Por Eça de Queirós (1901)
Acenamos um longo adeus àquele alegre Marizac. E recolhemos sem que Jacinto emergisse do silêncio enrugado em que se abismara, com os braços rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e forte. Depois, em frente ao Arco do Triunfo, moveu a cabeça, murmurou: -É muito grave deixar a Europa!
Enfim, partimos! Sob a doçura do crepúsculo que se enublara, deixamos o 202. O Grilo e o Anatole seguiam num fiacre atulhado de livros, de estojos, de paletós, de impermeáveis, de travesseiras, de águas minerais, de sacos de couro, de rolos de mantas; e mais atrás um ônibus rangia sob a carga de vinte e três rolos de mantas; e mais atrás um ônibus rangia sob a carga de vinte e três malas. Na Estação, Jacinto ainda comprou todos os Jornais, todas as Ilustrações, Horários, mais livros, e um saca-rolhas de forma complicada e hostil. Guiados pelo Chefe do Tráfico, pelo Secretário da Companhia, ocupamos copiosamente o nosso salão. Eu pus o meu boné de seda, calcei as minhas chinelas. Um silvo varou a noite. Paris lampejou, fulgiu num derradeiro clarão de janelas... Para o sorver, Jacinto ainda se arremessou à portinhola. Mas rolávamos já na treva da Província. O meu Príncipe então recaiu nas almofadas:
-Que aventura, Zé Fernandes!
Até Chartres, em silêncio. Folheamos as Ilustrações. Em Orleães, o guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com aqueles catorze meses de Civilização, adormeci – e só acordei em Bordéus quando Grilo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fora, uma chuva miudinha pingava molemente dum espesso céu de algodão sujo. Jacinto não se deitara, desconfiado da aspereza e da umidade dos lençóis. E, metido num roupão de flanela branco, com a face arrepiada e estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente: -Este horror!... E agora com chuva!
Em Biarriz.
Depois Jacinto, que espreitava pela janela embaciada, reconheceu o lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon. Era ele, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado duma dama roliça que levava pela trela uma cadelinha felpuda. Jacinto baixou a vidraça violentamente, berrou pelo Historiador, na ânsia de comunicar ainda, através dele, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio mergulhara na chuva e névoa.
Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida fácil, os abrolhos da Incivilização, Jacinto suspirou com desalento:
-Agora adeus, começa a Espanha!...
Indignado, eu, que já saboreava o generoso ar da terra bendita, saltei para diante do meu Príncipe, e num saracoteio de tremendo salero, castanholando os dedos, entoei uma “petenera” condigna:
A la puerta de mi casa
Ay Soledad, Soleda...á...á...á.
Ele estendeu os braços, suplicante:
-Zé Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!
-Irun! Irun!...
Nessa Irun almoçamos com suculência – porque sobre nós velava, como deus onipresente, a Companhia do Norte. Depois “el jefe d’Aduana, el jefe d’Estación”, preciosamente nos instalaram noutro salão, novo, com cetins cor de azeitona, mas tão pequeno que uma rica porção dos nossos confortos em mantas, livros, sacos e impermeáveis, passou para o compartimento do Sleeping onde se repoltreavam o Grilo e o Anatole, ambos de bonés escoceses, e fumando gordos charutos – Buen viage! Gracias! Servidores! – e entramos silvando nos Pireneus.
Sob a influência da chuva embaciadora, daquelas serras sempre iguais, que se densenrolavam, arrepiadas, diluídas na névoa, resvalei a uma sonolência doce; - e, quando descerrava as pálpebras, encontrava Jacinto a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que cruzara os magros dedos, considerando vales e montes com a melancolia de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que, arremessando o livro, enterrando mais o chapéu mole, se ergueu com tanta decisão, que receei detivesse o comboio para saltar à estrada, correr através das Vascongadas e da Navarra, para trás, para o 202! Sacudi o meu torpor, exclamei: - “ó menino!...” Não! O pobre amigo ia apenas continuar o seu tédio para outro canto, enterrado noutra almofada, com outro livro fechado. E à maneira que a escuridão da tarde crescia, e com ela a borrasca de vento e água, uma inquietação mais aterrada se apoderava do meu Príncipe, assim desgarrado da Civilização, arrastado para a Natureza que já o cercava de brutalidade agreste. Não cessou então de me interrogar sobre Tormes:
-As noites são horríveis, hem, Zé Fernandes? Tudo negro, enorme solidão... E o médico?... Há médico?
Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as vidraças. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um grande vento solto. A máquina apitava, com angústia. Uma lanterna lampejou, correndo. Jacinto batia o pé: - É medonho! É medonho!...” Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraças surdiam cabeças esticadas, assustadas. – “Que hay? Que hay?” – A uma rajada, que me alagou, recuei:- e esperamos durante lentos, calados minutos, esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a escuridão. De repente o comboio recomeçou a rolar, muito sereno.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.