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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

E Evaristo, indignado, pôs-se a andar de um lado para o outro da sala, com o panfleto abolicionista na mão. Ultimamente encasquetara-se-lhe, como uma idéia fixa, o programa republicano: abolir a escravidão e declarar a república brasileira, o governo do povo pelo povo... Um dos membros do partido já o convidara para sócio e ele se comprometera a tomar parte ativa nas reuniões do clube. Daí a sua indignação contra o Valdevino que também apregoava entusiasmo pelas idéias liberais de Saldanha Marinho e de Quintino Bocaiúva. Não lhe saía da cabeça o poeta da Ode à Monarquia! Como é que um homem tão depressa abjura das suas crenças? Como é que se explicava essa pouca-vergonha de um escritor público? Sentou-se, afinal, e continuou a interrompida leitura do panfleto. Daí a pouquinho vieram avisar que a sopa estava na mesa.

CAPÍTULO VII

Não obstante o insucesso da primeira tentativa, Luís Furtado não renunciou aos seus projetos de conquistar o coração de Adelaide, ''aquele coração misterioso e duro como uma esfinge de bronze..." Nada de precipitar os acontecimentos, nada de escândalos! A vida é uma eterna luta: ele lutaria... Resistir às tentações do homem quase que é um dever de toda a mulher. A sociedade aí está de olho aberto para, de chofre, cair, como um raio, sobre os visionários do amor, os que transgridem as leis da Moral com prejuízo de terceiro... E a mulher, a pobre mulher é quase sempre a vítima indefesa — o cordeiro imolado em sacrifício do homem. Resistir, todas resistem; poucas, no entanto, levam a resistência ao fim.

Adelaide era o que se pode chamar uma esposa meiga e boa, tinha todos os predicados de uma senhora honesta... Mas Luís Furtado queria-a justamente por isso, pelas suas excelentes qualidades de burguesinha não corrompida, que idolatra o marido, que não vai a bailes, que fecha os olhos à vida mundana e que se faz respeitar em casa ou nos lugares públicos. O orgulho é tanto maior quanto mais difícil é a vitória, nos combates do Amor. — Oh, ele o sabia muito bem, muitíssimo bem... O caso de Adelaide era, além de tudo, um caso excepcional, uma tentação de nova espécie, e para os casos novos a prudência aconselhava toda a diplomacia, toda a sutileza... A primeira vez - nada! A segunda vez - nada! Mas a terceira vez... quem sabe?...

Estas considerações, fazia-as ele à noite, ao lado da esposa, ou no seu gabinete do rés-do-chão, quando estava só, ou nas horas do trabalho, no Banco, a dois passos do Evaristo, onde quer que estivesse, mesmo na rua. E concluía sempre de bom humor, um trecho de ópera a escapulir-lhe dentre os lábios como uma canção de triunfo: Trá-lá-lá... trá-lá-lá... trá-lá-lá!...

Ia tudo em casa às mil maravilhas, tudo inclusive o canário belga que ele tinha pendurado numa gaiola, na sala de jantar. Depois de Adelaide era a sua preocupação o canário belga; esquecia-se, a ouvi-lo cantar, pela manhã, antes do almoço, enquanto lia os jornais. D. Branca, o Raul e a Julinha não lhe davam grandes cuidados. A mulher encarregava-se dos pequenos. O Raul, esse vivia no colégio.

Quanto aos do segundo andar, os Holanda, a mesma amizade fraternal, as mesmas relações. Branca e Adelaide entendiam-se.

Evaristo é que não dispensava agora uma sortida à noite. Acabava de jantar, envergava o paletó, punha o chapéu e adeusinho, té logo... — ia assistir às sessões noturnas do Clube Republicano de Botafogo.

Adelaide habituou-se àquilo, e para não ficar sozinha no segundo andar, vinha distrair-se embaixo, na companhia de D. Branca e de Furtado até que o marido chegasse do clube, ordinariamente às onze horas, quando já não havia vivalma na rua. Nesse ínterim tocava-se um pouco de piano; jogava-se a dama ou o três-e-sete, conversava-se à luz do gás, na sala de visitas, ou então na sala de jantar, em torno à mesa oval coberta com um pano grosso de lã, arabescado.

O secretário ocupava a cabeceira, como nas refeições, D. Branca à direita e Adelaide à esquerda e principiava o jogo. — Isso quase todas as noites, quando ninguém os vinha visitar. O bacharel encontrava-os naquela intimidade, os olhos rubros de sono, disputando uma última partida, como três pessoas muito amigas, cada uma das quais existe porque as outras duas existem.

Boa vida! — costumava dizer Evaristo arriando o chapéu, num tom de adorável bonomia.

— Que se há de fazer senão isto mesmo? — replicava o secretário. — A política é para os bacharéis; eu prefiro as cartas.

— Como vamos de república, Sr. Evaristo? — gracejava a esposa de Furtado.

— Muito bem, D. Branca. E extraordinário o número de adesões. A idéia prospera e... le monde marche!

— Isso é o que se quer...

— Obrigado, excelentíssima, obrigado em nome do Progresso... O elemento feminino há de colaborar na obra da redenção do Brasil...

Uma dessas noites o secretário, aproveitando a ausência de D. Branca, e, em conversa com Adelaide, aludiu, indiretamente, ao episódio do Jardim Botânico. — "Nunca mais havia de esquecer o desgosto que tivera, o doloroso instante que passara..."

Ela compreendeu a alusão, mas não teve sequer uma palavra em resposta. Furtado continuou, baixando a voz:

(continua...)

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