus que os teus espinhos feriram... Fala, monstro."
O monstro não falou. Mas logo senti perpassar-me na alma, aquietadoramente, com uma consolante fresquidão de brisa de estio, o pressentimento de que breve a Titi ia morrer e apodrecer na sua cova. A árvore de espinhos mandava, pela comunicação esparsa da natureza, da sua seiva ao meu sangue, aquele palpite suave da morte da senhora D. Patrocínio, como uma promessa suficiente de que, transportado para o oratório, nenhum dos seus galhos impediria que o fígado dessa hedionda senhora inchasse e se desfizesse... E isto foi, entre nós, nesse ermo, como um pacto taciturno, profundo e mortal.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Relíquia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19199 . Acesso em: 29 jun. 2026.