Por Franklin Távora (1878)
Só uma vista curta não verá na guerra dos mascates, antes uma luta travada por dois grandes princípios, do que uma revolta filha de preconceitos ridículos e costumes atrasados. Certo concorreram não pouco para essa luta o costume e o capricho antigo, inflexíveis ambos; mas o seu papel nessa grande representação foi mais secundário do que principal. A parte essencial e verdadeiramente dramática da ação, essa pertencia a dois grandes interesses, assim das sociedades modernas, como das antigas – ao comercio e a agricultura, princípios que, quando acordes em seu desenvolvimento, trazem a properidade e riqueza dos povos, e, quando divergentes, o seu atraso senão o seu aniquilamento.
As cartas de que Francisco foi portador, em substancia rezavam:
Que a guerra, declarada pelos forasteiros contra os pernambucanos e o governo legal, e já em principio de execução, prometia ser de vida e morte, atentos os meios de que dispunham aqueles, e o empenho em que se mostravam de aniquilar estes;
Que esses meios, eram imensos e consistiam não só em viveres acumulados durante os seis meses últimos nos armazéns do Recife, mas também em grossas quantias com que eles habilitavam os seus confidentes nas localidades mais importantes a propagar e alentar a premeditada hostilidade;
Que esta hostilidade era tanto mais digna de temer-se quanto a patrocinavam, dando toda a força que podiam aos negociantes do Recife, o governador Caldas, da Baia, onde estava, e até alguns fidalgos portugueses, por exemplo d. Francisco de Souza e seu filho d. João de Souza, que se achavam então no sul da província;
À influencia destes dois fidalgos já deviam os mascates a forte cooperação do coronel dos índios do Cabo, d. Sebastião Pinheiro Camarão, parente do grande Camarão, que tanto brilhara na guerra holandesa. D. Sebastião Pinheiro deixara seduzir-se por eles, bem como outros importantes moradores da freguesia do Cabo;
Que tinha Amador da Cunha (irmão de João da Cunha) recebido ordem do capitão-mór de Jaboatão para ir com sua gente por certo ao Recife, segundo o acordo havido com os capitães-móres de Maranguape, Iguarassú, Várzea, Santo-Antão, São-Lourenço, Nossa-Senhora-da-Luz, Ipojuca, Tracunhaem, Serinhaem e outras freguesias, afim de ver se conseguia que se rendessem os revoltosos;
Que a ele, Amador, se lhe afigurava, pelos obstáculos conhecidos ou calculados, terem os pernambucanos guerra para muitos anos, se Deus não conjurasse o medonho cataclismo que ameaçava devorar honras, fortunas e vidas. Enfim, tanto as cartas de Amador, como as de André e outros, acordes em quase todos os pontos e noticias, respiravam sobressaltos, inquietações e até desanimo. Havia porém no meio das trevas, que traziam, um ponto luminoso, que em todos os corações projetou um raio de esperança. Era a noticia de que o bispo se tinha libertado, por uma pia fraude, do poder dos mercadores.
O ódio, a ira, o receio, a impaciência e outros diferentes sentimentos tiveram por minutos perplexo e mudo o senhor-de-engenho.
Quando estava para tomar parte nas reflexões que os outros, durante o seu silencio, iam fazendo sobre o objeto da correspondência lida, umas das senhoras que se achavam na sala imediata, apareceu à porta do aposento. Era a mulher de Matias Vidal.
- É então certo que os mascates se mostram fortes e insolentes? Perguntou ela ao sargento-mór.
- Quem vos disse tal, senhora d. Izabel? Retorquiu ele.
- As cartas que acabastes de ler, respondeu d. Damiana, aparecendo também. Daqui ouvimos toda a leitura.
- Infelizmente parece que vamos ter guerra para muito tempo.
- Que vos dizia eu ainda ontem, Matias? Disse d. Izabel, dirigindo-se ao marido.
- As guerras, observou Manoel de Lacerda, se trazem males, também trazem bens. Demos tempo ao tempo. E levantando-se, encaminhou-se para a sala, aonde d. Damiana e d. Izabel retrocederam logo. Já aí estavam Cosme Bezerra e Filipe Cavalcanti, que a ele tinham precedido e conversavam com outras senhoras presentes.
- Estes mascotes não estão em si, dizia d. Maria Bezerra a seu marido. Não querem ver que não podem levar a melhor a nobreza da terra. Até os de Goiana, que não são muitos, hão de apresentar-se contra os nobres, disse o alcaide-mor.
Também os de Goiana? Inquiriu com incredulidade a mulher de João da Cunha. A senhora d. Damiana duvida que o façam? É porque ignora que os do Recife mandaram grossas quantias para cá comprar a gentalha que nos odeia. Antonio Coelho, do balcão de sua loja, que considera um trono, só tem para os nobres injurias e desprezos. Belchior Ferreira, de certo tempo a esta parte, monta guarda a horas certas todos os dias, em companhia de Romão, na botica do Rogoberto, e leva horas a dizer maldades e aleives contra os senhores de engenho.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.