Por Adolfo Caminha (1895)
Agora é que tinha um desejo enorme, uma sofreguidão louca de vê-lo, rendido a seus pés, como um animalzinho; agora é que lhe renasciam ímpetos vorazes de novilho solto, incongruências de macho em cio, nostalgias de libertino fogoso... As palavras de Herculano (aquela história do grumete com uma rapariga) tinham-lhe despertado o sangue, fora como uma espécie de urtiga brava arranhando-lhe a pele, excitando-o, enfurecendo-o de desejo. Agora sim, fazia questão! E não era somente questão de possuir o grumete, de gozá-lo como outrora, lá cima, no quartinho da Rua da Misericórdia: — era questão de gozá-lo, maltratando-o, vendo-o sofrer, ouvindo-o gemer... Não, não era somente o gozo comum, a sensação ordinária, o que ele queria depois das palavras de Herculano: era o prazer brutal, doloroso, fora de todas as leis, de todas as normas... E havia de tê-lo, custasse o que custasse!
Decididamente ia realizar o seu plano de fuga essa noite, ia desertar pelo mundo à procura de Aleixo.
Inquieto, sobreexcitado, nervoso, pôs-se a meditar. O grumete aparecia-lhe com uma feição nova, transfigurado pelos excessos do amor, degenerado, sem aquele arzinho bisonho que todos lhe admiravam, o rosto áspero, crivado de espinhas, magro, sem cor, sem sangue nos lábios... Pudera! Um homem não resiste, quanto mais uma criança! Aleixo devia estar muito acabado; via-o nos braços da amante, da tal rapariga — ele novo, ela mocinha, na flor dos vinte anos —, via-o rolar em espasmos luxuriosos, grudado à mulher, sobre uma cama fresca e alva — rolar e cair extenuado, crucificado, morto de fraqueza... Depois a rapariga debruçava-se sobre ele, juntava boca à boca num grande beijo de reconhecimento.
E no dia seguinte, na noite seguinte, a mesma cousa.
Bom-Crioulo desnorteava. Inconscientemente era arrastado para um mundo de idéias vagas que não o permitiam tomar uma solução pronta, definitiva. Só uma idéia conservava-se firme e clara em seu espírito: fugir, fugir quanto antes, não esperar mais nem um segundo, romper os diques de seu isolamento e amanhecer na rua, no meio da cidade, longe do hospital, “desse hospital de merda”!
Seus cálculos não podiam falhar. Deixava uma janela aberta, pretextando calor, arrumava a trouxa...— qual trouxa! nem era preciso trouxa! — e, alta noite, descia por um cabo. As janelas que davam para os Órgãos ficavam sobre um terreno anfractuoso, espécie de ladeira bronca, meio íngreme, despenhando para umas oficinas e estaleiros que havia embaixo, na ilha. Não eram, porém, tão altas que se não pudesse, embora dificilmente, com agilidade, tentar uma escalada. E Bom-Crioulo não seria o primeiro; antes dele, outros haviam desertado por ali. Contava-se de um que rolara a montanha, sendo encontrado quase morto ao pé de uma árvore, o corpo todo cheio de pisaduras, vertendo sangue pelo nariz; veio a morrer da queda, que lhe produzira uma doença grave na espinha.
O negro não teve dúvida; ergueu-se (era uma hora da madrugada), foi à casinha, para não dar a perceber, amarrou na cintura uma navalha de marinheiro que o acompanhava sempre, vestiu, por baixo da roupa branca de doente, a camisa de gola, e voltou cauteloso, perscrutando o silêncio e a escuridão. Depois, foi tudo rápido: deu volta ao cabo na janela, um cabo grosso trançado, e —... que os pariu! — saltou fora. Uma escuridão medonha na baía e um silêncio de arrepiar cabelo. Era a hora do sono forte, do sono pesado. As sentinelas bradavam, de instante a instante, o seu prolongado — alerta! que o eco repetia no mar e em terra. Nenhuma outra voz, nenhum outro sinal de vida. A cidade iluminada, estrelada de luzes microscópicas, era como vasta necrópole na lúgubre inquietação da noite.
Bom-Crioulo sentia um friozinho brando, um leve bafejo matinal arrepiar-lhe a nuca. Dirigiu-se tateando, tateando, rente com o paredão do hospital, sem olhar pra trás, sem ver nada. Tinha examinado bem o terreno antes de se aventurar; por esse modo, caminhando naquele rumo, ia direito a uma descida pouco escabrosa. Embaixo ficava o dique. era preciso muita cautela, muito jeito para não precipitar-se. Foi indo, foi indo, ora agachado, ora em pé, segurando aqui, segurando acolá, às apalpadelas, e pôde enfim —que os pariu! — chegar ao cais, à beira d’água, sem o mais leve arranhão. Dava meia hora na Candelária — uma pancada sonora e cheia, que reboou longe, soturnamente, acordando os ecos. — “Faltava atravessar o canal, pensou Bom-Crioulo, medindo com o olhar a extensão líquida que separava o arsenal da ilha. Paciência, um pouquinho de paciência. Devagar...” Encolheu-se todo por trás de um guindaste, reflexionando. — Ia dali rente para o sobrado: queria ver como estava aquilo; queria fazer uma surpresa ao senhor Aleixo. E a portuguesa? Já não se lembrava dela!... É verdade, a portuguesa?...
Um relâmpago, uma dúvida passou rápida em seu espírito, deslumbrando-o: — Qual! Não era possível!... Que tolice!...
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.