Por Eça de Queirós (1878)
Ele teve um sorriso infeliz. - Cear! Se se podia chamar cear ir ao Grêmio rilhar um bife córneo e tragar um Colares peçonhento!
E fitando-a:
- Por tua causa, ingrata!
- Por sua causa?
- Por quem, então? Por que vim eu a Lisboa? Por que deixei Paris?
- Por causa dos teus negócios...
Ele encarou-a severamente:
- Obrigado - disse, curvando-se até ao chão.
E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu charuto.
Veio sentar-se bruscamente ao pé dela. - Não, realmente era injusta. Se em Lisboa, era por ela. Só por ela!
Fez uma voz meiga; perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho de amor muito pequenino, assim... - Mostrava o comprimento da unha.
Riram.
- Assim, talvez.
E o peito de Luísa arfava.
Ele então examinou-lhe as unhas; admirou-lhas e aconselhou-lhe o verniz que usam as cocotes, que lhes dá um lustre polido; ia-se apossando da sua mão, pôs-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou o dedo mínimo, jurou que era muito doce; arranjou-lhe com um contato muito tímido uns fios de cabelos que se tinham soltado - e, disse, tinha um pedido a fazer-lhe!
Olhava-a com uma suplicação.
- Que é?
- É que venhas comigo ao campo. Deve estar lindo no campo!
Ela não respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas moles do roupão.
- É muito simples - acrescentou ele. - Tu vais-me encontrar a qualquer parte, longe daqui, estáclaro. Eu estou à espera de ti com uma carruagem, tu saltas para dentro e fouette, cocher!
Luísa hesitava.
- Não digas que não.
- Mas onde?
- Onde tu quiseres. A Paço de Arcos, a Loures, a Queluz. Dize que sim.A sua voz era muito urgente; quase ajoelhara.
- Que tem? É um passeio de amigos, de irmãos.
- Não! Isso não!
Basílio zangou-se, chamou-lhe beata. Quis sair. Ela veio tirar-lhe o chapéu da mão, muito meiga, quase vencida.
- Talvez, veremos - dizia.
- Dize que sim! - insistia. - Sê boa rapariga!
- Pois sim, amanhã veremos; amanhã falaremos.
Mas no dia seguinte, muito habilmente, Basílio não falou no passeio, nem no campo. Não falou também do seu amor, nem dos seus desejos. Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de Belot, À Mulher de Fogo. E sentando-se ao piano, disse-lhe canções de café-concerto, muito picantes; imitava a rouquidão acre e canalha das cantoras; fê-la rir.
Depois falou muito de Paris; contou-lhe a moderna crônica amorosa, anedotas, paixões chiques. Tudo se passava com duquesas, princesas, de um modo dramático e sensibilizador, às vezes jovial, sempre cheio de delícias. E, de todas as mulheres de que falava, dizia recostando-se: era uma mulher distintíssima; tinha naturalmente o seu amante...
O adultério aparecia assim um dever aristocrático. De resto a virtude parecia ser, pelo que ele contava, o defeito de um espírito pequeno, ou a ocupação reles de um temperamento burguês...
E quando saiu, disse, como recordando-se:
- Sabes que estou com minhas idéias de partir?...
Ela perguntou, um pouco descorada:
- Por quê?
Basílio disse, muito indiferente:
- Que diabo faço eu aqui?... Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e comodominando-se:
- Adeus, meu amor...
E saiu.
Quando nessa tarde Luísa entrou na sala de jantar, levava os olhos vermelhos.
Foi ela no dia seguinte que falou do campo. Queixou-se do continuo calor, da seca de Lisboa. Como devia estar lindo em Sintra!
- És tu que não queres - acudiu ele. - Podíamos fazer um passeio adorável.
Mas tinha medo, podiam ver...
- O quê! Num cupê fechado? Com os estores descidos?
Mas então era pior que estar numa sala; era abafar numa boceta! Mas não! Iam a uma quinta. Podiam ir às Alegrias, à quinta de um amigo que estava em Londres. Só viviam lá os caseiros; era ao pé dos Olivais; era lindo! Belas ruas de loureiros, sombras adoráveis. Podiam levar gelo, champanhe...
- Vem! - disse bruscamente, tomando-lhe as mãos.
Ela corou. - Talvez. No domingo veria.
Basílio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se, umedeceram-se. Ela sentiu-se muito perturbada: desprendeu as mãos; foi abrir as vidraças ambas, dar à sala uma claridade larga como uma publicidade; sentou-se numa cadeira ao pé do piano, receando a penumbra, o sofá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse alguma coisa, porque já temia as palavras, tanto como os silêncios! Basílio cantou a Medjé, a melodia de Gounod, tão sensual e perturbadora. Aquelas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos de uma noite elétrica. E quando Basílio saiu, ficou sentada, quebrada, como depois de um excesso.
Sebastião tinha estado nos últimos três dias em Almada, na Quinta do onde trazia obras.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.