Por Eça de Queirós (1870)
Notei ao entrar no iate que a equipagem estava aumentada e havia um piloto árabe. Largámos com um vento fresco, às oito horas da manhã; as gaivotas voavam em roda das velas, as casas brancas de La Vale ta tinham uma cor rosada, ouviam-se as músicasmilitares, o céu estava de uma pureza encantadora.
A condessa, um pouco excitada, olhava com uma alegria ávida, para o vasto mar azul, livre, infinito, coberto de luz.- O que são as mulheres! — pensava eu. — Esta, tão altiva e tão discreta, está encantada por se ver só, com rapazes, num iate, no alto mar. É para ela quase uma aventura!Eu, confesso, estava embaraçado. A minha situação era um pouco pedante. Representar eu ali o marido, a família, o dever, diante de duas criaturas moças, belas, namoradas, e ser eu, aos vinte e quatro anos, ardente e apaixonado, o encarregado de fazer apolícia daquele romance simpático!
À la grace de Dieu! O mar é largo, o céu profundo, a honra existe, daqui a duas horas estamos em Gozzo, passeámos, rimos, jantámos, e aoanoitecer, quando Deus espalhara seu rebanho de estrelas, voltaremos na viração e na fosforescência, calados, ouvindo o piloto árabe cantar as doces melopeias da Síria, ao ruído lânguido da maresia...Rytmel tinha descido a dar as ordens para o almoço, A condes sa ficara de pé, à proa, com um vestido curto de xadrez, botinas al tas, envolta numa manta escocesa, de largaspregas. Nunca eu a vira tão linda.
Costeávamos Malta com vento oeste. Aproximámo-nos da ilha de Cumino. Rytmel veio-nos dizer que deveríamos almoçar,e que ao fim de meia hora desembarcá vamos em Gozzo, na Calle Maggiara; iríamos ver as curiosidades da ilha, tomaríamos a embarcar para tornear Gozzo, e ver as terrí veis cavernas, onde o mar se abisma e se perde, e ao anoitecer to caríamos o cais de La Valeta.O almoço foi muito alegre. Havia champanhe, um rena ado rável, um guisado árabe e um piano na câmara. Captain Rytmel, cujo aspecto me parecia ter uma preocupaçãoinexplicável, fez ao piano depois do almoço intermináveis improvisações. Caminháva mos sempre. Casualmente, tirei o relógio, e tive um sobressalto! Havia duas horas e meia que tínhamos descido! Ora quando o almoço começara, faltava-nos meia hora para desembarcarem Maggiara! Porque seguíamos então? Subi rapidamente à tolda. O piloto árabe estava ao leme. Não se via quase a terra; íamos no mar alto, navegando com uma extraordináriavelocidade sob o vento.
— Onde está Gozzo? — gritei ao árabe em inglês, depois em francês, depois em italiano. O árabe nem sequer se dignou olhar-me. Neste momento Rytmel e a condessa subiam.- Onde está Gozzo? — perguntei eu a Rytmel.
— Há talvez uma bruma — respondeu ele vagamente e voltan do o rosto.O horizonte, porém, estava limpo, puro, sem mistério, a perder de vista. Ao longe viase uma sombra indefinida que denunciava 1 a terra; e nós afastávamo-nos dela!
Corri à bússola. Navegávamos para oeste.- Navegamos para oeste, Captain Rytmel! Afastamo-nos de Malta! Que é isto? Para onde vamos?Rytmel olhou longamente a condessa, depois a mim e disse:
— Vamos para Alexandria. Num relance compreendi tudo. Rytmel fugia com a condessa!...Eu fitei Rytmel, e disse-lhe tremendo todo:
— Isso é uma infâmia!Ele empalideceu terrivelmente: mas a condessa, interpondo — se, com uma voz vibrante: — Não! Sou eu! Sou eu que vou para Alexandria.
— Nesse caso sou eu o infame, prima. Houve um silêncio. Os olhos da condessa estavam húmidos. Correu para mim, tomoume uma das mãos, murmurou entre so luços:- Que quer? Ninguém tem culpa. Amo este homem, fujo com ele.
Rytmel tomara-me a outra mão. — Agora — dizia — é impossível voltar. É um passo dado, ir reparável.Eu estava sucumbido: aquela situação imprevista deixava-me sem raciocínio, sem voz, sem vontade.Eu, amigo do conde!... Eu, cúmplice daquela fuga! Além disso, ali, no meio daqueles dois amantes encantadores, que me suplica vam apertando-me as mãos, eu sentiame ridículo — e isto aumentava o meu desespero. A condessa, no entanto, continuava:- Primo — disse ela — que importa? Estou desonrada, bem. sei. Mas que queria? Que eu ficasse ao lado de meu marido, aman do este, numa mentira perpétua, vivendo alegrementeinstalada na infâmia? Essa situação nunca! É suja! Ao menos isto é franco.
Rompo com o mundo, sou uma aventureira, fico sendo uma mulher perdida, mas conservo-me para um só e sendo pura para ele.- Captain Rytmel -disse eu -, então mande deitar uma lancha ao mar.
— Que quer fazer? — gritou a condessa.- Eu? Ganhar a terra. Acha que também não é uma infâmia instalar-me neste navio? — Está louco — disse Rytmel. — Há só um escaler a bordo. O vento cresce, o mar incha. O escaler não se aguentará dez minutos.- Melhor! Um escaler ao mar! — gritei eu.
— Ninguém se mexa! — bradou Rytmel. E voltando-se para a condessa:- Mas diga-lhe que é a morte! Que cumplicidade tem ele? Foi forçado, foi levado. Não responde por nada.- Um escaler ao mar! — gritava eu.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.