Por Bernardo Guimarães (1872)
Estava em hábitos talvez de sua profissão, apertados com um cinto à maneira dos missionários de S. Vicente de Paulo; tinha também como eles no alto da cabeça uma tonsura maior do que a dos outros padres, e trazia pendente sobre o peito um grande crucifixo de metal. Faltavam-lhe apenas mais alguns meses de noviciado para ser definitivamente admitido no seio da Congregação.
Era o padre Eugênio, filho do capitão Antunes, que acabava de chegar a Tamanduá investido de todas as ordens e precedido de uma grande reputação de sabedoria e santidade. Era isto um acontecimento, que punha em grande expectação e alvoroço a vila inteira.
— É chegado o padre Eugênio — ecoava de boca em boca, e cada um se apressava em ir ver e saudar o novo padre, que, instalado na casa que seu pai possuía na vila, levou o resto do dia a receber as visitas e cumprimentos dos numerosos amigos da família e de quase toda a população do lugar.
Apesar de toda a cortesia e afabilidade com que acolhia os visitantes, via-se que o padre estava entregue a uma penosa preocupação, que mal podia dissimular. Havia ele chegado na véspera à fazenda de seu pai, onde pernoitara. Apesar de sete anos de ausência, e de uma vida passada entre místicas contemplações e práticas de austero ascetismo, a vista daqueles sítios acordou-lhe na alma todas as lembranças de sua infância, frescas e vivazes, como se foram da véspera, à semelhança de um bando de pintassilgos, que desperta chilrando debaixo do folhado laranjal aos primeiros raios da manhã.
Oh! essas emoções suaves da primeira quadra da vida têm um filtro sutil, um aroma inextinguível, que se entranha no coração para nunca mais desapegar-se dele. Volvem-se anos e anos, e quando já na meta extrema da existência a fronte encanecida nos pende para a sepultura, por entre os gelos da velhice a flor virginal do primeiro amor exala um doce perfume, e perto do túmulo nos embala ainda com as lembranças do berço.
Eugênio, pois, que via ainda na última, ourela do horizonte uns restos do clarão róseo da aurora da existência, devia então sentir em toda a sua força e suavidade a magia dessas recordações.
Cuidava que a flor delicada do amor, cujo perfume aspirava desde o berço, tinha morrido de uma vez para sempre abafada debaixo do manto gélido do ascetismo claustral. Mas ela era como a "sempre-viva" que, exposta ao orvalho frio da noite, esconde o seio fechando sobre ele as pétalas de ouro, para expandi-las de novo, nítidas e formosas, aos beijos do primeiro raio do sol. Ela havia apenas cerrado o seu cálix na sombria e silenciosa solidão da cela do cenobita, e agora ao contato do ar, à vista do solo onde nascera, procurava abrir-se ao novo exalando mais ativo o aroma há tanto tempo enclausurado, e rodeava o coração do moço como de um tépido e delicioso eflúvio de recordações.
Sentindo esse inesperado despertar de emoções, que julgava para sempre extintas, o padre estremeceu de sustos, e se esforçou por conjurá-las do melhor modo possível por meio de orações e penitências. Viera ao seu país natal, somente para visitar seus pais, que há tantos anos não via, e dar-lhes o gosto, por que tão ardentemente suspiravam, de vê-lo ordenado e ouvir-lhe uma missa; e no fim de uns quinze dias ao mais tardar pretendia voltar ao seminário a continuar a sua vida austera de cenobita e entrar para a Congregação da Missão de S. Vicente de Paulo. Mas tomado de susto e de sinistros pressentimentos, já se arrependia do passo que havia dado. A noite que passou na fazenda paterna foi para ele uma noite de horríveis inquietações e tribulações de espírito. Se não fosse a estranheza, que tal fato iria produzir em sua família e mesmo em toda a povoação, nessa mesma madrugada teria desaparecido sem dar parte a ninguém, e a toda a pressa voltado ao seminário a fim de pôr-se ao abrigo do espírito tentador que de novo buscava atravessar-se em seu caminho, e preparar-lhe novas lutas e dissabores.
No outro dia o padre Eugênio levantou-se com o espírito cheio de terrores e de vagas apreensões. Em companhia de seus pais, pôs-se a caminho para a vila triste e inquieto, como quem ia para um Getsêmani de provações, ou como quem marcha por um caminho estreito e escabroso flanqueado de abismos vertiginosos.
Avistando em distância a casinha de Umbelina, já tombando em ruínas e abafada entre o matagal, que lhe crescia em roda, sentiu uma nuvem de tristeza afogar-lhe o coração, e procurando afetar indiferença, não pôde deixar de perguntar pelos antigos habitantes daquela casinha.
— Eu sei! — respondeu friamente o pai. — A Umbelina, essa morreu... a filha, como talvez já saibas, casou-se, e creio que anda por aí mesmo.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.