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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

O desespero do governo e da maioria teve um raro carácter de alucinação. Alípio Abranhos passou a ser o infame, o canalha. Nessa mesma noite toda a sua vida foi explorada, rebuscada como uma velha algibeira, na esperança de se encontrar algum escândalo esquecido. Disse-se que fora o amante da velha Madame Gato, que tinha um prostíbulo no Arco do Bandeira; espalhou-se que era filho de um sapateiro de Penafiel, muitas vezes condenado por ladrão; afirmou-se que vivia em desavenças contínuas com sua mulher e que os vizinhos ouviam de noite os gritos das lutas conjugais; contou-se que o velho Dr. Vaz Correia lhe dera pontapés no escritório, por o ter encontrado a falsificar um documento; murmurou-se que era dado em Coimbra a deboches contra a natureza.

Dos artigos dos jornais nem falarei, para não concorrer a desacreditar mais ainda, perante o público, uma instituição a que implicitamente pertenço.

Sentia-se que a sessão seguinte seria, na frase consagrada, «tempestuosa». Com efeito, as galerias trasbordavam de gente: todos os amigos que outrora pertenciam às soirées do Desembargador Amado, e que, agora, começavam a frequentar a casa dos Abranhos, lá estavam. Esperava-se que em presença das recriminações, que não podiam deixar de se produzir da parte da maioria indignada, Alípio Abranhos pronunciaria outro discurso, no qual o orador se mostrasse, na frase que ouvi a não sei que personagem: «Demóstenes multiplicado por três!»

Lá estava o coronel Serrão, que idolatrava Alípio, descarregando olhadelas ferozes como cutiladas sobre os «cachorros da maioria!» Lá estava o Conselheiro Andrade, que acompanhava D. Virgínia e a bela Fradinho; lá estava o sobrinho da pobre D. Joana Carneiro, em bicos de pés, na última bancada, e à frente, mais sombrio, mais meditativo, o Doutor.

Antes da ordem do dia, um deputado de estatura hercúlea e de voz de roncão, pediu a palavra. Era o famoso Gorjão, e a sua presença na tribuna, onde ele subiu, se plantou, fazendo reluzir sob as sobrancelhas espessas um olhar coruscante, revelou suficientemente o plano infame da maioria. Eu classifico este plano com uma palavra: tentativa de assassinato.

O famoso Gorjão representava no partido dos Rei armadores, a que ele de resto sempre pertenceu, o papel que desempenhava nas redacções dos jornais parisienses da Restauração o espadachim, tão poderosamente descrito por Balzac. O espadachim era ordinariamente um antigo oficial da Guarda Imperial, que a Restauração reformara, e que, levado à miséria pelo absinto, o tabaco e as fêmeas, alugava a força do seu pulso e a sua destreza à espada a algum jornal de combate. De olho avinhado, voz catarrosa, bigode erriçado, grande casaco debruado de astracã abotoado até ao pescoço, cabelo à escovinha, chapéu ao lado, este personagem temeroso passava o seu dia na antessala de uma redacção, queimando o cachimbo de espuma, repastando-se nos jornais de histórias de crimes e de roubos, e esperando que pessoas ofendidas subissem as escadas, a pedir a explicação de um artigo muito insultante ou de uma calúnia muito directa. E se algum desgraçado aparecia, o feroz indivíduo erguia a sua enorme estatura, escarrava grosso no chão, e perguntava com voz agressiva e o olho raiado de sangue:

– As suas armas? Os seus padrinhos? As ordens!

E, ou o ofendido recuava diante da medonha aparição deste cão de fila – ou, ao outro dia, recebia, através de uma entranha essencial, a lâmina infalível da sua espada.

Gorjão era, entre os Reformadores, o espadachim do partido. Ele foi, durante vinte anos, neste país, o papão! A sua barba negra era feroz, e quando descia o Chiado com o chapéu sobre o olho, fazendo sibilar a bengala, um terror invencível contraía o coração dos cidadãos... A sua biografia, desde Coimbra, era uma lenda pavorosa de cabeças partidas, queixos esmigalhados, tremendos heroísmos de pulso. Quando entrava num café, toda a gente se curvava palidamente sobre o periódico ou o copo de genebra, evitando ser notado por ele – pois se dizia que o seu olhar era imediatamente seguido do seu murro. O Marrare, então florescente, era o antro desta fera. Quando ele morreu de um catarro de bexiga, Lisboa sentiu um alívio suave e as costas dos cidadãos endireitaram-se, porque já não as ameaçava de alto a bengala do Gorjão.

A intenção perversa da maioria era, pois, clara: Gorjão, da tribuna, injuriava Alípio; Alípio, bravo, retorquia com irritação; e Gorjão, nos corredores, esmagava Alípio a murros, ou, ao outro dia, nas terras da Pólvora, varava-o com uma espadeirada!

Parece hoje provado que tal plano fora resolvido numa reunião da maioria: vergonha eterna! Não procederia de outro modo uma conjuração de zulos, agachados ferozmente entre o alto tojo africano, no Kraal de Cettivayo! Este grosso brutamontes entrara para S. Bento para assassinar a Eloquência, o Patriotismo e o Génio, na pessoa de Alípio Abranhos!

Ainda bem que te matou, fera, um providencial catarro de bexiga: a tua bengala não mais oprime os homens livres, e eu posso impunemente, e com regozijo, escarrar-te sobre a sepultura – já que o haver-te escarrado na face ter-me-ia sido impossível, por ser, como sou, de constituição delicada!

(continua...)

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